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A tragédia de Santa Maria e a lógica da emoção pura

31.01.2013
 
A tragédia de Santa Maria e a lógica da emoção pura. 17842.jpeg

Como sempre, escrevo desde Santa Maria. Desta vez com o peito apertado, com o coração na boca, sem qualquer procura pela razão dialética. Neste momento é a emoção que comanda o teclado, é a voz do sentimento que constrói frases que querem dizer algo. Mas há pouco, muito pouco a dizer.

Diorge Konrad *

Somos jovens, belos, bêbados e caretas...
Sempre em bandos e às vezes em dois...
Curtindo grandes amores,
(...) olhando as estrelas a espera de carinho e a procura
de um futuro que não chega.

(Bob Marley)

Como sempre, escrevo desde Santa Maria. Desta vez com o peito apertado, com o coração na boca, sem qualquer procura pela razão dialética. Neste momento é a emoção que comanda o teclado, é a voz do sentimento que constrói frases que querem dizer algo. Mas há pouco, muito pouco a dizer.


Ainda em Porto Alegre, durante um final de semana estendido, depois de uma aula sobre Classes e Estado, no 5º Curso Nível II do PCdoB/RS, as 9h30min do fatídico dia 27 de janeiro, na Banca da República, na Cidade Baixa, fico sabendo da tragédia de Santa Maria. Ainda não da sua dimensão.


As tristes notícias começaram a vir aos poucos. Permitam-me as particularidades no meio da comoção, mas elas evidenciam o quanto qualquer um de Santa Maria (cidade que, como muitos, adotei para estudar, onde fiquei para trabalhar, onde conheci minha mulher e meu Partido, onde nasceu minha filha) está vivendo estes dias.


As 15h30min fiquei sabendo com o meu irmão, Diomar Konrad (ex-aluno da História e da Propaganda e Publicidade da UFSM). Foi encontrado o corpo da sua enteada, Bibiana Berleze, entre as vítimas no Centro Desportivo Municipal, para onde levaram todos os corpos. Antes, minha companheira já sabia da morte de seu aluno do Curso de Arquivologia da Universidade Federal, Leandro Nunes da Silva.Ângelo Nicolosso Aita, estudante de Medicina Veterinária, era primo de meu aluno de graduação e do Mestrado em História.


Suziele Cassol era irmã de uma ex-orientanda minha do extinto Mestrado de Integração Latino-Americana - MILA. O Rafael Ferreira era educador do Práxis - Pré -Vestibular Popular, projeto de educação popular do qual sou coordenador geral, e que envolve ensino, pesquisa e extensão da UFSM. Até o ano passado, no prédio em que moro, passeava Ivan Munchen, estudante da Medicina Veterinária.  Ou seja, dificilmente um de nós não tenha algum ente querido, próximo ou conhecido.


As mensagens que me chegam da cidade, de Porto Alegre, do Brasil e do Exterior, expressam o sentimento do mundo com tantas perdas, de tantos jovens: "Que tristeza o que ocorreu ai em sua cidade!"; "Ainda consternado, envio meus pesares, afeto e solidariedade a todos!"; "Imagino as terríveis horas de angústia que vocês e muitos amigos e colegas de vocês devem estar vivendo diante deste fato pavoroso!"; "Companheirão, que tristeza enorme!"; "Minha solidariedade diante desta brutalidade!"; "meu profundo pesar pela perda de tantos jovens e pelo sofrimento de tantas pessoas.


Saibam que tenho pensado muito em vocês todos, desejando que, juntos e solidariamente, possam superar esta imensa tristeza"; " hay que establecer las reponsabilidades del asesinato, y no dejar que los verdaderos culpables desvíen el foco hacia chivos expiatórios!"; "Como toda a comunidade da UFSM e o povo brasileiro estou transtornado!"; "Tragédia para todo o País.


Devemos reivindicar uma rigorosa apuração sobre as causas que determinaram esta tragédia!"; "Quanta tristeza. Quantos jovens ceifados no momento em que desabrochavam para a vida. Quantas famílias destroçadas!"; "Quando fico refletindo e tentando imaginar a dor dos familiares das vítimas, a minha revolta torna-se maior, principalmente, quando escuto as noticias que dão conta da falta controle e fiscalização e ainda a indiferença à sensibilidade humana deste capitalismo perverso!!!!....os donos e os seguranças preocupados no maldito dinheiro !!! trancando portas...!".


Até agora, noite de 28 de janeiro, são tantos os mortos, especialmente dos cursos da Universidade Federal de Santa Maria: 22 da Agronomia; 15 da Medicina Veterinária; 14 da Tecnologia de Alimentos; 5 da Zootecnia; 3 das Ciências Econômicas e mais 3 da Terapia Ocupacional; respectivamente, 2 da Tecnologia em Agronegócios, da Engenharia Florestal , das Ciências da Computação, da Engenharia Civil, do Mestrado em Bioquímica Toxicológica, da Terapia Ocupacional, da Odontologia, da Terapia Ocupacional, da Engenharia de Controle e Automação e da Metereologia; além de alunos da da Arquivologia, Filosofia Bacharelado, do Mestrado em Agronomia, do Mestrado em Educação Ciências da Vida e Saúde, das Letras Português, da Comunicação Social - Relações Públicas, da Comunicação Social - Jornalismo, da Administração Diurno - Cesnors, da Pedagogia Licenciatura Diurno, da Administração, da Licenciatura em Educação Especial, da Enfermagem, da Educação Física, do Desenho Industrial, da Pedagogia Licenciatura Plena, da Matemática Licenciatura, da Farmácia, das Ciências Biológicas - Licenciatura, da Licenciatura em Teatro, das Artes Visuais - Bacharelado e da Nutrição - Cesnors; enfim, de 38 cursos da UFSM. Mais uma centena e pouco estavam entre os graduandos e mestrandos que pereceram nesta data fatídica.


O que aconteceu foi um misto de ganância capitalista, irresponsabilidade de alguns e tragédia anunciada. Eis o que aconteceu com estes jovens, a maioria da UFSM e do primeiro ano de seus cursos.


Santa Maria é uma cidade de muitos universitários e de cidades variadas do Rio grande do Sul e do Brasil, alguns deles estrangeiros. Estas festas, tradicionais na cidade continuam acontecendo para arrecadar fundos para pagar o "mercado de formaturas" que enriquece algumas empresas à custa do sacrifício financeiro de diversos alunos e famílias. Muitos, sem recursos, fazem o máximo para arrecadar fundos para a formatura e saldar a empresa que filma e fotografa, além do aluguel dos clubes de Santa Maria, os quais cobram muito pela locação, seja para a solenidade, seja para as festas das famílias.


Esta semana que passou, no trevo de acesso da UFSM, eu e minha companheira e camarada, também professora da UFSM, vimos vários estudantes divulgando o sugestivo e trágico nome do evento: 'AGROmeração', o qual reunia acadêmicos das áreas das ciências rurais que tradicionalmente fazer este tipo de atividades. Num lugar de no máximo seiscentas pessoas, fala-se que se aglomeravam cerca de mil e quinhentas.


Depois de tudo o que aconteceu em Santa Maria, mais de duzentos jovens não serão o "futuro" do País!!!!!! Como disse Bob Marley, "a espera de carinho e a procura de um futuro que não chega".

Alguém tem mais explicações????????



* Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação do Curso de História - Licenciatura Plena e Bacharelado e do Departamento de História da UFSM, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP


http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e&cod=10896


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