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Iberismo: Sebastianismo ou Suicídio?

24.11.2006
 
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Iberismo: Sebastianismo ou Suicídio?

Como uma criança abraça um ursinho felpudo no meio da noite ao ouvir um som estranho vindo da janela, o povo português, em tempos menos bons, tem o hábito histórico de se agarrar ao Sebastianismo, acreditando que o rei que iria vencer as Africas e que perdeu a aristocracia, a nação, a coroa e a vida em Alcacer Quibir no dia 4 de Agosto de 1578, iria voltar.

Alguns livros da história nos contam que Rei Sebastião era um fraco e um louco, cuja missão custou Portugal a independência entre 1580 e 1640 (Filipe I de Portugal, II da Espanha, era o sucessor legítimo da coroa portuguesa). Outros dizem que foi um militar perspicaz e valente, que teve várias intervenções pessoais durante a dita batalha, mas que os mercenários italianos entraram em pânico durante uma fase crítica e depois, os árabes que estavam à espreita, vendo a oportunidade, caíram todos em cima do exército português.

De qualquer forma, o Rei Sebastião morreu e consignou-se ao reino do Mito.

Do Sebastianismo ao Iberismo

De qualquer forma, o Dom Sebastião entrou na psique portuguesa como salvador da nação em tempos difíceis, com várias referências na literatura e nos registos históricos. Temos agora em Portugal o debate sobre o Iberismo, definido por alguns como uma união entre Portugal e Espanha, mas com a vertente de liderança pendurada no lado de lá da fronteira, definido por outros como uma união mais consensual, um tipo de federação/bloco de negociação para dar mais força a Portugal nas negociações com a União Europeia, definido por outros ainda como uma vontade de realçar o bloco Ibero-Americano.

Mais uma vez, num tempo de dificuldade, e a crise em Portugal é enorme, se voltam os portugueses ao ursinho, ao sebastianismo, ao iberismo.

Quais seriam as vantagens? Para aqueles que querem deitar fora 863 anos de história, desde a fundação de Portugal como nação em 1143, que querem ignorar a realidade da economia de escala (quem produz 10 unidades vende a um preço superior por unidade comparado com aquele que produz 10.000 unidades) e que querem ignorar todas as regras e fórmulas nos livros da macro-economia, o facto que o espanhol hoje ganha três vezes mais do que o português e paga substancialmente menos pelos bens de consumo, faz todo o sentido Portugal tentar integrar-se mais com a Espanha.

Para bom entendedor, meia palavra basta: convidá-los para a cama, já que a coisa vai mal, a ver se saquem algum.

Se bem que ganhar três vezes mais e pagar substancialmente menos para tudo, que até funciona melhor, seria sim muito atraente, infelizmente seria uma traição de tudo que Portugal representa.

As questões

Se o Iberismo for uma plataforma de negociação mais lata, mais larga e mais pesada, incluindo Madrid nas negociações com a U.E., faz algum sentido teoricamente. Mas será que Madrid iria zelar pelos interesses portugueses? Se o Iberismo é prosseguir a união económica e comercial entre a Península Ibérica e a América Latina, faz todo o sentido, para juntar ao projecto já lançado da CPLP. Mas se o Iberismo visa a união de Portugal com a Espanha, com a inerente dominação por vuestros hermanos, cartão vermelha.

Para quem estuda Portugal há 35 anos e para quem vive em Portugal há 28, como eu, a ideia é nada menos do que chocante. Contraria todo o contexto histórico de Portugal, ignorando as tentativas do povo luso lutar pela sua independência, põe em questão bases culturais, enviando a padeira de Aljubarrota para a fossa que ela defendia, relegando Dom Sebastião ao estatuto de terrorista, rasgando as folhas da história que falam dos protagonistas de Portugal como criadores de uma Nação.

Onde estaria a cidade capital? Madrid? Badajoz? Olivença? Quem governaria o quê?

O quê é que correu mal?

O facto de muitos portugueses debaterem o Iberismo actualmente é sintoma e não doença.É sintoma porque grassa a ideia que Portugal de facto não estava preparado para entrar na Euro-zona quando entrou, e há quem defenda que Portugal nem estava preparado para entrar na CEE quando entrou e que entrou porque montou nas costas da Espanha e que a Europa fez vista grossa a vários dossiês na altura.

Mas é facto que Portugal está na U.E. hoje e que está na Euro-zona.

Se Portugal está na Comunidade Económica Europeia/Comunidade Europeia/União Europeia há 20 anos, e a receber subsídios, fundos perdidos e empréstimos há duas décadas e se ainda não está preparado para enfrentar os desafios sozinho, então há muitas verdades a serem examinadas com espírito aberto e objectivo.

Se os alunos de hoje que fazem o Programa Erasmus se comparam favoravelmente, muito favoravelmente, em termos académicos, com os seus pares de outras universidades europeias, parece que a questão teria de ser abordada um pouco mais acima.

E chegamos às gerações dos políticos no poder, falando nomeadamente dos políticos do PSD, do PS e do CDS/PP. Foram muitos anos de nepotismo. Foram muitos anos de colocar amigos e familiares em lugares de tomada de decisões. Gradualmente, o tecido político ficou cada vez pior, de tal maneira que quem tivesse duas células de matéria cinzenta, fugisse do serviço público.

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