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David Aloni (RENAMO) sobre arrogância de Guebuza

04.09.2007
 
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Mas é preciso ter presente isto: Mondlane foi formado no ocidente, portanto, num país capitalista. Toda a sua intelectualidade e estrutura mental estavam em conformidade com a ideologia capitalista; por isso, leia com muita atenção a obra “Lutar por Moçambique”, onde vai perceber qual era o pensamento politico de Mondlane, o que Mondlane queria para este Moçambique. Ele fala de socialismo, de justiça social, mas a pergunta que devemos colocar é: de que socialismo falava Mondlane? É uma pergunta que muitas pessoas não colocam, mas eu a coloco. A crise na frente acontece numa altura em que dentro do bloco socialista começa a haver divergências muito sérias, pois os chineses e os soviéticos entraram em rota de colisão, apesar de ambos serem da mesma ideologia. E isto reflectiu-se na Frente de Libertação de Moçambique, uma vez que houve correntes ideológicas diferentes. Uns defendiam a sintonia com a União Soviética e outros com a China, por razões que não sei. Ressalta a pergunta: de que corrente pertencia Eduardo Mondlane? Não pertencia a nenhuma delas, porque ele pensava com a sua cabeça. Ele foi professor universitário, funcionário das Nações Unidas e tinha uma estrutura de pensamento diferente de outros camaradas seus, pois não era fácil de o manipular: era um osso duro de roer.

O facto de ele ter uma estrutura de pensamento diferente, custou-lhe a vida?

— No meu artigo sobre os 45 anos da Frelimo eu pergunto: não terá sido precisamente por pensar diferente que lhe tiraram a vida? Porque ele podia constituir um obstáculo para a implementação de uma das ideologias, mais tarde num Moçambique independente. Este é um raciocinou lógico.

Mondlane é assassinado, mas deixa um vice-presidente, que automaticamente devia liderar a frente. Na sua opinião o que aconteceu para que isto não acontecesse?

— Está a colocar uma questão pertinente. Esta é uma pergunta que é colocada por muita gente que se interroga e pensa com a sua própria cabeça. Os estatutos da Frente de Libertação de Moçambique rezam que a estrutura orgânica da frente tinha o ponto máximo o congresso, depois o presidente e vice-presidente. Porque é que depois do bárbaro assassinato de Mondlane o Reverendo Urias Simango não assumiu automaticamente a liderança da Frente? Começa outro problema, pois as tais duas correntes não estavam interessadas em ver o vice-presidente a liderar a frente. Quando dizemos Reverendo logo estamos a falar de um homem de Deus, um homem que acreditava nos valores mais sublimes, acreditava na existência do Senhor e rezava. Mas outros camaradas seus defendiam que a religião era o ópio do povo. E pergunta quem disse isso? A resposta é: foi Karl Max. Mas não interpretaram correctamente o seu raciocino. Está imaginar um reverendo a dirigir uma frente de libertação. Todos os valores éticos, morais e toda a ambiência que rodeava o reverendo não permitiriam trafulhices. Foi nessa altura em que começa a hegemonia política de uma região sobre outra, daí que era preciso neutralizar Urias Simango.

Criaram um triunvirato para o abater. Os estatutos previam a criação de um triunvirato? A questão da Frelimo pontapear as leis, pontapear a Constituição da República não é de hoje. É óbvio que naquela altura não havia Constituição da República, mas sim estatutos, que foram pontapeados. Havia um objectivo, pois o vice-presidente não se sentiu confortável. Que o pusessem como presidente e num congresso extraordinário elegessem um vice-presidente, era uma saída justa e coerente de acordo com os próprios estatutos. Não quiseram, prefiram criar um triunvirato composto por Samora Machel, Marcelino dos Santos e Urias Simango. Não gosto de falar de pessoas que nos deixaram, mas veja essas duas primeiras figuras tenebrosas e tenebrosas... E tudo fizeram para que o Reverendo se revoltasse, pelo que as duas ideologias continuaram a avançar em paralelo até à proclamação da independência. De acordo com alguns pensadores, analistas, historiadores e políticos, o que estava na cabeça de Mondlane é que após conquistarmos a independência, devia agir-se em conformidade com as regras universais que regem os princípios democráticos. No governo de transição deveria ser permitida a constituição de partidos que seriam os mesmos a concorrer às eleições na altura da independência. Mas, isso não aconteceu, abocanharam o poder. Tenho a certeza de que este não era a ideia de Eduardo Mondlane. Sabe que na altura existiam Gumo, Fumo e outros partidos e o próprio Reverendo tinha um partido dele, queria também participar, mas a Frelimo esmagou a todos, à força: implantou a ditadura e o totalitarismo; prenderam a gente.

Onde estava quando se proclamou a independência?

- Quando se proclamou a independência eu não estava cá, estava na Holanda a fazer a última formação académica em Relações Internacionais e Diplomacia. O meu estágio foi no Tribunal Internacional de Haia. Eu conheço aqueles corredores, pois assisti a dois julgamentos, o que me galvanizou para a causa de Relações Internacionais. No dia em que Moçambique fica independente, os meus colegas fizeram-me uma grande festa para, depois, no dia 27 eu ser graduado. A Reitoria convidou-me para dar aulas na mesma universidade, mas como fui à Europa para “roubar” conhecimentos para poder fazer crescer o meu País, decidi voltar. Desembarco no aeroporto internacional da Beira, exactamente no dia em que Samora Machel decretou através de um discurso, num comício as nacionalizações. Estava uma agitação terrível; pelo que vim a saber, mais tarde, outros moçambicanos que tinham estado a estudar nos Estados Unidos e noutros cantos do mundo, a formarem-se, ao desembarcarem no aeroporto foram presos; não foram vistos pelos familiares, depois de muito tempo fora de Moçambique.

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