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Tentando desvendar um aparente enigma

31.01.2015
 
Tentando desvendar um aparente enigma. 21547.jpeg

Os dois últimos ocupantes do Palácio do Planalto revelaram ser portadores de uma falsa compreensão dos três poderes máximos da República.

Iraci del Nero da Costa *

Ao que tudo indica, imaginaram que o Executivo poderia ser manipulado ao bel-prazer do presidente da República desde que o poder Legislativo fosse devidamente enquadrado pelas benesses com que partidos políticos aliados, deputados federais e senadores fossem contemplados; e isto independentemente das leis e normas em vigor, pois não captaram pertinentemente o papel dos órgãos reguladores votados a verificar se aqueles dispositivos constitucionais e demais instrumentos legais estão a ser obedecidos. Sobretudo Luiz Inácio da Silva, dada sua formação sindical, parece ter entendido que o poder Judiciário comportar-se-ia de modo absolutamente complacente com respeito ao poder central quando "dominado" pelas nomeações, por governantes petistas, de seus integrantes.

Dilma Rousseff, por sua vez, marcou-se por sua insuperável insensibilidade política a qual, evidenciada a cada passo, tem um de seus pontos mais expressivos na tolerância da governante quanto à presidente e à diretoria da Petrobras em face da chaga trazida à luz pela assim denominada Operação Lava Jato.

Enfim, vivenciamos uma quadra na qual os mandatários da Nação e muitos dos dirigentes máximos do PT propugnaram por uma forma de ação na qual ao Executivo abrir-se-iam todas as portas, o poder Legislativo seria levado à obediência regada por dádivas de variados tamanhos e feitios, já o Supremo Tribunal Federal mostrar-se-ia não mais do que uma presença ausente enquanto os demais órgãos regulatórios do poder Judiciário ensimesmar-se-iam em suas modestas dimensões.

Trata-se, como se percebe e como demonstrado pelos episódios do Mensalão e da Petrobras, de uma postura inteiramente falsa e distorcida em face da vida política nacional.

No caso de Luiz Inácio da Silva tal visão, tamanhamente apoucada e própria de quem se pensa acima de tudo e de todos,(1) teria decorrido do fato de ele ter-se deixado embair não só, como avançado, por sua formação sindical mas, também, pela sua inquestionável liderança carismática conquistada junto a uma imensa parcela da população brasileira. Quanto a Dilma estariam presentes, além de uma personalidade considerada inflexível, a inexperiência política, sua rápida e mágica ascensão de poste à condição de presidente da República e a confiança emprestada a alguns de seus prepostos. Note-se que tal confiança, ou mera simulação de exacerbada confiança, deriva da tentativa por parte da presidente de não considerar os ataques da oposição e de passar a ideia de que tudo está sob controle e os malfeitos e crimes observados na Petrobras foram, no devido tempo, integralmente debelados.(2)

Embora aparentemente lógicas, as explicações aqui reportadas parecem-me insuficientes para dar conta de tão grave problemática; impõe-se, pois, o aprofundamento da perquirição de sorte a podermos elaborar um quadro racional de tão vasta irracionalidade.

NOTAS

1. A ideia de se ver acima de tudo e de todos e de ser completamente imune parece ter dominado a mente de vários dos altos dirigentes petistas alguns dos quais, como sabido, foram enquadrados pela lei em decorrência do assim chamado Mensalão. 

2. Sua postura leniente quanto aos dirigentes da Petrobras sempre será lembrada pois tal atitude, como é óbvio, não só prejudica profundamente o funcionamento econômico da empresa mas também acarreta a perda de valor de mercado de seus papeis.

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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