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Exclusivo: Paulo Fidalgo sobre Europa

02.10.2006
 
Pages: 12

Constata-se que a forma de organização capitalista supranacional na Europa apresenta vantagens de desenvolvimento produtivo e de modernização, condições a que sempre se associaram, no marxismo ortodoxo, com a ideia de base material indispensável à edificação socialista. Por isso, a ideia supranacional na Europa, e noutros lugares, tem força deatracção por conter uma promessa de desenvolvimento económico, o que quer que isso queira dizer, e de melhoria das condições de vida.

Embora no concreto, o progresso material tenha coincidido com o crescimento das desigualdades. Por isso, um programa renovado da esquerda não pode, diz o militante atento, não pode direi ainda, ignorar a força de atracção que a supranacionalidade tem para os trabalhadores enquanto esperança de mais progresso. Essa força é uma vantagem na maturação da consciência internacional dos trabalhadores e não pode ser encarada como desvantagem ou rendição à ideologia burguesa. Força de atracção essa que é claro, está muito para além das ideias nacionalistas que perduram numa grande parte da esquerda, e que sobretudo está muito para além daquilo que o capitalismo institucionalizado na União Europeia, pretende admitir como limitada evolução supranacional.

Finalmente, emerge na esquerda a ideia que a supranacionalidade tem mais a ver com o socialismo, do que propriamente com algo que os capitalistas queiram construir, para além de uma retórica que fica muito bem dizer em certos fora, sobretudo nas reuniões de líderes dos países quando trocam flutes de champanhe. Neste sentido, a supranacionalidade pode ser um projecto que retoma o velho sonho internacional dos trabalhadores, e que apenas se encontra aprisionado nos meandros e nos sistemas de controlo do nacionalismo burguês e do seu sucedâneo de sistema de Estados coligados e hierarquizados em torno do directório europeu.

Deste conjunto de pressupostos podemos dizer que a retoma da iniciativa nos pólos desenvolvidos do capitalismo passa por encarar os limites e a caducidade histórica da forma Estado–nação a favor de uma organização autónoma e cooperativa em rede, de índole supranacional, que deveria suceder ao longo período da vigência da forma nacional, enquanto invólucro e vestimenta insubstituível do capitalismo ou dos seus métodos de cartel inter-governamental.

A esquerda está pois confrontada com a retoma da tradição avançada internacionalista, antes aprisionada numa camisa-de-forças de base nacional ao longo do século XX. Neste sentido, passam os trabalhadores a querer um mundo novo a sério, e as burguesias a temer o demasiado pendor internacional que a multidão de explorados exibe cada vez mais num mundo global. A burguesia torna-se progressivamente em travão ao desenvolvimento e emerge a ideia de humanidade universal necessária a esse mesmo desenvolvimento.

Em boa medida é essa a evolução recente da «drole de union europeéne» em que vivemos. Em que o cretinismo eurocrata vocifera união num espaço cada vez mais imerso em rivalidades nacionais burguesas. Em que se constrói a megalomania de um tratado constitucional sem ter em conta a dinâmica burguesa centrífuga e euro-céptica. Um cretinismo enfim que torna os organismos europeus, supranacionais, em meros gestores correntes de uma agenda sem rumo, ao sabor das quezílias que perpassam entre a Inglaterra a Alemanha e a França. Face à bancarrota da hegemonia burguesa do processo europeu, cresce o espaço para uma iniciativa autónoma da esquerda na Europa. Que capture e se funda com a ideia progressista de construir uma supranacionalidade para além da mesquinhez nacional.

Nesse domínio, é preciso uma força europeia comunista e de esquerda que erga a construção política e jurídica da supranacionalidade. Que erga a construção de um espaço de coesão e redistribuição da riqueza e das oportunidades de desenvolvimento através de uma nova ética fiscal orientada para a construção de um Europa democrática. E que finalmente erga obstáculos supranacionais à navegação selvagem do capital, que trave as deslocalizações sem regras, que trave os fluxos predadores de capital e dê espaço às formações económicas alternativas ao capitalismo que germinam na economia pública e cooperativa. Queremos ainda uma força europeia comunista, que saiba animar as convergências com as forças socialistas, social-democratas, ecologistas e liberais, que na Alemanha, na França, na Espanha e na Itália, dão mostras de caminhar para uma ideia supranacional na Europa.

É claro que uma viragem supranacional do programa da esquerda, significa fazer incidir e estender a luta de classes ao espaço supranacional, local de onde tem estado manifestamente arredada, deixando à vontade os eurocratas para manobrarem. Não pode significar abandonar, num passo de dança pusilânime, o espaço nacional e abdicar das trincheiras nacionais que se mantenham para conquistar posições para os trabalhadores. O que se procura com a renovação comunista é preencher a lacuna da falta de uma linha internacional para o movimento comunista e ajudar a vencer as resistências para uma mais rápida edificação do Partido da Esquerda Europeia.

Luís de CARVALHO

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