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Quando o homem é displicente...

29.01.2011
 

Ponta Delgada, 23 de Janeiro de 2011

Por estes dias chegou-nos o eco dramático da catástrofe que se abateu sobre a Região Serrana do Rio de Janeiro, cuja beleza exuberante tivemos o prazer de conhecer em duas ocasiões, incluindo as cidades de Petrópolis e de Teresópolis, ambas mandadas fundar por D. Pedro II, herdeiro da Casa de Bragança. A primeira homenageia o Imperador do Brasil, considerada por essa razão a Cidade Imperial, de onde, durante algum tempo, aquele monarca governou o Império e hoje, ali continua a viver a sua ilustre família, guardiã cultural daquela urbe. A segunda foi dedicada à sua amada consorte, Dª. Teresa Cristina. 

As duas cidades situam-se a uma altitude média de 850 m e estão encravadas entre montanhas de densa vegetação tropical e de afloramentos graníticos imponentes, esculpidos pela Natureza, que se destacam da paisagem verde luxuriante como esculturas monumentais apontadas aos céus, das quais a mais emblemática é o "Dedo de Deus". A altitude e a humidade da região propicia um clima ameno, tropical de montanha. Se quisermos um termo de comparação, a Serra de Sintra, nos arredores de Lisboa, será o mais semelhante, por sinal também habitação estival de parentes antigos do Imperador do Brasil. A amenidade do clima e a beleza circundante da Região Serrana do Rio terão pesado decididamente na sua escolha pela Família Imperial. Hoje, tornou-se lugar de refúgio de milhares de brasileiros, onde têm a sua segunda moradia, sobretudo de cariocas da classe média, que a procuram para suavizar as temperaturas tórridas do Verão do litoral, além de destino turístico ecológico e de desportos radicais, como o alpinismo.

Ao reflectimos sobre as causas que recentemente provocaram tanta dor e lágrima às populações da Região Serrana do Rio, somos compelidos a considerar em primeiro lugar que o drama maior radica-se no facto de o homem ignorar as leis da Natureza e, ignorando, desdenha da sua força. Muito do sofrimento que ali ocorreu poderia ter sido evitado se os sinais naturais de alarme tivessem sido respeitados, a começar pelas autoridades municipais. Estas aliás são as primeiras a manifestar uma ignorância atávica ao permitirem a ocupação urbana em zonas de risco, como vertentes de serras, muito sujeitas à dinâmica dos elementos, e os leitos de enchente de rios e cursos de água. Não deveriam ignorar o histórico das chuvas diluvianas que ali ocorrem sazonalmente e que se tem conhecimento desde que ali chegou o primeiro colono... O fenómeno é tão notável que até tem uma referência literária numa conhecidíssima obra de José de Alencar, "O Guarany", levada ao prelo em 1857. O romancista finaliza de forma dramática o amor do índio Poti pela donzela portuguesa Ceci Peri, que luta bravamente contra a fúria das águas para a salvar, descrevendo esse acto final épico do seguinte modo: "O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face. Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e lânguidos sorrisos: os lábios abriram como as asas purpúreas de um beijo soltando o voo. A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...E sumiu-se no horizonte". Não acreditamos pois que o dilúvio serrano que ocorreu recentemente tenha sido único em toda a História, como certa "mídia" tenta passar, ao referir uma inopinada intensidade pluviométrica. Só o desleixo humano e uma certa presunção perante a Natureza é que permitiram tão grande desgraça.

Os sinais de alarme estão presentes na Natureza por todo o lado. Saibamos lê-los e interpretá-los. Desde logo a altitude e a disposição orográfica da região. O seu índice pluviométrico é da ordem dos 2 500 mm anuais, ou seja, 2 500 litros por metro quadrado durante um ano, o que corresponde a cerca do dobro da precipitação anual observada na Baixada Fluminense. Tal se deve à orientação do sistema montanhoso da Região Serrana do Rio, que é paralela ao litoral oceânico, formando uma barreira de condensação ao vapor de água transportado do mar, sob a forma de nuvens. Significa que o ciclo hidrológico iniciado no Atlântico termina nas suas cumeadas sob a forma de chuva, que pode ser intensa, sobretudo no Verão, que é a actual estação no Hemisfério Sul. Ora a chuva é um forte agente de fractura e dissolução das rochas e transporte dos inertes libertados, que em determinadas situações, como a retenção temporária dos fluxos de água em diques naturais ou originados pelo descuido humano, pode gerar colossal energia hidráulica... Foi o que aconteceu em alguns troços daquela região. Por seu turno, a presença de afloramentos graníticos com forte marca de meteorização e de erosão e de um solo argiloso adjacente, que sustenta o manto verde luxuriante da mata tropical, resultante da alteração mecânica e química do granito, são claros sinais que indiciam uma dinâmica natural antiga em contínuo processo de alteração, que por esse facto deveria concitar mais atenção do homem na hora de escolher um local para construir a sua habitação.

Os terrenos argilosos, embora contenham argila que tem um baixo ponto de saturação, são, graças à presença de areias, bastante absorventes. Se o seu leito de descanso se situa numa vertente, ou seja, num plano de declive acentuado, mesmo florestado, ficam fortemente sujeitos a deslizamentos, quando ocorre intensa e prolongada precipitação. A água da chuva absorvida aumenta várias vezes a sua carga e plasticidade, tornando-os extremamente instáveis face à gravidade. Forma-se então uma colossal avalanche que arrasa e arrasta tudo pelo caminho... Foi o que aconteceu em diferentes áreas da Região Serrana do Rio, de que o Bairro da Posse é exemplar. Lama, pedras de diferentes tamanhos e troncos preencheram o leito do que parece ser um ribeiro sazonal... Não há pois nada de sobrenatural, como sugere o espanto reflectido em alguns textos que nos chegaram às mãos. O espanto é terem ali construído habitações... apesar dos sinais de alarme da Natureza.

A hora é de reconstrução e espera-se que não se repitam os mesmos erros e que se respeite a Natureza e a Vida que a esta é inerente, incluindo a do homem. A perda de Vidas é sempre a perda de Capital Humano, por mais pobre que seja um cidadão.

Artur Rosa Teixeira

(artur.teixeira1946@gmail.com)

 


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