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O que é o Antropoceno?

31.01.2016
 
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Durante algum tempo, aceitei o Antropoceno como época que sucederia o Holoceno. O Antropoceno seria a primeira grande fase na história da Terra criada por uma única espécie atuando coletivamente: o homem. Daí seu nome, que deriva de antropos (homem no sentido genérico) e kainos (novo). Trata-se de uma ideia forte, que causa impacto e assusta os incrédulos.

Por Arthur Soffiati, ecohistoriador e ambientalista

 Refletindo melhor, passei a considerar o momento que vivemos não como uma nova fase, mas como a crise do Holoceno. Pela geologia e paleontologia, uma nova era, período e época se caracterizam pela expansão da vida através de espécies. O momento que vivemos vem sendo marcado por alterações profundas na atmosfera e no clima, devastação de formações vegetais nativas, extinção de espécies, ocupação devastadora do espaço, poluição de toda a natureza, aumento de poeira no ar etc. Assim, o Antropoceno é mais uma crise do Holoceno do que uma nova época. Todo fim é lento. Não se passa de um momento a outro como da noite para o dia. E isto é valido tanto para a história do Universo, da Terra, da vida e da humanidade. Por exemplo, a data mais comum para marcar o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna é 1453, com a tomada do império bizantino (cristão) pelos turcos otomanos. No meu entendimento, esta data não merece tal status, mas, se merecesse, seria absurdo admitir que, no dia 31 de dezembro de 1452, dormiríamos na Idade Média e acordaríamos na Idade Moderna, em 1 de janeiro de 1453. Existem transições mais ou menos longas entre momentos.

Hoje, com mais reflexão sobre a história da Terra, começo a suspeitar que os geólogos e paleontólogos se precipitaram ao nomear nossa época de Holoceno, época que desejamos matar com o Antropoceno. Examinei as quatro glaciações do Pleistoceno, no último um milhão de anos e minhas dúvidas aumentaram. A glaciação de Günz estendeu-se de um milhão e cem mil anos a 750 mil anos. Entre ela e a glaciação de Mindel, houve uma transição de 170 mil anos que recebeu dos estudiosos a condição de fase sem nome próprio. A glaciação de Mindel durou 130 mil anos. Sucedeu-lhe uma transição de 250 mil anos, a mais longa entre as quatro glaciações do Pleistoceno, mas também sem nome próprio. A glaciação de Riss durou 60 mil anos. A fase que de aquecimento global que a sucedeu também durou 60 mil anos e não teve nome próprio. Por fim (?), veio a glaciação de Würm, com 70 mil anos. Seguiu-lhe uma fase quente, a única a receber um nome próprio: Holoceno (de Holos=total+kainos=novo, total, completamente recente).

         Logicamente, foram cientistas ocidentais que nomearam esta época. Achar que ela contém a totalidade é típica demonstração de arrogância. Nossos cientistas nem levantam a suspeita de que o Holoceno é mais uma transição entre a última glaciação e uma possível próxima no futuro. Talvez, mudemos tanto o presente que as destruições causadas pela civilização ocidental, atualmente globalizada, acabem se encontrando com um novo resfriamento do planeta e uma nova glaciação.

         Da minha parte, entendo que o Holoceno deveria se chamar Antropoceno. No fim da última glaciação e início da atual fase de aquecimento, o "Homo sapiens" já tinha eliminado outras espécies do seu gênero e família. Há quem sustente que o "Homo neandertalensis" extingui-se nos primórdios dessa nova fase de transição quente. É uma suposição. Tudo indica que ele já estivesse extinto quando a nova fase de calor começou.

         Assim, ao começar um novo momento quente, o "Homo sapiens" estava com um sistema nervoso central que ele havia desenvolvido nos duzentos mil anos anteriores. Saindo da última glaciação e entrando em novo fase aquecida, os grupos humanos podiam dar respostas diversificadas ao desafio do aquecimento com esse cérebro complexo. E deram três. Uma delas foi continuar vivendo como se nada houvesse acontecido, com um modo de vida para o frio em ambiente quente. O resultado foi a extinção de tais sociedades. O segundo foi se alojar em locais frios da Terra, sobretudo acima do círculo polar ártico, a exemplo dos inuits. Tratava-se de uma solução cômoda, pois consistia em continuar adaptado ao frio em novo local da Terra.

         A terceira foi a mais perigosa: domesticar plantas nativas e criar a agricultura. Domesticar animais silvestres e criar a pecuária. Agricultura e pastoreio foram a base para as primeiras civilizações e cidades. A Terra teria suportado a prática do agropastoreio por várias sociedades neolíticas. Poderia suportar várias civilizações desde que se restringissem a limites. Mas uma delas inventou a economia de mercado. Crescendo sem freios, esta economia leva agora à uma crise global que alguns cientistas estão chamando de Antropoceno, como se fosse uma nova época.

         Quem cunhou o termo Antropoceno pela primeira vez foi o biólogo Eugene Stoermer, mas foi químico Paul Crutzen que o popularizou. A intenção de ambos foi nomear uma nova época, após o Holoceno, criada pelas ações coletivas do ser humano depois da primeira revolução industrial no fim do século XVIII. Há discussões sobre o início do Antropoceno. Uma proposta é situar as origens da época com a domesticação de plantas e animais, criando-se a agricultura e a pecuária. Assim, o Antropoceno corresponderia ao Holoceno.

         Como já se falou, nenhum período interglacial recebeu nome próprio. Holoceno é um nome muito arrogante para uma época que, naturalmente, poderia ser um intervalo mais quente entre a glaciação que se findou há 12 mil anos e a próxima, que é uma possibilidade. Mas, nesse intervalo, o "Homo sapiens" alterou profundamente o ambiente natural da Terra com a agricultura, a pecuária, as cidades, as grandes obras, o capitalismo, a indústria e a globalização.

         Diante de tanta insistência para o reconhecimento de uma nova época, a União Internacional de Ciências Geológicas criou um grupo de trabalho na Comissão Internacional de Estratigrafia, seu mais antigo órgão, para tomar uma decisão oficial no Congresso Internacional de Geologia, que será realizado na África do Sul neste ano. O grupo de trabalho já publicou um artigo na revista especializada "Science", posicionando-se favoravelmente ao reconhecimento de uma nova época.

         Os autores do artigo sustentam que a ação humana transformou profundamente o planeta. O início da nova época, segundo eles, deve se situar, em números redondos, em 1950. Os indícios dessa radical mudança são:

1- Aumento da concentração de gás carbônico: estima-se que este aumento seja da ordem de 2 ppm (partes por milhão) por ano nos últimos 50 anos. A Terra necessita de uma camada desse gás para conservar calor, mas se ela se adensa muito, o calor aumenta. E esse adensamento não é natural, decorrendo de emissões promovidas pela humanidade.

2- Produtos tóxicos: os cientistas incluíram aqui os insumos químicos usados na agropecuária e a radiação de armas nucleares, tanto na guerra como nas experiências. Sem formação adequada, eu incluiria também os gases oriundos de queima de matéria orgânica fóssil ou viva, como também de outras origens.

3- Aumento do alumínio. Este metal não existia na sua forma pura antes do século XIX. Sua produção exigiu o desmantelamento de grandes porções terrestres. Hoje, o acúmulo de alumínio alcança 500 milhões de toneladas. Cerca de 98% desse total, depois de 1950. Pergunto por que não se considerou o aço, também inexistente na natureza em sua forma pura antes da Revolução Industrial.

4- Concreto. Estima-se que, nos últimos 20 anos, foram produzidos 25 bilhões de toneladas de concreto, quantidade suficiente para cobrir cada metro quadrado do planeta com 1 kg do material. Pergunto por que não considerar também a pedra trabalhada, a argila usada em tijolos e telhas e o asfalto. Em síntese, a Terra está quase impermeabilizada, concentrando ainda mais calor e aumentando as temperaturas.

5- Plástico. Calcula-se que a produção anual seja de 300 milhões de toneladas. A maior parte acaba nos rios, lagoas e oceanos, com resistência muito grande à degradação.

         Da minha parte, eu consideraria ainda outros fatores apontados pelo Centro Resiliência de Estocolmo: 1- mudanças no uso do solo, com a substituição dos ecossistemas nativos por lavouras, pastagens e cidades; 2- a extinção acelerada de espécies vegetais e animais; 3- a aceleração e a linearização dos ciclos de nitrogênio e fósforo, que contaminam as águas doce e salgada;  4- a acidificação dos oceanos; 5- a poluição da água e do solo; 6- concentração de poeira na atmosfera; 7- ainda a corrosão da camada de ozônio.

         O autores do estudo entendem que os impactos causados pelas atividades humanas são intensas, mas não podem ser comparadas com a magnitude do meteorito que colidiu com a terra há 65 milhões de anos e provocou a extinção dos dinossauros. Sem os devidos conhecimentos, entendo que as ações humanas coletivas nos últimos 50 anos ultrapassam o choque do corpo celeste. Uma colisão tão grande seria percebida por toda a humanidade no momento em que ocorresse. 65 anos, tempo estimado pelos cientistas para o início do Antropoceno, é um período muito curto, mas, se o meteorito atuasse quase na surdina nesse intervalo, nós não perceberíamos claramente sua ação destruidora. É isso que a humanidade vem fazendo com o planeta.

         Com todos os argumentos apontados, não acredito que estejamos entrando numa nova época, mas sim produzindo a crise do recente período interglacial ou do chamado Holoceno. Os arqueólogos do futuro vão se espantar com as mudanças e com o lixo que deixamos.

 

 

 

 


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