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Editorial: Referendo em Portugal

02.02.2007
 
Editorial: Referendo em Portugal

Pergunta no Referendo - Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde autorizado? Eu pergunto, deveríamos estar a debater esse tipo de tema em público, ou pertence ao foro do drama particular?

Sei que a Esquerda está a favor do sim, mas entendo que esse assunto nada tem a ver com a política, sim com questões particulares, pois quando enfrentada pela possibilidade de um aborto, trata-se de umas das piores possíveis escolhas para uma mulher, uma tragédia intensa que ela vai levar no seu psique até ao fim dos seus dias.

Por isso por quê que os partidos políticos em Portugal se envolveram num assunto que não pertence ao foro público? No caso de um referendo, com que direito podem alguns julgar os outros por questões privadas, singulares e desconhecidas? E se o feto de dez semanas já tem olhos, já tem braços, já tem movimentos, já tem cérebro, com que direito irão milhões de pessoas às urnas no dia 11 de Fevereiro decidir sobre o futuro de futuras centenas de milhões de seres humanos indefesas que nunca terão o direito à vida, um dos direitos básicos em qualquer civilização há milhares de anos, ponto fulcral em todas as religiões e garantia em qualquer sistema legal?

Por isso não se concorda que haja um debate público, quanto menos um processo tipo-eleitoral, sobre um assunto que tem a ver com valores pessoais e elementos fundamentais cuja existência ou não, não pertence a um restrito grupo de pessoas numa determinada altura. O direito à vida é um preceito fundamental da Humanidade.

Em segundo lugar,despenalização para quem? Para a mulher? Para dançar o tango é preciso duas pessoas e para fazer um bebé, uma fêmea e um macho. Dado que em muitos casos é o macho que faz e foge, a noção de que é a mulher que será penalizada ou não é só um absurdo. É sexismo no extremo.

Evidentemente, a maior pena para uma mulher, seria o acto do aborto, isso já bastando para ter de carregar a decisão e o feito na consciência e evidentemente, não se vê qualquer utilidade na penalização de uma mulher por um acto que cometeu em desespero. No entanto, despenalizar o aborto não é liberalizar? Não é de facto dizer como sociedade que concordamos ou damos o aval à destruição daquela vidinha, daquele ser que tem olhos, que tem dedos, que tem mãos, que tem braços, que tem pernas…que tem vida, quer que queiramos ou não?

Finalmente, incluir o termo “dez semanas” na pergunta é para mim o que mais realce a impossibilidade de poder escolher o SIM. Se aqueles olhos estão já lá para verem, quem sou eu para os mandar para a escuridão eterna? Se aquela mão está já lá para segurar outra quando tem medo, aquela mão que é o cúmulo da confiança, que diz “leva-me e eu sigo-te”, quem sou eu para a cortar?

Olhem para a cara daquela criança na fotografia e perguntem se têm o direito de a massacrar num acto de terrorismo, que é o acto da interrupção propositada de gravidez.

Na impossibilidade de redigir uma questão para um sector de uma sociedade traçar regras de propriedade sobre a vida, que nunca lhe pertenceu, voto que esta não é um assunto de interesse político e por isso nem deveríamos estar a debatê-lo em público.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

Director e Chefe de Redacção

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