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Paulo Fidalgo: a valsa entre as duas tácticas bolheviques

22.11.2006
 
Pages: 123
Paulo Fidalgo: a valsa entre as duas tácticas bolheviques

Celebrar o 7 de Novembro é certamente valorizarmos a herança heróica e revolucionária dos comunistas e a sua disposição genética à transformação do mundo!

Temos de reconhecer porém como é frustrante, para não dizer pior, que os comunistas raramente aceitem avaliar a sua própria história, apesar de serem os primeiros a moldá-la desde meados do século XIX.

Os comunistas, para além de heróicos e revolucionários são igualmente instituições, partidos, carreiras, projectos de vida, de grupos e organismos vivos, vulgares, que reagem com reflexos mesquinhos de mera sobrevivência. Como qualquer ser humano, são pessoas que devem ser julgados pelo que são e pelo que fazem, e não tanto pelo que proclamam defender.

Guardiães dos vários templos existem no campo comunista, que fogem a considerar a sua própria história com o pretexto de não dar pérolas ao inimigo.

Esquecendo porém que não há pérolas que possam ser dadas aos adversários que não tenham sido já por estes amplamente utilizadas. Como diz Louis Althusser.

Fazer a história dos comunistas é enfrentar com coragem os problemas que não conseguimos resolver. Que percebemos mal! Que determinaram em nós uma conduta errada. A história não serve porém para resolvermos os nossos problemas, antes, como ensina o historiador, serve para identificarmos os problemas que temos de resolver.

As peripécias do XXº Congresso do PCUS, o enorme estrondo com que elas abalaram as consciências de milhões de militantes, são um momento singular do século XX.

As suas revelações consternaram milhões de comunistas, confrontados com um Stáline perverso, violador imperdoável da legalidade socialista e responsável por um gravíssimo atentado à esperança dos comunistas.

Foi sem dúvida muito importante denunciar as purgas, fuzilamentos e deportações. Onde de resto se pode constatar que foram em primeiro lugar os comunistas as vítimas maiores de Stáline. Foi igualmente importante denunciar a negligência face ao blitzkrieg nazi que levou em 1941 a Wermartch aos arredores da Praça Vermelha.

Mas desencadeou igualmente uma significativa convulsão táctica, em torno das teses de coexistência pacífica, e sobretudo da ideia que uma revolução poderia vingar em condições relativamente pacíficas. Desencadeou ainda fracturas face ao diferendo com a Liga dos Comunistas da Jugoslávia, de quem o PCUS decidiu reaproximar-se, depois do conflito com a direcção de Stáline.

Essas convulsões tiveram impacto no comunismo português, nas oscilações entre o Vº e o VIº congressos do PCP e na cisão maoista. (…)

Não queria deixar de chamar contudo a vossa atenção para a insipiência de análise que o relatório «secreto» contempla, ao focar tudo ou quase tudo num problema de personalidade!

Como se a história fosse apenas o desfile de personalidades que explicariam as escolhas, os desenvolvimentos, os conflitos e as mutações sociais e económicas.

De um ponto de vista marxista, o relatório é seguramente muito insatisfatório, apesar de os seus ecos terem imediatamente desencadeado convulsões “desestalinizadoras” em Budapeste e Varsóvia. Esses momentos de convulsão, constituíram para muitos marxistas potencialidade de remodelação e não tanto de contra-revolução, como foi afinal a interpretação do comunismo oficial. Eles mostram que o PCUS e a sua direcção tinham tacteado um momento histórico efectivo. Tinham intuído, mal ou bem, mas com sentido do seu tempo, a necessidade de uma renovação.

Mesmo com as suas fraquezas, o processo do XXº Congresso, foi um abanão que poderia ter dado novas forças ao milagre da Grande Revolução Soviética.

Contudo, sem uma maturação teórica suficiente, sem uma estratégia de transformação, um projecto renovador corre para a derrota face aos expedientes de quem se habituou a defender o status quo.

E onde pode estar a raiz dos recuos posteriores ao processo do XXº Congresso?

É importante sublinhar, sem qualquer pretensão de contextualização económica, que o último escrito de Stáline, em 1952, conhecido como «Os problemas económicos do socialismo» identifica de forma mais ou menos involuntária um dos supostos nó-górdios da política económica.

Trata-se do problema das relações mercantis, e do seu valor na transformação. Resumidamente, Stáline identifica as relações mercantis na agricultura, como sinónimo de atraso e viscosidade na marcha da URSS para o comunismo. Se as unidades de produção agrícola se recusavam a funcionar nos moldes da indústria estatizada, isso era visto como adversa perpetuação de relações mercantis.

Face a uma economia industrial estatizada, onde o valor acrescentado das produções era colapsado, e os trabalhadores se mantinham rigorosamente assalariados, Stáline reclama que as unidades de produção agrícola que ainda auto-controlavam o valor acrescentado, aceitassem a sua alienação em benefício da estatização.

Reconhecendo embora que não havia condições para uma imediata estatização da agricultura, Stáline concorda com a ideia que a evolução pertinente seria necessariamente nesse sentido.

O problema porém é que não avalia outros caminhos de transformação económica, e sobretudo não dá solução ao bloqueio em que a economia soviética se encontrava face ao problema camponês.

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