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Exclusivo: Paulo Fidalgo sobre Europa

02.10.2006
 
Pages: 12
Exclusivo: Paulo Fidalgo sobre Europa

Foi a partir do momento em que Rosa de Luxemburgo e os espartaquistas de Berlim foram passados pelas armas da polícia e das tropas governamentais em 1919, e se deu o consequente refluxo na revolução alemã, que a ideia internacional construída ao longo do século XIX entrou em crise.

A Revolução deixou de ser encarada como processo comum às nações dominantes, sobretudo europeias, e deslizou lentamente para a ideia de que países periféricos poderiam encetar a gesta revolucionária pelos seus próprios meios, se tivessem força, e condições demográficas e geográficas suficientes. Foi o caso da Rússia e da China.

Porém, a passagem de um paradigma internacional para um paradigma nacional no campo revolucionário, conteve alguns deslizes tácitos nos objectivos da revolução. Que não foram inteiramente assumidos ou discutidos.

A revolução podia e continuava a ser chamada de socialista, um conceito fundamentalmente ligado originalmente a relações de produção específicas entre mulheres e homens na organização da economia, e menos centrado nas questões de Estado-nação, de poder ou de propriedade, apenas. Na realidade, porém, à semântica revolucionária passou a corresponder um ideal modernizador e desenvolvimentista sem uma ligação explícita a um formato concreto de relações de produção, naquilo que pode ser olhado como ênfase no crescimento da chamada base material da economia, máquinas e capital fixo, com consequente desvalorização do lado socialista das relações de produção. Com o evidente propósito aliás de capturar e de imitar o patamar do capitalismo desenvolvido do que de o superar verdadeiramente. Passou-se da ênfase na mudança das relações de produção para a ênfase na maquinaria e tecnocracia.

Um segundo deslize consequente à quebra da perspectiva internacionalista, é o de que a busca de modernização teria obrigatoriamente de ser alcançada pelo Estado motor da economia, algo de muitíssimo desviado do ideal libertário profundamente presente em Marx, Engels e Lenine e que aponta à extinção do Estado, a favor da sociedade civil de produtores auto-organizados. Substituiu-se a ideia de emancipação dos assalariados a favor de uma economia de produtores livremente associados, conforme consta do manifesto do partido comunista, por troca com uma economia composta ainda e sempre de assalariados, mas empregados do Estado, a trabalhar sob sua tutela, e a produzir excedentes para seu controlo e usufruto.

Um terceiro deslize foi a recuperação e até o encarniçamento da perspectiva nacional. A revolução no século XIX estava ligada à própria caducidade da moldura nacional de organização do capitalismo e dos povos, proclamando enfaticamente a ideia de se construir uma humanidade verdadeiramente universal, sem nações (e até contra as nações). Sem “nada porque se morra ou porque se mate”, segundo os versos da canção “Imagine” de John Lennon. Com a crise de Berlim, a moldura nacional passou a ser lida como plataforma motriz do próprio processo revolucionário.

Estaline como o seu “A Questão Nacional” contribuiu para o generalizado deslize nacional do movimento revolucionário, ao proclamar que o nacionalismo é revolucionário, mesmo que orientado apenas para a imitação dos preconceitos do Estado-nação presentes na metrópole colonial. O internacionalismo deixou portanto de representar a superação da forma Estado-nação, fenótipo e vestimenta indeclináveis do capitalismo, antes foi substituído por um ideal de nações iguais em direitos e porventura solidárias, mas ainda assim e sempre nações como tal. Em resumo, da ideia internacionalista enquanto conceito de superação da própria noção nacional, passou-se a uma ideia internacionalista como fenómeno de perpetuação do Estado-nação com contratação entre nações mais ou menos iguais.

O caminho nacional para a revolução socialista, que acabei de desenhar, entrou em crise com o colapso da perspectiva socialista na Rússia e ao que indicam muitos observadores, também na China. E entrou em crise também com o refluxo da revolução portuguesa, que se posicionou sempre como caminho nacional para o socialismo, embora ancorado na solidariedade dos países socialistas e dos governos progressistas do terceiro mundo. Na perspectiva portuguesa, seria sempre o socialismo de construção nacional sem que a supranacionalidade europeia, nela jogasse o que quer que seja. Essa linha foi manifestamente posta em causa pela evolução da revolução portuguesa na guinada que aconteceu no 25 de Novembro de 1975 e com a posterior adesão à CEE.

A reflexão que acabei de enunciar sobre as características do caminho que entretanto se tornou obsoleto, não foi manifestamente feita, embora o militante prático sinta que é preciso agarrar o momento político actual de outra maneira e tenda por isso a deslizar empiricamente do anterior nacionalismo de esquerda para um apoio a uma ideia supranacional, considerada mais ou menos incontornável. O empirismo não é contudo um método aceitável para a definição de uma orientação política.

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