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David Aloni (RENAMO) sobre arrogância de Guebuza

04.09.2007
 
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— Medo! Não tenho medo, porque já estou morto. A pessoa nunca morre duas vezes. Quem define quem deve ser patriota? Somos todos iguais perante a lei, pois o artigo 35 da Constituição da República é muito claro e o Artigo 48 da Lei-mãe diz que eu sou livre de pensar e escrever, expressar o que me vai na alma. É como a estória dos reaccionários e não reaccionários; os revolucionários e os contra-revolucionários. No meu trabalho de reflexão sobre os 45 anos da Frelimo, eu interrogo-me: quem define quem é reaccionário; quem não é reaccionário; quem é revolucionário e quem não o é, pois quem tem competência para definir?. Sou considerado reaccionário, mas até hoje ninguém me disse em quê fui reaccionário.

Já procurou saber?

— Várias vezes. A resposta é: Aloni já passou, é assunto para esquecer e seguem-se palmadinhas nas costas. Esquecer não posso, mas perdoar sim. Há uma canção que diz que “não vamos esquecer aquilo que passou”, pelo que o que passei nunca vou esquecer, porque foi terrível meu filho.

Obviamente que continua com as marcas e, certamente, elas influenciam a sua forma de pensar e/ou e ver Moçambique?

— Continuo com marcas e nunca mudei a minha forma de pensar. O pensamento continua o mesmo que eu tinha em 1952. Sempre vi as coisas à minha maneira. Quando atingi os dezoito anos, estava em Boroma na Escola de Formação de Indígenas na província de Tete. Em Agosto de 1958, fui de férias a Angónia, minha terra natal, e como sempre, gostei de andar com meu pai, pessoa influente na zona. Ele convidou-me a uma reunião em Lisulo. Lisulo é a corte real dos angoni, no Malawi, cuja zona fica localizada ao longo da fronteira.

O meu pai disse-me que o salvador do Malawi ia falar. Estava a referir-se ao Dr. Kamuzu Banda que ia dirigir um comício pela primeira vez. Nós de Angónia fomos em massa e eu ouvi o discurso do Dr. Banda. Não faz a mínima ideia de como eu vibrei perante aqueles dizeres, pois relacionei-os com a situação que se estava a passar em Moçambique. O meu régulo era primo do inkosi Gomane Kuende. As conversas deles, já em ’52 e ’53”, incidiam numa eventual independência do Malawi integrando Angónia, cuja intenção foi descoberta pelos portugueses. Para os portugueses aquilo que se passava no Malawi era confusão, pelo que queriam manter o seu regime aqui no País, mas Banda podia falar em público naquele ponto do nosso País. Nós queríamos independência de Moçambique, bem como os malawianos queriam também ser livres.

Naquele tempo ainda não estávamos organizados, naturalmente. Willard Gomane Kuende disse ao seu primo que nós ficaríamos independentes se nos encostássemos a eles. Em termos sociológicos e políticos, isto queria dizer que era anexação de Angónia ao Malawi. E o meu inkosi queria que isso acontecesse, mas foi descoberto pelos portugueses, o que lhe custou a prisão. Quando regresso daquele comício eu galvanizei os meus colegas na Escola normal, até que houve uma agitação que me valeu a acusação de mentor da rebeldia. Foi atrevimento demais, o que nos valeu uma punição até dizer basta. Nessa altura, não sei se existiam a UNAME, o MANU e a UDENAMO. Passado um tempo, mantenho contacto com o fundador de UNAMI, o moçambicano Cândido Gadaga. Ele e Baltazar Chagonga, pai de Filipa Baltazar, que foi deputada na Assembleia da República, foram os fundadores da UNAMI, cuja agremiação passaria automaticamente a ser o meu movimento, porque congregava o distrito de Tete e parte da Zambézia. Mas, os fundadores estavam escondidos no Malawi. Nas celebrações dos 45 anos da Frelimo perguntei se conhecem uma tal carta de Eduardo Mondlane dirigida a Baltazar Chagonga.

O que é que dizia essa carta?

— Não posso revelar agora o conteúdo da mesma. É a partir dessa correspondência que a UNAMI aceita integrar um movimento único para a libertação de Moçambique. O MANU e a UDENAMIO devem ter mantido correspondência com Mondlane para se unirem. Nasce, deste modo a Frente de Libertação de Moçambique, a qual todos nós pertencemos. Estou a falar do famoso dia 25 de Junho de 1962, pois o que se discutiu no primeiro congresso está muito claro. Foi no primeiro congresso onde se institucionalizou a Frente de Libertação de Moçambique como um movimento de libertação, pelo que foi muito aliciante e interessante. Perante o que se passou naquele congresso ninguém duvidou que devíamos nos unir para conquistar a independência, dentro de uma perspectiva democrática. Daí que houve eleições. É evidente que todos achavam que Eduardo Mondlane era aquele que devia liderar a frente.

Além disso, tinha que se eleger um vice-presidente: o Reverendo Urias Simango foi eleito vice-presidente da Frente de Libertação de Moçambique e os dois são reeleitos no segundo congresso em 1968. Sabe que este ano foi conturbado na história da Frente de Libertação de Moçambique, pois foi nessa altura que começa a fermentar e, depois, nascer uma nova ideologia, que já não era de carris democrático. Independentemente da frente ser apoiada por países diversos, uma vez que estávamos na fase critica da guerra fria entre este e oeste, as coisas complicaram-se. Naturalmente, os de leste, que constituam o bloco socialista estavam interessados na libertação das antigas colónias, tendo dado apoio possível, nomeadamente a ex-União Soviética com todos países satélites e a China, justamente para conquistarmos a nossa independência, a nossa soberania.

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