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Quem nasceu primeiro: a corrupção ou o corrupto?

27.05.2007
 
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Quem nasceu primeiro: a corrupção ou o corrupto?

Quem nasceu primeiro: a corrupção ou o corrupto?

São 57 anos de idade. Comecei a ler aos 4; portanto, 53 de leitura; a maior parte, textos jornalísticos. Ainda alcancei tempos em que as pessoas se aglomeravam em torno de uma banca de revistas e comentavam a manchete que enfocava um misterioso caso de assassinato numa favela. Isso foi antes da banalização da violência, nos tempos em que, pelo menos no cinema, a gente distinguia mocinho de bandido.

por Fernando Soares Campos

São 57 anos de idade. Comecei a ler aos 4; portanto, 53 de leitura; a maior parte, textos jornalísticos. Ainda alcancei tempos em que as pessoas se aglomeravam em torno de uma banca de revistas e comentavam a manchete que enfocava um misterioso caso de assassinato numa favela. Isso foi antes da banalização da violência, nos tempos em que, pelo menos no cinema, a gente distinguia mocinho de bandido.

Tudo parecia claro, imaginava-se que na vida real ambos os lados estariam bem definidos. Até que, num filme brasileiro, baseado na história de um famoso bandido romântico dos olhos verdes, o personagem principal soltou a sua mais famosa frase: "Polícia é polícia, bandido é bandido". Era o Lúcio Flávio, "O passageiro da agonia", tentando botar ordem na "brincadeira", conforme a gente fazia durante a infância, quando escolhíamos os personagens de nossas lúdicas imitações daquilo que exibiam nas matinês dos cinemas.

A frase do lendário bandido, que fora barrado quando tentou exercer seu ofício na política, correu o Brasil. Era como se o inconsciente coletivo tivesse despertado para uma nova realidade, e aquilo que para todos nós seria o óbvio já não parecia assim tão óbvio. Virou bagunça, e, de repente, uma coisa era outra coisa, e outra coisa é uma coisa.

Alguém já compôs e ainda cantamos em pagodes de mesa de bar: "Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão". Porém, dessa fase já passamos, pois agora, se gritar pega ladrão, por exemplo, no Congresso Nacional, muita gente se engalfinha, a categoria anda desunida, agora é um tentando agarrar o outro. Sarney, por exemplo, que ver a carcaça do governador Jackson Lago e seus sobrinhos metralhas; Jackson que ver a caveira de Sarney e de sua filha, que já foi agarrada por José Serra, que pode ser agarrado a qualquer momento em que abrirem o dossiê dos sanguessugas, que tá assim! de deputado, senador, prefeito, empresários e autoridades judiciárias. Alguns até já caíram na navalha, no furacão e em tantas outras operações da Polícia Federal.

Durante muitos anos, exigimos um basta! Cansamos de ver bandido pé-de-chinelo, peito de fora e bermudão surrado, entrando em camburão da polícia. Repetimos exaustivamente a frase "No Brasil só se prende ladrão de galinha". Descobrimos que, do tráfico de drogas, só se prende os chefões do terceiro escalão, aqueles que têm condições de melhorar a renda de policiais e agentes carcerários. São os que mantêm o tráfico nos presídios; consumidores em potencial, pagam bem por um celular e pelas visitas íntimas. A raia miudinha é massacrada, não tem direito a prisão, vai direto pro cemitério. Exceto alguns escolhidos para servir como material de referência da produtividade das delegacias e de laranja nos presídios.

Quem não está acostumado estranha!

Alguns parlamentares da oposição ao governo Lula insinuaram que as atividades da Polícia Federal, desde o início do primeiro mandato, teriam um caráter revanchista. Também tentaram relacionar as operações da Polícia Federal com a campanha da reeleição do presidente. Chegaram a falar em Estado Policial. Entretanto o governo Lula estava (está) apenas cumprindo uma promessa de campanha, talvez, paradoxalmente, a única implementada a contento: o combate à corrupção. Por que o paradoxo? Certamente porque esta seria a promessa mais difícil de ser cumprida.

Conglomerados midiáticos brasileiros, agindo a qualquer custo, inclusive à custa do próprio descrédito de alguns órgãos de imprensa que trabalharam a cabeça da classe média durante décadas, tentam fazer a população crer que a corrupção no nosso país foi inventada no governo Lula. Nenhum canal de televisão se dispôs a produzir um programa do tipo Globo Repórter, Linha Direta, SBT Repórter, ou documentário especial, abordando as ações da Polícia Federal nos últimos dez anos. Melhor: um especial sobre a história do Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça da República Federativa do Brasil. Tal produção certamente provocaria constrangimento em muita gente e pasmo na maioria da população. Principalmente quando tratasse do período compreendido entre os governos de sua ex-Excelência Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Outro dia escrevi: "No governo FHC do PSDB, no qual o PFL não passava de esquadrão lambe-botas, o verdadeiro crime organizado não tinha o que temer. As máfias enclausuradas nas mansões à beira-mar e nos jardins paulistanos, ou turistando mundo afora, se mantiveram intocáveis. FHC quase fechou as portas dos principais setores da PF, que, em seu governo da impunidade, mal servia para expedir passaporte. A média de prisões efetuadas pela Polícia Federal no governo FHC foi de apenas 27 por ano. Num país com as dimensões do Brasil, acho que isso representa um índice abaixo do que pode ter ocorrido, por exemplo, no Haiti".

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