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David Aloni (RENAMO) sobre arrogância de Guebuza

04.09.2007
 
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Quando outros, ainda no exterior, se aperceberam desta situação, não voltaram. Não quiseram vir viver um comunismo “puro” que a Frente de Libertação de Moçambique implantara. Vivia-se um terrorismo de Estado e, eu não estava habituado a esse tipo de vida. Fiquei hospedado em casa dum irmão meu que era chefe regional dos aeroportos da região Centro. Entre várias estruturas, onde me apresentei, quando cheguei a Moçambique, foi o Ministério da Educação e Cultura em Maputo. Na altura, era ministra a senhora Graça Simbine. A minha audiência não passou de uma inquisição. Chegou a ponto de questionar os meus conhecimentos. “O senhor pensa que é quadro? Quadro formado por quem e para quem? Estou a citar alguns excertos da inquisição. O fim foi muito triste, pois prefiro não dizer, pelo que, não insista. Regressei à Beira e encontrei uma crise tremenda de falta de professores, porque estavam a abandonar as escolas. Apareceu alguém que tinha uma empresa que operava na indústria e comércio, pela qual fui convidado a ocupar o cargo de sub-gerente, embora não tivesse feito um curso específico; tinha noções de gestão com base na filosofia económica. Por causa da minha entrega e rápido enquadramento, fui evoluindo até ao ponto de ser responsabilizado outros cargos. É através do sócio-gerente que venho a conhecer Orlando Cristina. Que coincidência! É preciso dizer que, nessa altura, 1976, André Matsangaisa e Afonso Dhlakama estavam na Beira.

Teve algum contacto com eles?

- Não tive contacto com eles. Mas já sentia que alguma coisa iria acontecer, no País. Também fui abordado para dar aulas, e expus logo o assunto ao meu patrão. Este deu-me a luz verde para aceder ao convite, mas sem me esquecer da empresa. Comecei a dar aulas no Liceu e no Instituto Industrial e Comercial, mas sempre deixei claro aquilo que fui dito no Ministério da Educação e Cultura. Encontrei três professores que tinham sido enviados aos Estados Unidos, por Eduardo Mondlane, a darem aulas, e um deles era Joaquim Marungo, hoje chefe do Gabinete Central de Eleições da Renamo e deputado da Assembleia da República. Havia quatro negros com formação superior nas duas instituições supra, o que se traduziu num delírio, no Liceu e no Instituto.

Mas isto foi sol de pouca dura. Num belo dia 17 de Setembro de 1976, fui convidado por um casal amigo para jantar em casa deles. Dei deveres aos meus alunos. Os meus colegas foram dar aulas; foi precisamente nesse dia que o Dr. Marungo estava a explicar Matemática, quando aparece alguém, por trás, a dizer-lhe para o acompanhar. Quando chega na sede do SNASP, apercebe-se que outros dois colegas já lá estavam. No dia seguinte, fui a uma exposição de livros, entre os quais estavam meus dois. Quando, no intervalo, regressei à casa para almoçar, minutos depois de me sentar à mesa, toca a campainha, e abro a porta. Deparo-me com uma figura alta, grande e feia com uma notificação que dizia para o acompanhar. Essa notificação há-de sair no meu livro.

Tenho seis livros à espera de oportunidade para serem publicados. Veja que eu não sabia que os meus colegas tinham sido detidos. O fulano que me veio prender era meu aluno; veja até onde vai a baixeza dos homens! Então, lá fomos ao sítio, onde fiquei mais de três horas, de pé, sem ninguém me dizer nada, e a minha falecida esposa (que Deus a tenha em paz), estava grávida. Foi um psicodrama que não se pode esquecer!... Horas depois, o meu irmão toma conhecimento e vem ao meu encontro. Minutos depois alguém vem e diz-me para o acompanhar à cela e eu recuso. Depois, aparecem três para me pegarem, à força, e eu sacudi-os, porque eu já estava uma fera. Nunca fiquei tão nervoso como naquele dia, mas o meu irmão aconselhou-me a acompanhá-los. Meteram-me na cela 11. Mais tarde, vim a saber que o meu crime tinha a ver com o facto de ser contra-revolucionário e reaccionário. Mas quem prova isso? Não gostaria de entrar em detalhes, porque os momentos que se seguiram foram violentos para mim. Ficámos presos durante um mês na Beira e não nos comunicávamos. Houve uma confusão na Beira, protagonizada pelos alunos. Eles questionavam o porquê de até professores negros serem presos e afastados quando havia crise de professores? Este questionamento foi levantado, porque muitos professores brancos estavam a abandonar o País. Todas as escolas queriam entrar em greve, tendo o SNASP se apercebido de que nós tínhamos influência. Entretanto, este senhor que é Presidente da República faz uma visita à Beira, porque era ministro do Interior. Ele queria saber se havia ou não presos políticos. E nós ficámos satisfeitos, porque vimos que era uma oportunidade para expor o nosso problema. Esconderam os nossos nomes, para, depois, sermos desterrados para a Zambézia. O senhor Bonifácio Gruveta, que era governador na Zambézia, impressionou-nos, pela positiva, pois ele quis saber que crime cometêramos na Beira. Não levámos nenhum documento ou guia de marcha que informasse o mal que nós havíamos feito. O Gruveta fez diligências na Presidência da República Popular de Moçambique para poder agir em consciência. Recebeu instruções para fazer coisas que não lhe posso dizer.

Essas coisas eram mortais?

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