Pravda.ru

CPLP » Brasil

Bush, Lula e a embriaguez do etanol

29.03.2007
 
Pages: 1234
Bush, Lula e a embriaguez do etanol

ALTAMIRO BORGES

“Os usineiros de cana, que há dez anos eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool. E por quê? Porque eles têm políticas sérias”. Discurso do presidente Lula em Mineiros (GO), 20 de março de 2007.

“Não se justifica num país, por maior que seja, ter alguém com dois milhões de hectares de terra! Isso não tem justificativa em lugar nenhum do mundo! Só no Brasil. Porque temos um presidente covarde, que fica na dependência de contemplar uma bancada ruralista a troco de alguns votos”.

Lula em entrevista a revista Caros Amigos, novembro de 2000.

A visita do presidente-terrorista George Bush ao Brasil, no início de março, começa a surtir os primeiros efeitos. O objetivo da turnê imperialista, que incluiu outros quatro países da região (Uruguai, Colômbia, México e Guatemala), foi eminentemente político. Como observou o professor Nildo Ouriques, fundador do Observatório Latino-Americano da Universidade Federal de Santa Catarina, visava sabotar o processo em curso de integração regional, fragilizar o Mercosul e isolar os governos mais à esquerda do continente, em especial o de Hugo Chávez. “Os EUA primeiro tentam dividir para reinar, um instrumento clássico da política. Segundo, estão tentando mudar a política de hostilização, mas ainda não encontraram a fórmula”.

O “império do mal” ainda procurou disfarçar este caráter político, através do “pacote de assistência” aos pobrecitos da região e dos acordos sobre os chamados “biocombustíveis”. Mas só enganou os inocentes. No Uruguai, a visita tentou sacar o país do Mercosul em troca de um tratado bilateral de comércio (TLC). Na Colômbia, visou fortalecer o governo de Álvaro Uribe, fragilizado por denúncias sobre a sua ligação com os paramilitares e o narcotráfico. No México, serviu para legitimar o “presidente” Felipe Calderon, empossado após escandalosa fraude eleitoral. Já no Brasil, a negociação sobre o metanol não escondeu as suas artimanhas. “Essa energia tende a reduzir o poder de alguns Estados que nós achamos que têm um peso negativo no mundo, como a Venezuela”, revelou Nicholas Burns, subsecretário de Estado dos EUA.

Predador travestido de ecologista

A alardeada negociação sobre os biocombustíveis, entretanto, teve razões políticas, inclusive como moeda de troca, mas também econômicas. O presidente Bush, o mesmo que rasgou o Protocolo de Kyoto contra a emissão de gases poluentes e governa um país responsável por 25% da poluição no planeta, aterrisou em São Paulo travestido de “ecologista” e defendeu uma “parceria estratégica” com o Brasil na pesquisa e na exploração de fontes alternativas de energia. Ao final do encontro com Lula, foi assinado um Memorando de Entendimento sobre Cooperação na Área de Biocombustíveis, que objetiva estimular o setor privado a investir na área e fixar padrões comuns para expansão deste “mercado verde”.

O que foi realmente acordado ainda não se tornou público, mas ambos os presidentes esbanjaram alegria ao final das negociações. “O memorando assinado hoje é, sem dúvida, a nossa resposta ao grande desafio energético do século XXI... A parceira que vamos inaugurar é ambiciosa e voltada para todos os aspectos ligados à incorporação definitiva do etanol na matriz energético de nossos países”, comemorou Lula em discurso na Transpetro, uma subsidiária da Petrobras em Guarulhos. O presidente ainda dourou a pílula do acordo, ao afirmar que o biodiesel “terá grande impacto social, é voltado para o pequeno agricultor, para a agricultura familiar e ajudará a criar emprego e renda nos lugares mais pobres deste país”.

Pirotecnia publicitária

No mesmo clima festivo, o presidente-torturador George Bush exaltou o memorando: “Aprecio o Brasil e os EUA trabalhando juntos para o bem da humanidade”. Mas toda esta animação teve uma forte dose de pirotecnia publicitária. Esbanjando arrogância, Bush fez questão de afirmar que não atenderá a principal reivindicação do governo e dos usineiros brasileiros: a redução da tarifa cobrada sobre o álcool exportado ao mercado dos EUA. “Isso não vai acontecer. Ela permanecerá até 2009 e depois disso o Congresso dará um jeito”. Atualmente, o império protecionista cobra uma taxa de 54 centavos de dólar por galão sobre o álcool vendido pelo Brasil, além de 2,5% de impostos alfandegários. Só no ano passado, o governo dos EUA embolsou US$ 220 milhões em sobretaxas sobre o etanol importado do Brasil.

Apesar das barreiras, a tendência é de uma enorme expansão do setor nos próximos anos. “Já investimos US$ 12 bilhões em novas tecnologias que permitirão alcançar uma maior independência econômica e um ambiente de melhor qualidade”, informou o governante ianque. Ele deixou explícito que pretende investir no Brasil, inclusive na aquisição de nossas usinas, para garantir uma alternativa ao petróleo, que está mais escasso e encontra-se em países hostis. “Espero que possamos fazer estes investimentos juntos”, afirmou Bush, olhando de maneira fixa e sedutora para o seu potencial parceiro brasileiro, o presidente Lula.

Otimismo por razões distintas

Pages: 1234

Loading. Please wait...

Fotos popular