Pravda.ru

CPLP » Portugal

Carlos Brito: O 20º Congresso do PCUS e o combate ao estalinismo

13.11.2006
 
Pages: 1234
Carlos Brito: O 20º Congresso do PCUS e o combate ao estalinismo

Assinalar os 89 anos da Grande Revolução de Outubro com um debate em torno do XX Congresso do PCUS, sobre o qual já passaram 50 anos, foi uma ideia feliz da Renovação Comunista. Parece-me uma boa forma de reflectirmos sobre o curso do mais ousado de todos os projectos libertadores, iniciado pelos bolcheviques, a 7 de Novembro de 1917.

Com efeito, o Congresso liderado por Krutchev, que se realizou, em Fevereiro de 1956, sensivelmente a meio do que veio a ser o período de existência da URSS, constituiu o primeiro sobressalto dramático sobre o emaranhado de contradições com se debatia a construção do socialismo.

O Congresso fez o ponto e enalteceu as espantosas realizações da Revolução nos domínios político, económico, social e cultural, mas, ao mesmo tempo, surpreendeu o mundo com a denunciado culto de Stáline e dos seus crimes, não hesitou em revelar sintomas de estagnação e riscos de declínio, e procurou fazer frente a tudo isto apontando orientações para imprimir um novo fôlego aos ideais de Outubro na União Soviética e à sua influência internacional.

Pessoalmente, além do choque provocado pelo Relatório Secreto de Krutchev, a que nenhum comunista escapou, tenho recordações bastante desagradáveis do período do XX Congresso, pois fui preso pela PIDE em Outubro de 1956, no auge das suas repercussões e especulações e ainda com muito confusão entre os comunistas sobre o que havia de verdade no que dizia na imprensa internacional. É claro que Staline e a repressão na URSS constituíam o prato forte com que os «pides» me massacravam nos interrogatórios.

Entre os próprios presos não sabíamos muito bem com tratar a questão: o Direcção do Partido tinha começado por dizer que eram mentiras e calúnias. Quando fugi do Aljube, em Maio de 1957, e voltei aos quadros clandestinos do Partido, a questão já estava muito mais aclarada. O Partido tomara posição sobre o «culto da personalidade» e circulavam entre os quadros textos teóricos interpretativos na maior parte oriundos do PC da China, também alguns do PC italiano, emprestados por camaradas intelectuais. Mas estava-se muito longe de avaliar o imenso novelo de complexas consequências que resultariam para o futuro.

O XX Congresso do PCUS (com a Relatório Secreto de Krutchev e as novas teses sobre a coexistência pacífica e a passagem pacífica ao socialismo) foi um terramoto de intensidade máxima, seguido de réplicas que continuaram por muito tempo. Depois dele nada ficou como antes.

Foi, obviamente, na sociedade soviética e na marcha da construção do socialismo na URSS que as suas consequências foram mais profundas e, em aspectos essenciais, mais positivas, sobretudo o desmascaramento do terror estalinista e nas medidas para conter a repressão. Nos comentários que li para preparar estas notas observei, nos textos mais recentes, uma tendência para minimizar o significado do XX Congresso. Julgo que se subestima precisamente este aspecto fundamental das suas repercussões.

No relatório de Krutchev salienta-se, e percebe-se porquê, o terror contra os comunistas.

Dois exemplos por ele apresentados: o primeiro, dos 1906 delegados ao XVII Congresso do PCUS, realizado em 1934, 1 108 foram presos e acusados de crimes contra a revolução; o segundo, 70% dos membros e candidatos eleitos para o Comite Central, nesse Congresso, foram presos e fuzilados, a maior parte entre 1937 e 1938.

O terror abatia-se, no entanto, sobre toda a sociedade como o Relatório elucida.

O historiador Moshe Lewin, no seu livro «O Século Soviético», cita cálculos feitos pelo KGB, na época de Krutchev, que estabelecem, para o perído de 1930-53, um total de 3 777 380 pessoas, acusadas de «crimes contra-revolucioonários», e o número de sentenças de morte de cerca de 700 000 – correspondendo na sua maioria às purgas de 1937-1938.

O terror estalinista não ficara, porém, nos anos 30, como os estalinistas de hoje pretendem fazer crer. O conceito inventado por Staline de «inimigo do povo» e a sua tese querida de que «quanto mais nos aproximamos do socialismo, mais crescem os inimigos da revolução», alimentava permanentemente as prisões, os campos de concentração e as execuções.

No momento da morte de Estaline, segundo o historiador atrás citado, havia 600 mil presos políticos, um ano depois, e por influência da direcção de Krutchev, o seu número já se reduzia para 474 mil. Foi posto termo ao império do trabalho forçado, milhares de condenados foram reabilitados. Assinalando os novos tempos, os membros do grupo conspirador que tentou derrubar Krutchev, um ano depois do XX Congresso, (Molotov, Malenkov, Kaganovich) não foram fuzilados, nem presos, nem submetidos a qualquer processo espectacular, como acontecia nos tempos de Estaline, mas simplesmente despromovidos e afastados e um deles até perdoado, Vorochilov.

Vivi cerca de um ano na União Soviética, entre 1966 e 1967, no início do período Brejenev, para estudar na Escola do PCUS para estrangeiros e tive a oportunidade de conviver com alguns professores e seus familiares e amigos. Posso testemunhar que embora não gostassem nada dos modos e do estilo de Krutchev estavam-lhe muito agradecidos pelas novas condições de segurança, o desanuviamento repressivo e dignidade que tinha assegurado aos cidadãos soviéticos.

Pages: 1234

Loading. Please wait...

Fotos popular