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Política exterior do Brasil perdeu prestígio e protagonismo

27.06.2017
 
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Política exterior do Brasil perdeu prestígio e protagonismo no cenário internacional, diz professor

Aliado ao PMDB de Temer na derrocada de Dilma, o PSDB tomou o controle do Ministério das Relações Exteriores, revertendo uma política adotada pelos governos Lula e Dilma (PT) de se aproximar com os países do Sul do mundo, especialmente na integração sul-americana.

  

Com a chegada de Michel Temer ao poder, após derrubada de Dilma Rousseff, política externa brasileira sofreu uma virada repentina

Eduardo Vasco, Pravda.Ru

Aliado ao PMDB de Temer na derrocada de Dilma, o PSDB tomou o controle do Ministério das Relações Exteriores, revertendo uma política adotada pelos governos Lula e Dilma (PT) de se aproximar com os países do Sul do mundo, especialmente na integração sul-americana.

O coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Roberto Goulart Menezes, conversou com a Pravda.Ru. Segundo ele, que também é pesquisador da política externa brasileira e sul-americana, as gestões de José Serra (maio de 2016 - março de 2017) e Aloysio Nunes (atual) no Ministério das Relações Exteriores tornaram o Brasil menos relevante no cenário internacional, subordinando-se aos EUA e ignorando os laços com os países do Sul.

Qual sua avaliação sobre a política externa do atual governo?

O primeiro ponto em relação ao conjunto mais geral da política externa brasileira no governo Temer é que ela praticamente desapareceu do radar. Ou seja, o Brasil recuou na América do Sul, assim como na sua política internacional. Mantém uma política externa, mas de baixo perfil e de desengajamento. Isso significa que o Brasil perdeu posições no cenário internacional e, sobretudo, mantém uma política inercial, participando do BRICS mas sem fomentar mais debates acerca da importância do grupo, sem dar um novo rumo para o BRICS ao incrementar a própria relação com os demais países que integram essa coalizão.

O segundo ponto tem a ver com a região. A primeira coisa que José Serra fez na sua gestão foi o enfrentamento inicial com a Venezuela, e isso significa que o problema em si não é só com a Venezuela, mas com toda a região. Ou seja, o Brasil não atuou como um vetor do processo de integração na América do Sul para seguir políticas como a utilização da Unasul como meio de pacificar a região e com isso contribuir para uma saída negociada para o conflito interno venezuelano. Pelo contrário, o Brasil não deu continuidade ao processo de paz colombiano, acirrou a relação com a Venezuela e com isso deixou de ser um ator importante para definir um novo quadro político na Venezuela e ao mesmo tempo se desengajou do Mercosul, voltando sua prioridade para as relações estritamente com os EUA.

Aloysio Nunes dá continuidade a essa agenda vazia. Tanto Serra como Nunes têm utilizado o Ministério das Relações Exteriores para chancelar o golpe que foi dado no Brasil. Então eles têm constrangimento, viajam pouco e, quando viajam, buscam, sobretudo, realizar uma diplomacia financeira, como se dissessem: "Olha, venha investir no Brasil, ele está estável politicamente, está retomando o crescimento econômico". Mas no fundo, o que eles buscam é tentar dar alguma guarida internacional para essa coalizão que está no poder.

Quando estavam na oposição, eles criticavam os governos Lula e Dilma de supostamente partidarizarem as questões internacionais, mas agora parece que são eles que estão fazendo isso...

Esse ponto de falar que a política de um governo é partidarizada ou é politizada, do ponto de vista de uma análise mais séria isso é um senso comum. O ponto principal, ao invés de falar da politização da política externa, é sobretudo falar da despolitização dela. Isso tem uma grande diferença. No governo Fernando Henrique Cardoso, houve vários temas que foram despolitizados. Por exemplo, o Brasil não tinha uma presença mais forte na América do Sul para não incomodar os EUA. Então era uma política com um caráter mais de credibilidade, ou seja, a política externa de FHC, que o PSDB levou adiante, é uma política de procurar mostrar que o Brasil é um país que estava superando as suas mazelas, diferente do grupo que assume com a chegada de Lula ao governo, com uma política mais autonomista, quando o Brasil passou a imprimir em sua política internacional uma postura de reivindicação, de participação efetiva nos fóruns internacionais e buscou atrair para a região um maior grau de autonomia, tanto do Brasil quando de seus vizinhos.

Outro ponto importante é que, quando se fala que a política está partidarizada, é que o PSDB pegou o Ministério das Relações Exteriores como se fosse para ele, saiu Serra e entrou Aloysio Nunes. Os dois são senadores, sendo que Nunes foi vice na chapa de Aécio Neves nas eleições de 2014, portanto a relação que ele tem com a Venezuela e com a América do Sul é uma relação meramente pragmática. Eles não acreditam na possibilidade de que o Brasil tenha algo de fato a ganhar a não ser vendendo suas mercadorias para a região. Ou seja, enquanto os países vizinhos estiverem consumindo os produtos brasileiros, não há problema, porque comércio se faz com todo o mundo. Mas esse comércio vem desacoplado, separado de um maior engajamento e preocupação com os destinos da região. Então, embora a China seja o primeiro parceiro comercial do Brasil hoje, essa "partidarização" dos governos do PT estava ancorada também em parcerias estratégicas e esse governo vem desmontando as parcerias estratégicas que o Brasil havia estabelecido e havia dado sentido a alguns movimentos da política externa brasileira.

Portanto, um ponto central é que, quando eles falam de partidarização, se referem por exemplo aos empréstimos do BNDES para Cuba e Equador. Mas o BNDES empresta com garantias, seria preciso demonstrar que ele teve perdas. Isso, de fato, é uma das variáveis a serem analisadas.

E, por último, a questão da partidarização mostra um desprezo do atual Ministério das Relações Exteriores pela chamada cooperação Sul-Sul. E isso é uma forma diferente de dizer que o governo anterior partidarizou a política porque procurou governos de países que estão abaixo do Brasil na escala econômica internacional, que seriam irrelevantes para o Brasil. Tanto é assim, que uma das primeiras medidas de José Serra como ministro foi querer fechar embaixadas do Brasil na África, sendo que uma única embaixada do Brasil na Europa custa o mesmo do que várias embaixadas na África e algumas embaixadas na Europa não têm tanto sentido de serem mantidas.

Então o senhor acha que o Brasil está se apequenando novamente no cenário internacional?

Não há dúvida. Inclusive, logo quando Temer tomou posse como interino, em maio do ano passado, o ex-ministro Celso Amorim usou uma expressão muito boa, "cantinho do mundo". Isso significa que o Brasil está se retraindo, com uma inserção internacional regressiva, subordinada, ou seja, está abandonando a possibilidade de ter um papel de protagonista no cenário internacional e isso se deve, sobretudo, a esse acanhamento. E o Brasil volta a ter nos EUA uma referência para a sua atuação internacional.

E essa agressividade com os países do Sul pode prejudicar o status do Brasil como tradicional mediador de conflitos e impasses internacionais?

Nesse momento o Brasil já é visto como um país que perdeu muito prestígio internacional e isso se reflete no fato de o Brasil não ter sido chamado para questões importantes da própria região. No caso da Venezuela, há cerca de três semanas o ministro das Relações Exteriores tentou aprovar na OEA uma moção contra a Venezuela e foi derrotado, isso significa que os países da região não veem mais o Brasil - apesar de ter o maior PIB e território e importância diplomática - como um país de primeira mão, que tenha condições, em função da sua instabilidade política interna, de servir como mediador em conflitos envolvendo países da região.

 


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