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A UNE: uma página perdida da história

30.10.2008
 
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Os conselhos nacionais da UNE continuaram se realizando clandestinamente – sob uma ditadura cada vez mais violenta. Houve um encontro logo no início de 1970 e outro no mês de julho na cidade de Salvador. Neste ano sombrio ocorreram atos internacionalistas contra os bombardeios criminosos realizados pelo imperialismo estadunidense contra o povo do Vietnã e do Camboja. A UNE, também, participou da campanha pelo voto nulo e contra a farsa eleitoral da ditadura. Resultado desse clima político ocorreu um alto índice de votos nulos e brancos naquela eleição.

A diretoria da UNE continuou se reunindo. Entretanto, não podia mais fazer atividade pública. Os diretores da entidade – cercados por um aparato de segurança - apareciam de surpresa em assembléias e reuniões relâmpagos nas escolas. Mantinham contatos esporádicos e rápidos com os dirigentes dos Diretórios Acadêmicos. Uma de suas principais atividades consistia em distribuir o jornal Movimento, órgão oficial da entidade. Esta era a forma encontrada de dizer à ditadura: estamos vivos!

Esta gestão da UNE (1969-1971), presidida por Jean Marc e Honestino Guimarães, travou uma luta heróica para manter minimamente organizado o movimento estudantil num período muito difícil da história brasileira. Como afirmou Gaspari, tínhamos saído de uma “ditadura envergonhada” para ingressarmos numa “ditadura escancarada”. A quase totalidade de seus dirigentes nacionais foi presa e barbaramente torturada. Vários deles foram assassinados pela repressão. Este foi o preço pago para manter tremulando a bandeira da UNE e da resistência democrática e popular no Brasil.

Antes mesmo de terminar aquela gestão, Helenira Resende e José Genoino foram deslocados para a região do Araguaia, onde se preparava o desencadeamento da guerrilha rural. Helenira morreria em combate, Genoíno seria preso e torturado. João de Paula, depois de uma passagem pela base guerrilheira no Vale do Ribeira, rumou para o exílio.

Muitos autores encararam esses deslocamentos para o campo teriam representado um abandono dos movimentos sociais urbanos pela direção do PCdoB, como se a grande maioria de seus quadros tivesse sido deslocada para o trabalho de preparação da guerrilha rural. Esta idéia, no fundamental, é falsa. O Partido continuou atuando no que existia de movimentos sociais organizados. Mesmo nos períodos mais duros houve certa renovação de quadros partidários. A União da Juventude Patriótica (UJP) no Rio de Janeiro e o Movimento de Resistência Popular (MRP) em São Paulo – ambos organizados pelo PCdoB entre 1971 e 1973 – são provas disso.

O Congresso e a diretoria que desapareceram


Quando José Serra discursou na abertura do congresso de reconstrução da UNE em 1979, referiu-se a ele como 31º Congresso. A partir de então a grande maioria dos autores passou a fazer o mesmo. Esqueceram, no entanto, que já havia ocorrido um outro congresso com a mesma numeração. Para sermos justos devemos dizer que uma das poucas exceções à regra foi o livro “História da UNE”, organizado por Nilton Santos e publicado em 1979. Nele consta a realização daquele Congresso e, inclusive, publica uma entrevista com um dos diretores eleitos: Neuton Miranda.

O 31º Congresso original realizou-se entre setembro e outubro de 1971. Foi nele que Honestino Guimarães se reelegeu para presidência da entidade. Aquela foi uma reunião realizada na mais dura clandestinidade e com a participação de poucos delegados, eleitos em encontros estaduais e regionais. Neuton Miranda afirmou: “Impossibilitados de realizarmos grandes reuniões, com ampla participação, a realização desse congresso envolveu várias fases que iam desde a retirada dos delegados por escola, à realização de reuniões por estado, às regionais e por último uma reunião nacional. Esse processo durou vários meses, tendo começado ainda em 1970”.

O processo se iniciava nos cursos em reuniões convocadas pelos Diretórios Acadêmicos, segundo as condições de segurança de cada Universidade. Atualmente não existem dados exatos sobre a quantidade de estudantes que participaram dessas reuniões. Acredita-se que tenha sido 200 o número dos eleitos. Esses, por sua vez, se reuniram em conselhos estaduais ou regionais: um na região Norte (realizado no Pará), três no Nordeste (realizados em sedes na Bahia, Pernambuco e Ceará), no sul (com sede no RS), Minas Gerais, Rio de Janeiro (possivelmente abarcando o Espírito Santo), São Paulo e Brasília (possivelmente abarcando o Centro-Oeste). Ronald, que nos forneceu estas informações, falou que apenas em Minas Gerais elegeu-se 40 delegados e no Rio de Janeiro 20. Delegados eleitos para os encontros regionais e não o nacional.

Eram estes fóruns que indicaram os representantes para participar do 31º Congresso da UNE, numa proporção de um por Estado. O indicado já trazia a posição da maioria do encontro regional e, possivelmente, os votos para composição da nova diretoria. A plenária final se reuniu no Rio de Janeiro e teve a participação de algumas dezenas de estudantes. Foi, de fato, um congresso da vanguarda estudantil e não um encontro de massas, como foi o de Ibiúna. Um congresso realizado nas condições que a conjuntura repressiva permitia.

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