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A UNE: uma página perdida da história

30.10.2008
 
Pages: 1234
A UNE: uma página perdida da história

A bibliografia sobre o movimento estudantil tende a considerar que ele teria terminado com a queda do Congresso de Ibiúna em outubro de 1968 ou, no máximo, com a decretação do Ato Institucional número 5, ocorrido em dezembro. Esses autores, em geral, partem de uma concepção mais restrita do que seja o movimento estudantil, vinculando-o apenas às grandes manifestações de massas. Passeatas dos 100 mil, no entanto, são acontecimentos relativamente raros em nossa história.

Como já vimos em artigos anteriores, após o AI-5 o movimento estudantil entrou numa fase de refluxo, mas não deixou de existir. Ainda em abril de 1969 realizou-se uma plenária nacional – considerada por todos como legítima continuadora do 30º Congresso da UNE. Nela se elegeu uma nova direção na qual Jean Marc Von Der Weid (da AP) era o presidente. Ao contrário da gestão anterior – composta pelas principais correntes de esquerda, excluído o PCdoB – essa era uma composição que envolvia apenas a AP e o PCdoB.

por Augusto Buonicore*

À Honestino, Helenira, Umberto, Gildo e Mata Machado. Mártires da juventude e do povo brasileiro.

Na chapa vitoriosa representavam o PCdoB os estudantes João de Paula (CE), Helenira Resende (SP), Ronald Rocha (RJ) e Aurélio Miguel (BA). Pela AP, além de Jean Marc (SP), estavam Honestino Guimarães (DF), Valdo Silva, Umberto Câmara, José Carlos da Mata Machado, Dora Rodrigues de Carvalho (MG).

Um segundo Conselho Nacional se realizou em julho numa fazenda na Baixada Fluminense. Ali se fizeram as primeiras alterações na composição da diretoria da UNE, com substituições de diretores que haviam sido presos. Na ocasião saiu João de Paula, preso no Paraná, e ingressou José Genoino. Da AP ingressaria Gildo Macedo Lacerda.

Segundo alguns participantes, neste Conselho se reuniram cerca de setenta delegados, representando a maioria dos estados brasileiros. Um número expressivo tendo em vista o clima de repressão reinante depois do AI-5. O encontro não chegou ao fim porque na região ocorreu uma operação anti-guerrilha do Exército e os delegados, por segurança, tiveram que fugir. Por sorte, desta vez, ninguém foi preso.

Ser dirigente de uma entidade estudantil naquela época implicavam graves riscos, inclusive de morte. Em 1º de setembro Jean Marc foi preso e torturado. Ele só seria libertado em janeiro de 1971, quando foi um dos 70 presos trocados pelo embaixador suíço. Dos diretores desta gestão apenas Dora escapou de ser presa, torturada ou morta. Contudo, amargou um longo período de clandestinidade e exílio interno.

Depois de um breve impasse sobre como se daria a substituição de Jean Marc – inclusive, se deveria ser substituído ou mantido simbolicamente na presidência -, foi decidido que Honestino Guimarães assumiria o cargo vago. Ele era, na época, uma das principais lideranças da Ação Popular e muito querido entre os estudantes.

Logo em fevereiro de 1969, antes mesmo da plenária nacional, a ditadura aprovou o famigerado Decreto-lei 477, pelo qual os líderes estudantis, considerados perigosos à ordem, ficavam proibidos de se matricular em qualquer estabelecimento de ensino durante três anos. Nova onda de cassações também atingiu o corpo docente. Os centros acadêmicos livres foram fechados e substituídos por entidades atreladas à direção das escolas. O decreto 477 foi o AI-5 da educação.

A diretoria da UNE assumiu a luta contra este decreto fascista, organizando várias manifestações. Após a prisão de Jean Marc – e a divulgação de sua carta-denúncia - recrudesceu a campanha nacional contra os crimes da ditadura, pela libertação dos presos políticos e contra a tortura. A campanha adquiriu um caráter nacional.

Um dos atos mais ousados – e temerários – desta gestão foi a greve com ocupação da Faculdade de Filosofia da UFRJ, onde o PCdoB tinha muita força. Era uma resposta à tentativa da ditadura de fechar a instituição. Ocorreram choques violentos com a polícia política e, no final, centenas de estudantes foram presos. Por isso, alguns participantes afirmaram que a forma de luta encontrada não se adequava ao momento de refluxo vivido pelo movimento. Ela teria criado as condições para o esmagamento e isolamento da vanguarda do movimento estudantil na Guanabara.

De fato, a maioria das correntes de esquerda – incluindo o PCdoB - não havia avaliado adequadamente a nova correlação de forças que se abriu no final de 1968. Via o AI-5 apenas como um sinal de fraqueza e isolamento do regime militar. Acreditava que existiam todas as condições de retomar o movimento de massas no mesmo patamar do período anterior. Um grave erro que seria responsável por algumas derrotas. Embora ainda houvesse certa margem de manobra dentro de algumas poucas escolas. Isso, no entanto, acabaria nos meses seguintes.

Outro marco importante do movimento estudantil foi a realização de expressivas manifestações contra a visita do Secretário de Estado estadunidense Nelson Rockfeller. Eles não conseguiram reunir o mesmo número de pessoas das grandes manifestações do ano anterior, quando o movimento estava no seu auge. Sem dúvida, não fizeram feio. Jean Marc afirmou que cerca de 30% das faculdades chegaram a paralisar durante dois dias. Estes atos representaram uma derrota à ditadura militar, que se gabava de ter acabado com as entidades nacionaisestudantis.

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