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De marítimo a metalúrgico, a mesma luta: mudar o mundo

26.01.2007
 
Pages: 12
De marítimo a metalúrgico, a mesma luta: mudar o mundo

Rosângela Ribeiro Gil *

Há pouco tempo, numa breve contenda com jovens jornalistas, um deles fez troça de uma situação e me disse que assim era a vida. Tristes os dias se esvaziarmos a vida e torná-la apenas um “sarro”, apenas uma disputa (insana) de quem sobrevive ou se sai melhor desta vida.

E por que me lembro dessa historieta? Porque para mim a vida só faz sentido com gente de verdade, com gente humana, com gente com coração no lugar do coração, com gente que muito já andou, viu e passou nesta vida mas mantém a humildade majestosa dos que estão sempre aprendendo (e porque aprendem, ensinam também). Prefiro os insanos que sonham e lutam por um mundo diferente, aos loucos-estressados moldados pelo mercado dos nossos dias.

O leitor e a leitora da coluna Debate Sindical terão o prazer, digo isso de coração e alma, de ler a história de uma das pessoas mais lindas e humanas que conheço. Um ser humano que acorda alegre e vai dormir alegre, com certeza, que o diga a nossa Claudia Santiago, por acaso sua esposa, amiga e grande companheira. Não existe tempo feio para o Vitão, como os amigos o chamamos carinhosamente. Não existe trabalho difícil, que dirá impossível, para Vito Giannotti. Existe a exploração que precisa acabar; existe a miséria que precisa acabar, existe a injustiça que precisa acabar; existe a violência que precisa acabar; existe o capitalismo que precisa acabar.

Vito Giannotti é um italiano que adotou o Brasil (sorte nossa!). Está aqui para mais de 35 anos. Vive no Rio de Janeiro. É escritor. É o coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação ( NPC ). É professor (de todos nós).

Debate Sindical - Qual é a sua formação profissional; sua origem? Quando veio para o Brasil, onde trabalhou? Hoje, o que faz?

Vito Giannotti - Eu abandonei uma faculdade de filosofia para andar pelo mundo tentando mudá-lo. Logo encontrei o socialismo como perspectiva de transformação e de vida. A revolução como objetivo único de vida. Passei por vários países antes de chegar ao Brasil. Me apaixonei logo por este país e, junto com muitos outros, na década de 1960, passei a lutar para acabar com a ditadura (militar de 1964) e construir um país socialista. Por isso fui trabalhar como marítimo, primeiro, e anos depois como metalúrgico. Para me tornar um profissional respeitado fiz muitos cursos do Senai e acabei sendo torneiro ferramenteiro.Trabalhei em muita fábrica de São Paulo. Lá organizamos grupos de trabalhadores, fizemos greves, fomos presos. Enfim, demos muito trabalho à ditadura e aos patrões. Faria tudo novamente, exatamente igual. Hoje, continuo a mesma empreitada. Natural, o objetivo da minha vida não foi alcançado e, então, o jeito é continuar lutando contra a exploração e a opressão da maioria da população e avançar na construção de uma sociedade socialista.

Debate Sindical - Você se tornou um estudioso dos passos da classe trabalhadora do Brasil e mesmo do mundo, mas você também já fez a história dos trabalhadores. Conte para a gente um pouco do Movimento de Oposição dos Metalúrgicos de São Paulo, como foi a sua formação, suas principais bandeiras, a repressão e onde está o pessoal que fez tão importante movimento?

Vito Giannotti - Eu me tornei um escritor de um bocado de livros e livretos, não por opção. Foi como o sapo. Ele “não pula por boniteza, mas por precisão”. Eu comecei a escrever um primeiro livreto (na época clandestino) sobre a história das lutas dos trabalhadores no Brasil, em 1970. Foi por pura exigência da luta nas fábricas onde atuávamos. Precisávamos ter algum material para nossas reuniões e cursinhos de formação com os companheiros. Aí, eu e um grande companheiro, Elias Stein, que era metalúrgico, mas tinha saído da USP para fazer revolução como eu, fomos destacados para escrever. E assim começou.

Nós militávamos como Oposição Sindical Metalúrgica no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Éramos contra os pelegos interventores nomeados e vendidos à ditadura militar. Mas, sobretudo lutávamos para criar um sindicalismo politizado, com claro posicionamento de classe e organizado a partir da base. Tínhamos fortes críticas ao sindicalismo de antes do Golpe de 64. Era um sindicalismo que se iludia de estar com tudo, mas tinha os pés de barro. Fazia uma grande confusão ideológica, não tinha uma clara definição de classe e funcionava de maneira cupulista, sem enraizamento na base. Queríamos construir um novo sindicalismo, classista, organizado pela base e profundamente democrático e participativo. A principal bandeira era estimular a luta de classes sem nenhuma ilusão em qualquer aliança com os patrões e estimular a organização de base, em grupos e Comissões de Fábrica.

Debate Sindical - O movimento sindical operário mundial está numa encruzilhada?

Vito Giannotti – Absoluta, total. Nunca esteve tão paralisado. As razões históricas são muitas. Mas o fato está aí. Politicamente, o movimento dos trabalhadores foi atingido pelo fim de todas as revoluções socialistas/comunistas que tinham sido realizadas no século XX. Só sobrou Cuba. O século XX foi o século da entrada em cena do proletariado, da classe operária. O (século) XIX foi o século da burguesia. A partir de 1917 os trabalhadores fizeram muitas revoluções vitoriosas.

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