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David Aloni (RENAMO) sobre arrogância de Guebuza

04.09.2007
 
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David Aloni (RENAMO) sobre arrogância de Guebuza

O académico e quadro sénior do partido Renamo com a pasta de ministro “sombra” da Indústria e Comércio e membro do Conselho de Estado, Doutor David Aloni, numa longa entrevista ao MAGAZINE, quebrou o “silencio” ao acusar o Presidente da República de ser prepotente e arrogante, cujo comportamento “vai incendiar Moçambique a qualquer momento”. Aloni recorda os momentos críticos da Frente de Libertação de Moçambique sem deixar de manifestar a sua preocupação em relação ao estágio actual do País, pois para ele, Moçambique está a mudar para o abismo. “Se continuarem fechados, empurrando o diálogo para o lixo, o que não acontecia na governação de Joaquim Chissano, a situação vai ficar feia”, avisa Aloni para quem dirigir a Renamo não faz parte da sua agenda, pelo que prefere deixar o lugar para os jovens. Siga os trechos mais significativos da conversa concedida ao jornal MAGAZINE INDEPENDENTE.

Nelo Cossa*

O Dr. Aloni andou desaparecido da vida sócio-política e cultural do País por causa de doença. Como se sente hoje?

— Não estou cem por cento bem de saúde, mas dá para trabalhar, pois durante um período estava interdito pelo meu médico de exercer qualquer actividade intelectual. Mas agora ele disse que já posso voltar a ler e escrever. Muito obrigado por se terem preocupado com a minha saúde, pois agradeço também a oportunidade que me dão para poder dizer aos moçambicanos aquilo que penso do nosso belo País.

Académico, intelectual, político como é que vê o País?

— Esta é uma pergunta difícil de responder sr. Cossa, porque cada um de nós vê o País à sua maneira; cada um de nós vê o País sob seu ponto de vista, sob uma determinada perspectiva. Como sabe, diz-se que a prática é critério da verdade e eu digo que a experiência também o é. Diante de um objecto, a gente diz que está aí uma mala bordada, porque a vejo numa determinada perspectiva, enquanto uma outra pessoa enxerga a mesma mala numa outra perspectiva, por estar sentada numa determinada posição diferente da que me encontro.

Mas o objecto da nossa atenção, da nossa análise é a mala no seu todo. Se digo que a mala que enxergo é bonita, a outra pessoa pode dizer que vê a mesma mala e não a acha tão bonita como eu a vejo. Mas atenção que estamos a falar da mesma mala, que é vista por duas pessoas em perspectivas diferentes. Onde está a verdade? A verdade é a própria mala, pelo que nem Aloni e muito menos a outra pessoa têm a verdade. Aquela mala é que é a verdade, objectivamente falando. Mas a mala existe ou não existe? Claro que existe e eu estou a vê-la, e a outra pessoa também diz que existe e esta a enxergá-la. Ou o senhor vê a mala na esquina e eu na sua plenitude. Então, a prática é a mala. Isto para dizer que vejo o País de uma maneira diferente, porque eu venho desde o tempo colonial, o tempo da luta armada de libertação nacional; eu vivi a independência. Eu vivi o desenrolar do processo político moçambicano, desde a proclamação da Independência até, por exemplo, a criação do Partido de Vanguarda da Aliança Camponesa, cuja síntese está neste livro que lhe mostrei sobre o terceiro Congresso da Frelimo que se realizou de 3 a 7 de Fevereiro de 1977. O que se seguiu depois foi aquilo que obrigou aos moçambicanos a começar a dividir-se, porque uns pensavam de uma maneira e outros de outra, o que é natural.

Dentro de vinte 20 milhões de moçambicanos podemos dizer que há 20 milhões de pensamentos a reflectir sobre o mesmo objecto, que é mala, neste caso a mala é todo o País como já referi. E como tal, por exemplo, temos que admitir que sr. Cossa pense de uma forma diferente, porque é uma personalidade distinta da minha; o senhor pensa à sua maneira e eu penso à minha maneira. O seu pensamento e o meu, bem conjugados vão dar-nos uma síntese do que é o País. Por isso, a verdade não é mais do que o somatório de pequenas verdades de cada um de nós, que são os vários pontos de vista; as várias perspectivas, que cada um vê num determinado ângulo.

Portanto, estamos a falar do País. Porque não viu o País antes, naturalmente, poderá não concordar com aquilo que vou dizer. Mas, devo referir que o depois nunca o é sem o antes. Este é que é o ponto. Quando dizem que os velhos são uma biblioteca, acumuladores de experiência da vida, é porque de facto, viram o antes, o hoje, e estão a ver o depois, que é o amanhã. E porque o homem é ser projectado, pelo que vivemos o ontem; vivemos o hoje a partir de ontem, vamos viver o amanhã a partir de hoje. Então, a projecção consiste em estarmos lançados para o amanhã. Anda hoje na moda que temos que ser pro-activos, o que quer dizer que temos de agir em função do futuro. Este País podia estar melhor do que está, porque quanto mais eu analiso a situação sócio-política, económica, cultural e até histórica eu fico preocupado. Mas a minha preocupação pode ser interpretada de várias maneiras, pois uns dirão que Aloni é radical e, outros, é pessimista, porque vêem tudo com óculos escuros; bem como dirão que Aloni não é patriota.

Embora não tenha dito o que lhe está preocupar no País, o Dr. não tem medo de ser radical?

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