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Comentário sobre “A Derrota de Israel”

18.08.2006
 
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Comentário sobre “A Derrota de Israel”

Admito escrever esta peça sentindo-me confuso, perplexo e algo desconfiado, pois costumo ler a coluna de Vasco Pulido Valente no Público com regularidade e costumo acompanhar cada linha, senão letra, com a cabeça a dizer o “sim” tão freneticamente que um dia destes até pode cair. Hoje, porém, foi aquele dia quando o espelho caiu, estilhaçando-se em mil pedaços, foi aquele dia em que o arroz doce da Dona Maria Filomena azedou, em que o Senhor Padre deixou escapar um arroto durante o Pai Nosso, foi aquele dia não em que meu herói Vasco nem foi polido, nem valente.

Começando pelo lead: “Apesar do 11 de Setembro e de tudo o que a seguir aconteceu, o Ocidente não consegue levar a sério a ameaça do islamismo, como levou a sério a do comunismo”, passando pela pergunta “Quem pode confiar a vida a soldados da (Força da ONU)?” passando pelo aval ao Israel fazer o que quer, quando quer e como quer (“Resposta desproporcionada...a quê? À instalação na fronteira de maios suficientes para paralisar e destruir uma boa parte de Israel?”) e terminando com o comentário extremamente infeliz sobre a civilização do Islamismo: “uma civilização fracassada, miserável e medieval”.

Resistindo à tentação de questionar coisas como se esta coluna foi escrita antes do almoço, à pressa ou se o autor terá uma amigalhaça judia algures escondida, porque não é meu estilo, penso mesmo que este tipo de comentário, num jornal com a qualidade do “Público” não pode ficar sem resposta.

Primeiro, o Comunismo não foi uma “ameaça” a não ser que se pode rotular de “ameaça” políticas que, por exemplo no caso da URSS, trouxeram uma sociedade analfabeta e medieval (essa sim), uma sociedade derrotada e um Estado fraco, na linha de frente em termos de cultura, alfabetização, desporto, actividades de lazer, educação, cuidados de saúde, quaisquer Serviços Públicos (com maiúscula), e garantindo como direito de nascença bens de consumo necessários, acomodação, pensão, emprego e de forma geral, mobilização social baseado em qualidades pessoais e não quem é quem, tudo num Estado seguro.

Sei, agora vão falar dos Kulaks, do Staline, dos GULAGs, manchas fáceis de atirar por aqueles que entendem absolutamente nada da política, da sociologia ou da história e que são rotundamente incapazes de separarem as disciplinas. Uma coisa é o modelo Socialista (que continua a funcionar perfeitamente bem na Suécia, por exemplo) e que poderia funcionar muito bem na Cuba, se o país não fosse estrangulado durante 44 anos por um embargo e outra é o complexo processo da formação de uma sociedade através de uma miríada de vertentes e vectores sociais.

A ameaça veio e vem do modelo capitalista-monetarista, aquele modelo tão vangloriado por masoquistas que adoram viver num sistema que providencia cada vez menos, para qual os coitados dos seus cidadãos-prisioneiros têm de pagar cada vez mais. Tomemos o país de Vasco Pulido Valente como exemplo...

Onde é que o modelo de educação capitalista se compara com aquela dos países Socialistas? Cultura, idem. Desporto, idem. Actividades de lazer, idem. Como se pode comparar um sistema em que uma boa educação é uma questão de sorte (meu próprio filho descobre agora que não pode tirar Direito, seu sonho de sempre, porque o Liceu Camões não teve número de alunos suficiente para abrir o curso de História de que ele precisava), onde a Faculdade é já paga (e esperem agora para ver as surpresas oriundas do processo de Bolonha – é que os cursos de três anos não serão aceites pelas Órdens, e o quarto ano contará agora como Mestrado, que como todos nós sabemos em Portugal é um grande negócio), onde o sistema de saúde pública, desculpem e tenham paciência, simplesmente não existe

Como se pode comparar um sistema em que comprar casa é um drama, ganhar um emprego sem aqueles contratos a prazo, manter o emprego, ir ao dentista, idem, idem, idem, e que depois de uma vida inteira de descontar, paga pensões de miséria? Há quem ganha 150 Euros de pensão de terceira idade cá em Portugal.

Por isso acho que rotular o primeiro sistema de “ameaça” é um pouco forte.

Segundo, este constante acto de questionar das capacidades da ONU é uma espécie de doença infecto-contagiosa que saiu da boca de Bush antes daquele acto de chacina no Iraque, quando, no meio de uma expressão de derisão estudada, ele referia à ONU como a “Liga das Nações”. Pois, se os países ultrapassam a Organização, quebrando sua Carta, e depois mentem para justificar seu casus belli (uma segunda e separada Resolução é sempre preciso em caso de guerra e Bush sabia que não iria tê-la e o casus não existe de qualquer forma porque sem ADM, o Iraque não constituía uma ameaça imediata a ninguém, nem às fadas no fundo do quintal de Bush, Cheney e companhia ilimitada hoje em dia) como é que a Organização pode agir de forma eficaz?

Por respeitar a ONU, por acreditar na ONU, por seguir à letra todas as cláusulas na sua Carta, garantimos que o Mundo fica sem Bokassas e sem Arbustos.

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