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Meu filme é do diabo, diz Pedro Costa, melhor diretor em Locarno

19.08.2014
 
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Meu filme é do diabo, diz Pedro Costa, melhor diretor em Locarno

Ar grave e severo, barba branca, magro, Pedro Costa tem uma frase de efeito para definir seus filmes - "certos realizadores dizem que fazem filmes para lembrar, eu faço para esquecer".

O realizador português Pedro Costa, premiado Melhor Diretor em Locarno, não corre atrás de publicidade. Ao contrário, evita. Dois exemplos: no dia seguinte à exibição de seu filme, apenas algumas horas antes de sua coletiva com a crítica, o Festival enviou um sms ou recado eletrônico para todos informando ter sido anulado o encontro.

No encerramento do Festival, quando deveria ter subido à cena pra receber seu prêmio diante do público reunido na Piazza Grande, Pedro Costa não apareceu - já tinha deixado Locarno de volta a Portugal. Em seu lugar, compareceu uma representante da produção do filme.

A entrevista que vão ler embaixo foi uma das poucas por ele concedida e, mesmo assim, com uma duração limitada. Por isso, nada de estranhar se a própria revista diária editada pelo Festival cita-o como dono de um estilo seco e jamais condescente, referindo-se a filmes mas pode também ser aplicado ao seu caráter severo.

Portanto, Cavalo Dinheiro, seu filme, é de estilo seco e sem condescendência, não aspira agradar e ser sucesso de bilheteria, quer transmitir em cores sombreadas as desilusões do antigo pedreiro Ventura, imigrante caboverdiano em Portugal, que são por extensão as desilusões dos portugueses vítimas da austeridade econômica aplicada pela União Européia.

"Meu filme é uma tragédia caboverdiana passada em Lisboa. É a história de uma pessoa que talvez possa representar a história, o destino, o amargor, também com alguns pontos positivos de um povo, neste caso, o caboverdiano que, há muitos anos, emigrou para Portugal."

Sobre seu ator de sempre, Abel Chaves, Pedro responde com uma certa ironia "é muito agradável trabalhar com um ator que cozinha mas também escreve os diálogos e na construção de alguns cenários. Não é uma estrela, não é um star, não fica distante, é muito agradável para quem não tem muito dinheiro como eu. Todas as pessoas de minha equipe fazem muitas funções, todos fazem de tudo um pouco#.

"O filme não me custou mais do que 150 mil euros e teve muito tempo de rodagem. Não trabalhamos nosso argumento ou roteiro num escritório. Vamos ao bar, ao café, passeamos, e durante esses encontros falamos do filme, tomo algumas notas e eles dizem coisas que levam a associações, memórias, até chegar o dia em que começamos a filmar ".

"O filme parece bastante nu, não há camuflagem. Ventura está muito doente, os lugares são aqueles onde viveu e trabalhou. Ventura passou por muitos hospitais - caiu de uma andaime num acidente de trabalho, tem diabetes e essa doença mais espiritual que não tem nome, mas que poderia ser chamada de esquizofrenia, depressão, tristeza, mas acho que todos temos um pouco dessa doença por vezes à noite, mas ele tem todos os dias. Ventura está triste, mas prefiro fazer filmes assim do que comédias."

Rui Martins

 


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