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Experiência Moçambique-Brasil em Jornalismo Pró-Direitos Humanos

18.09.2006
 
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Experiência Moçambique-Brasil em Jornalismo Pró-Direitos Humanos

Um estagiário moçambicano na REDH-RN traça alguns cenários pessoais, a pedido de Tecido Social

Por Josué Bila

Os responsáveis do jornal on-line Tecido Social pregaram-me uma partida. Boa, certamente. Pedem-me para, por escrito, falar do meu intercâmbio em direitos humanos no Brasil (2006), colocando também a experiência que tenho no jornalismo pró-direitos humanos em Moçambique (2003-2005).

Entendo ser difícil falar na primeira pessoa. Exige responsabilidade ética e humildade intelectual fortes, porque sem essas qualidades acabarei por cair na desgraça (do “louvor na própria boca é vitupério”). Seja como for, o convite está formulado e aceite. Tenho de me encher de acto de coragem para corresponder o mínimo do pedido.

Entretanto, inverterei a ordem do pedido. Penso ter esse direito e prerrogativa. Falarei primeiro da minha experiência em Moçambique, antes do intercâmbio em direitos humanos aqui no Brasil, por entender que a 2ª fase não teria lugar sem a 1ª.

Experiência em Moçambique

Em 2003, sou convidado pela Liga Moçambicana de Direitos Humanos para fazer parte de jornalistas da revista Democracia e Direitos Humanos. Nesse ano, era jornalista do jornal privado O País . A decisão de sair de um órgão para o outro foi difícil, mas viável, porque, desde que entrei no jornalismo, defendi (e ainda defendo) que os jornalistas devem especializar-se em uma área do seu interesse, fugindo, assim, de generalismos, que caracterizam a mídia não só do meu país, mas também de muitos quadrantes do mundo. Dentro dessa lógica e de outras condições de trabalho que me foram propostas, aceitei o desafio que estava em minhas mãos e em minha frente.

Dois anos depois, por razões institucionais e organizacionais da Democracia e Direitos Humanos e da própria Liga Moçambicana de Direitos Humanos, fui obrigado a deixar o órgão que ajudei a crescer, em termos técnicos, de conteúdos e de perspectivas de noticiar, articular e colocar os direitos humanos na reportagem. Claro, houve erros próprios de um processo novo em Moçambique. A pauta de direitos humanos, nas páginas dos nossos jornais, impressos e rádio-teledifundidos, ainda não faz parte da nossa cultura editorial. Apesar das dificuldades próprias de um processo midiático em emergência, dei um passo básico na compreensão dos direitos da pessoa humana.

Foi na Democracia e Direitos Humanos que comecei a ler, sistematicamente, grande parte do acervo internacional de direitos humanos das Nações Unidas, da União Africana, da União Européia, da Anistia Internacional, relatórios de direitos humanos sobre Moçambique, entre outros.

A leitura sistemática era tão necessária, porque em muitos dos artigos, notícias e reportagens a escrever tinha de colocar os artigos, pontos e alíneas violados, seja por actores estatais, interestatais ou outros. Esta experiência fez-me folhear e consultar a Constituição diariamente, uma vez que entre ela e os documentos supracitados há um acasalamento muito forte na primazia da dignidade humana.

Da DHnet e Tecido Social até o Brasil

Tal como disse, não pude continuar a trabalhar na revista Democracia e Direitos Humanos. Além disso, na paisagem midiática moçambicana não existe uma cultura editorial defensora de direitos humanos, que poderia satisfazer os meus interesses. Localmente, tinha, logo a priori, dois factores impeditivos. Lembrei-me de que sempre coloquei na minha agenda profissional tornar-me correspondente de um jornal/revista estrangeiro/a. Que “aprontei”? Sentei, por alguns dia, na sala de Internet do Sindicato Nacional de Jornalistas. Entrei no site de busca Google . Pedi – ele nunca nega o que dispõe – que me desse a lista de jornais e revistas do mundo lusófono, que abordassem os direitos humanos nas matérias que publicam. O Google deu-me muitas opções. Duas delas foram o portal DHnet - Rede Direitos Humanos e Cultura e o jornal Tecido Social. Li-os com atenção. Percebi, durante a minha leitura, que havia encontrado a minha alma jornalística em direitos humanos.

Depois de ler o site, entre setembro e outubro de 2005, escrevi para o editor-chefe do Tecido Social, manifestando o meu interesse em ser correspondente do DHnet ou do próprio jornal. Meu convite foi aceite.

Nos finais de novembro de 2005, o editor-chefe de Tecido Social passa-me, por e-mail, um site para que me candidatasse ao Intercâmbio Internacional de Direitos Humanos, coordenado pela Conectas Direitos Humanos , no qual estou, aqui no Brasil. Candidatei-me e consegui ganhar a bolsa de 8 meses. Neste intercâmbio, comigo estão duas moçambicanas, três angolanos e um timorense.

O intercâmbio se desdobra em dois momentos indissociáveis: acadêmico (teoria) e estágio (prática). Os primeiros quatro meses estão, fundamentalmente, dedicados às aulas, que se leccionam na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Particularmente, fiz três disciplinas na PUC-SP, a saber: Direitos Humanos, Relações Internacionais e Mídia e Poder. Os últimos quatro meses, em fase de terminarem, faço estágio em jornais. Fiz o meu primeiro estágio na revista Caros Amigos , em São Paulo, de julhoa agosto. Aliás, antes fi-lo no portal informativo da Conectas, ainda no período de aulas. Foram experiências ricas no alargamento do saber e inesquecíveis por saudosas pessoas com as quais trabalhei.

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