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Emoção e eleição

24.07.2006
 
Emoção e eleição

* Murilo Badaró - Presidente da Academia Mineira de Letras
Um registro para um país de memória fraca. Amanhã, dia 26 de julho, 72 anos nos separam da data em que Gustavo Capanema foi empossado no Ministério da Educação, para ali realizar a mais profunda reforma nas estruturas da educação e cultura brasileiras.

 Nesta hora de imenso vazio em sua fisionomia humana, fará bem ao Brasil recordar a admirável figura de Capanema, tão grande e harmoniosa quanto sua vasta cultura e patriotismo. Modelo perfeito de estadista, Capanema definia o homem público não apenas como alguém eventualmente ocupando função pública ou disputando eleições.

 Queria fosse ele algo mais, dotado de instrumental de
cultura e conhecimentos e ainda "as virtudes da verdade, fidelidade, fortaleza, coragem, a probidade e a decência". É fácil perceber carece o Brasil de políticos que se enquadram neste perfil traçado por Capanema, gizado por ele como se estivesse revelando seu próprio retrato. Vamos ao tema de hoje, falar de emoção e eleição.

 Se o número de institutos de pesquisa e cientistas políticos
fosse condição para classificar o Brasil entre as maiores nações do mundo, seria necessário criar um G-8 qualquer para situar nosso país. E, certamente, ele ocuparia o primeiro lugar. Se as pesquisas de qualquer natureza são fundamentais para o mundo moderno, sejam elas sazonais nas eleições ou para obter dados  destinados ao mercado econômico e financeiro, via de regra elas são tratadas com cuidados especiais pela possibilidade de fornecerem visões deformadas da realidade.

Um investigador habilidoso pode, em determinada circunstância, induzir o investigado a dar respostas ao questionário segundo seu desejo ou seu comprometimento com o produto ou candidato. Por outro lado, as pesquisas não conseguem detectar os índices e sinais das emoções que presidem as escolhas, sejam elas destinadas a distinguir um candidato a presidente, governador ou senador, ou o produto necessário à melhoria de seu padrão de vida. O que de fato acontece é que não se pode acoimá-las de orientadas em favor ou contra qualquer produto. Impossível é dar-lhes, como atualmente no Brasil, as honras de antecipações de resultados, quase sempre desmentidos pela poderosa força da realidade circundante.

 Como virou moda, os humores de candidatos variam de
acordo com as modificações dos índices que se lhes atribuem ou aos adversários. Notem o que aconteceu com a candidata Heloisa Helena, até então tratada como mera coadjuvante no processo, passando a receber duro ataque de seus antigos
companheiros petistas pelo fato de haver atingido dois dígitos na última apuração. Em seguida, surgem os palpites dos chamados "cientistas políticos".


Nunca tantos apareceram como, neste período. Há aqueles de nomeada e conceito como Fábio Wanderley Reis, Gaudêncio Torquato, Celso Lafer e o historiador José Murilo de Carvalho. Cito apenas estes quatro, cujos nomes autorizam promover a diferenciação dos demais. Ainda no último domingo, o acadêmico e professor José Murilo colocou em debate a tese sobre o confronto entre a "opinião pública", derivada de pequena parcela da sociedade e "opinião nacional", esta contendo todos os ingredientes de ser representativa de milhões de pessoas desinformadas
e carentes, sujeitas, por isto mesmo, de acorrer ao chamamento de qualquer populista. Segundo ele, o Brasil somente encontrará a verdadeira democracia no dia em que houver a justaposição das duas vozes.

 Quem se precipita em antecipar este ou aquele resultado, não raro correspondente ao seu desejo, colherá o desprazer de se equivocar. No caso brasileiro de hoje, a  emoção ainda não contaminou a eleição. Dizer que tal o qual candidato ganhará porque distribui bolsa-família, ou deixa de fazê-lo, é outro engano fatal. O benefício está incorporado ao dia-a-dia da população carente como remédio controlado. Recebe-o
com tal grau de automatismo que sequer se dá ao trabalho de indagar sua procedência. Ele não cria emoções e seus beneficiários sabem apenas que está se transformando em narcótico, um paliativo com o perigo de trazer embrutecimento moral, imobilizando-o para outras tarefas e transformando o país num enorme exército de mendigos. A emoção ainda está bem distante da próxima eleição.




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