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D.João VI revisitado

15.02.2008
 
Pages: 123

Oliveira Lima repete a informação do irlandês Thomas O´Neill, oficial da marinha britânica, testemunha ocular do embarque da comitiva de D.João em Lisboa (e do desembarque no Rio de Janeiro) segundo a qual 15 mil pessoas teriam acompanhado o príncipe regente em sua retirada. Mas, em várias passagens, desqualifica O´Neill, ao considerá-lo uma testemunha “não inteiramente digna de fé desse acontecimento memorável”.

A exemplo de Oliveira Lima, muitos historiadores têm repetido essa informação, mas nunca se preocuparam em ir ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro (ANRJ) para conferir o registro da entrada dessa gente. O livro de O´Neill, escrito em 1810, acaba de ganhar nova edição: A vinda da família real portuguesa para o Brasil (Rio de Janeiro, José Olympio, 2007).

Nireu Cavalcanti, autor de O Rio de Janeiro setecentista (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004) foi o único historiador, até agora, que esteve no ANRJ para conferir essas listas. Fez as contas e concluiu que o número de pessoas que desembarcaram no Rio de Janeiro em 1808 e 1809 não passou de 444, “entre as quais 60 membros da família real e da alta nobreza portuguesa que chegaram ao Rio de Janeiro nos dois anos em questão”. Mas a maior parte dos historiadores ainda prefere se aferrar aos números de O´Neill porque, afinal, é mais fácil repetir o que já está impresso. E ninguém gosta de admitir erros ou corrigir equívocos.

O curioso é que Oliveira Lima repete também uma informação do britânico J. Luccock, que consta de Notes on Rio de Janeiro and the southern parts of Brazil; taken during a residence of ten years in that country from 1808 to 1818 (Londres, 1820) segundo a qual, por essa época, a população do Rio de Janeiro contava com um milhar de empregados públicos e outro milhar de dependentes da corte. Portanto, onde estariam os 15 mil que teriam vindo em 1808 e que seriam, na maioria, funcionários da monarquia?

IV

Em D.João VI no Brasil, Oliveira Lima se refere à página 233 a “um Carlos José Guezzi”, que seria um dos “numerosos agentes confidenciais” em Buenos Aires e Montevidéu de D.Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), que sempre foi considerado maçom, embora tenha negado a condição várias vezes. Mas, como se percebe, o autor desconhecia quem era esse Guezzi.

Por isso, é bom que se acrescente que Carlos José Guezzi (nome aportuguesado) era um médico piemontês que foi físico-mor da capitania de Moçambique, Rios de Sena e Sofala e juiz da balança da alfândega da Ilha de Moçambique e que, já enriquecido com o tráfico de escravos, partiu em 1803 rumo ao Reino, com a intenção de, antes, negociar escravatura no Cabo da Boa Esperança, Rio de Janeiro e Montevidéu. Ao que parece, instalou-se no Cone Sul, tornando-se informante de D.Rodrigo, provavelmente, em razão de suas ligações maçônicas.

Em meio à briga política que tinha por objetivo resguardar os direitos de D.Carlota Joaquina sobre a América espanhola, a uma época em que o rei da Espanha fora apeado do poder por Napoleão, Guezzi foi preso em 1811 e remetido pelo governador de Buenos Aires para Cádiz, onde a regência o mandou soltar, depois que o ministro D.Pedro Sousa Holstein (1781-1850) reclamou a sua libertação. Aliás, como Guezzi, Sousa Holstein (depois Duque de Palmela) nascera em Turim e, a esse tempo, era embaixador de D.João em Madri.

Como curiosidade, pode-se dizer que Guezzi foi quem, em 1800, comprou do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), ex-ouvidor de Vila Rica e desterrado em Moçambique por sua participação na conjuração mineira de 1789, um palmar na Cabaceira Grande e não pagou, o que fez com que o prejudicado recorresse à Justiça. O palmar, na verdade, pertencera à avó materna de Juliana de Sousa Mascarenhas, mulher de Gonzaga. A Guezzi o poeta vendera também três escravos.

V

Um grande traficante negreiro de Moçambique, como Guezzi, foi Eleutério José Delfim, aquele que teria levado a credencial da maçonaria carioca para que José Joaquim da Maia e Barbalho (1757-1788), estudante em Montpellier, atrás do pseudônimo Vendek, procurasse o embaixador da América Setentrional em Paris, Thomas Jefferson, para discutir um possível apoio daquela jovem nação à luta pela independência de parte da América portuguesa, que se articulava em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Delfim matriculou-se em 1786 na Universidade de Montpellier, mas deve ter retornado ao Rio de Janeiro, pois há o registro de que embarcou na nau Conceição e São José rumo a Lisboa a 8/7/1788 (ANRJ, Avulsos do Rio de Janeiro, caixa 141, doc.61).

Em 1792, Delfim iria dar com o costado na Ilha de Moçambique e, em 1797, receberia a carta-patente de tenente-coronel do terço da infantaria auxiliar, cargo vago no ano de 1793 por morte de Alexandre Roberto Mascarenhas, sogro de Tomás Antônio Gonzaga.

Filho do comerciante carioca Antônio Delfim Silva, Eleutério seria bem recebido pela elite negreira da capitania, especialmente por brasileiros que já haviam estabelecido casas comerciais na Ilha para negociar escravatura. Foi a partir da chegada de Delfim, coincidência ou não, que teve início em larga escala o tráfico de escravos da contra-costa africana para o Rio de Janeiro e Montevidéu. Tudo controlado pelo capital mercantil carioca, que se tornaria o principal sustentáculo da monarquia lusa em solo brasileiro.

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