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A derrota do PT e o futuro do Brasil

30.10.2018
 
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A derrota do PT e o futuro do Brasil

A derrota eleitoral do domingo pode ser o estímulo que estava faltando para que as forças de esquerda repensem a realidade brasileira e ofereçam novas alternativas para enfrentar os dias difíceis que se aproximam.

Esse texto  pretende ser, modestamente, minha contribuição a essa processo.

Esperamos que essa derrota seja a última em que nos unimos em torno de  um projeto reformista , que buscava um retorno  a um passado mais idealizado que real, apenas para evitar um mal maior.

O melhor ensinamento que podemos tirar dessa derrota, é de que precisamos arquivar as figuras carismáticas da política, os salvadores da pátria, e aprofundar a nossa visão para além de projetos eleitorais, como tem sido as propostas do PT, o partido que nasceu para liderar os movimentos de trabalhadores do Brasil, mas que se transformou numa organização voltada apenas para ganhar eleições e que, ultimamente, nem isso consegue fazer.

E pior ainda, quando ganhou as eleições foi incapaz de representar os interesses básicos dos trabalhadores,preferindo alianças espúrias, que foram aos poucos minando a confiança que desfrutou  e que nenhuma outra organização partidária tivera antes no Brasil.

O PT, infelizmente, foi incapaz de dar o salto qualitativo, que fizesse dele o guia para a revolução social que o Brasil precisa e por isso sua estrela foi apagando aos poucos.

Todos os grandes movimentos políticos da história tiveram um arcabouço filosófico para sustentá-lo, ou no mínimo uma justificativa histórica que lhe assegurasse um conjunto de valores morais e éticos para congregar em torno de si, pelo menos uma parte da sociedade

O maior exemplo disso é a opção pelo comunismo.

Sem falar em filósofos como Marx e Engels que lhe forneceram o embasamento histórico, econômico e filosófico, os principais lutadores pela causa comunista, não foram apenas ativistas políticos. Seus maiores nomes  mesclavam a luta política e partidária com a busca permanente de uma justificativa histórica para seus atos.

Lênin, Trostki, Gramsci e até mesmo Stalin, não ficaram apenas nas discussões táticas e estratégicas sobre questões políticas, mas buscaram colocá-las sob uma ótica muito mais ampla, procurando apoiar seus posicionamentos num tipo de pensamento universalista, discutindo questões teóricas e principalmente, escrevendo muito sobre elas.

Nessa tradição, os que discutem hoje a opção pelo comunismo, o fazem fugindo das questões típicas das políticas partidárias, buscando uma justificativa para ele a partir de uma ótica muito mais intelectualizada. É o que ocorre com o húngaro Istvan Meszaros, recentemente falecido, os franceses Alain Badiou, Jacques  Rancieri, Pierre Broué, Jean-Jacques Marie e o esloveno Slavoj Zizek.l

Mesmo o nazismo, procurou se justificar não apenas como um partido político, mas como uma corrente de pensamento que privilegiava a idéia da pátria, do povo. Não foi a toa que o grande filósofo Martin Heideger (1889/1976) viu no nazismo de Hitler a retomada do espírito helênico.

Mesmo o capitalismo, em suas diversas etapas de desenvolvimento, se socorreu de pensadores como Keynes inicialmente e depois em Hayek e Mises, quando enveredou pelo neo liberalismo.

Os defensores desse sistema nunca disseram que ele deveria persistir apenas para os ricos ficarem mais ricos, mas que ele  tinha uma justificativa ética.  Max Weber (1864/1920) viu a sua ligação estreita com a religião mais puritana em a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e Francis Fukuyama, em sua obra O Fim da História, viu a democracia liberal ocidental, só possível dentro do capitalismo, como o ponto mais alto que a humanidade poderia chegar em seu desenvolvimento social.

E o trabalhismo e sua versão mais sofisticada no Brasil, o petismo, em algum momento buscou essa sustentação, digamos, filosófica para se justificar?

Ou foi apenas um movimento oportunista, apoiado em figuras carismáticas,  como o trabalhismo tradicional com Getúlio Vargas e agora a sua nova versão,  em Lula?

Vargas, mais do que Lula, tinha um projeto nacionalista de desenvolvimento industrial e aproveitando as circunstâncias oriundas da Segunda Guerra Mundial avançou bastante nesse caminho, mas mesmo ele não encarou a questão da luta de classes, afirmando-a, ou a negando.

Lula,menos ainda.

Seu projeto de governo, simplificadamente, era uma transposição para o plano político mais amplo da sua visão de sindicalista, com a permanente política de negociações em busca de melhores resultados para os mais pobres.

Isso gerou uma série de pactos sociais envolvendo os segmentos mais diversos da sociedade brasileira, com interesses inteiramente colidentes, como banqueiros, latifundiários , empresários, trabalhadores das cidades e do campo.

Tudo sem um objetivo ideológico final.

Era uma bicicleta que andava sem rumo e que precisava ser pedalada sempre.

Quando por circunstâncias externas, a bicicleta teve que parar, seu projeto de conciliações permanentes ruiu.

Nos seus poucos anos de existência, o PT conseguiu ganhar quatro eleições para a Presidência da República, elegeu vários governadores e formou importantes bancadas em assembléias estaduais, na Câmara Federal  e no Senado.

Mas, em que o PT foi  diferente dos demais partidos, a não ser a sua preocupação maior com o socorro às populações mais carentes?

Seus dirigentes já disseram mais de uma vez que ele não é um partido revolucionário, mas nunca desfizeram a ideia de que sua meta é o socialismo.

Mas para chegar ao socialismo pela via pacífica que pretende, não seria necessário ter uma teoria, digamos de novo, filosófica, para se justificar?

Confesso que há muito procuro essa resposta e imaginei que poderia encontrar indícios disso no livro autobiográfico de José Dirceu.

Afinal, sempre se disse que ele era o grande estrategista do partido, o teórico que conduziu o PT até a conquista da Presidência.

Mas, se alguém, além de mim, tiver essa expectativa ao ler o livro de memórias de Zé Dirceu, perde seu tempo.

O livro, descontando as auto louvações e a preocupação em relatar suas conquistas amorosas, é extremamente interessante como a descrição do jogo rasteiro em que se envolvem os políticos, de todas as matizes,  em busca do poder e a desconstrução de figuras que pousam com pompa e circunstância nos espaços da mídia.

Muito pouco  além disso.

Ficou faltando uma justificativa mais profunda de porque o PT.

Uma pena.

Em seu livro Socialismo ou Barbárie no Século XXI, IstvanMeszaros  completa a frase original de Rosa Luxemburgo, dizendo que barbárie,  nas melhor das hipóteses.

Para ele, a continuidade do sistema capitalista, cada vez mais predatório, põe em risco inclusive a continuidade da vida humana sobre a Terra.
Segundo Meszaros, a conquista de um sistema socialista é grande luta, posta diante dos homens no futuro. Mas esse novo sistema não nascera inevitavelmente pela exaustão do  modelo capitalista, como alguns pensavam a partir de uma leitura apressada de Marx, mas de uma combinação de fatores que vão desde a inevitável crise estrutural do capital, até a luta política das pessoas em busca da construção de uma sociedade melhor.

Dentro desse quadro, no caso brasileiro, todos os partidos políticos de esquerda terão uma contribuição a dar, principalmente algumas lideranças do PT que não tenham sido totalmente contaminadas pelas práticas eleitoreiras que parecem ter sido o único objetivo do PT nos últimos anos.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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