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Mais e mais médicos

23.10.2013
 
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Confesso: a reação de entidades médicas ao programa "Mais Médicos" me impressionou pelo conservadorismo, pelo desprezo às populações desassistidas, pelos preconceitos, pela ausência completa de espírito público.

Emiliano José*

A pretensão do governo, absolutamente correta, era e é fazer chegar a atenção do médico a áreas desprovidas de quaisquer cuidados. E oferece uma remuneração absolutamente condigna, de fazer inveja a milhões de trabalhadores brasileiros. De que doenças sofrem as nossas entidades médicas, algumas notoriamente de direita, algumas dirigidas por correntes de esquerda? Sim, classifico politicamente porque elas se revelaram ao longo do debate - especialmente as de direita, empenhadas em abertamente combater o governo federal e suas políticas de saúde.

 

A doença infantil e perigosa do corporativismo afeta a todas elas, inegavelmente. E esse corporativismo é defensor de uma mentalidade equivocada. Criou-se, ao longo desses últimos anos, uma cultura perversa na área médica, a de olhar prioritariamente para o mercado, e não principalmente para as populações necessitadas. Há que se olhar sem nostalgia para o passado, mas recolher lições. O médico mais antigo, e há tantos ainda assim, tinha o olhar voltado para o paciente, fosse quem fosse. Cultivava o espírito de servir. Abraçava a profissão movido pelo desejo, pela vocação. Não apenas pela lógica do mercado. Qualquer análise aligeirada constatará hoje a concentração de médicos nas grandes e médias cidades, e no interior destas há uma recusa insistente em assistir às periferias, em socorrer os mais pobres.

 

Outras doenças se revelaram, de faces obscuras, inclusive o racismo e a xenofobia. Eu me perguntava por que rechaçar a presença de médicos estrangeiros. Afinal, não havia profissionais brasileiros dispostos a cobrir áreas desassistidas - o Brasil dos pobres, onde não se encontra um médico. O protesto, se genuíno, se com alguma consistência, só se afirmaria na hipótese de médicos brasileiros pretenderem ocupar todas as regiões carentes. Aí, tudo bem. Mas, como evidente, não havia disposição para tanto. É obrigação do governo cuidar da saúde do povo, e por isso  se abriu as portas para médicos estrangeiros.

 

Assistimos espetáculos lamentáveis: médicos desembarcando e sendo agredidos, xingados, mais ainda fossem negros, mais ainda fossem cubanos - é, por que essa raiva especial quanto aos médicos de Cuba, cuja medicina tem reconhecimento mundial? O corporativismo buscou argumentos inaceitáveis - como a desqualificação dos profissionais estrangeiros, a pretender tivéssemos uma medicina bem acima de Argentina, de Espanha, de Cuba, de Portugal. O que se procurava, e ainda se procura, eram médicos clínicos, capazes de auscultar em amplo sentido o paciente, e não o especialista, e não quer dizer que outros países não contem com especialistas.

 

É emocionante constatar a presença de duas médicas cubanas, com anos de experiência em saúde da família, chegando entusiasmadas em Araci, certas de que poderiam contribuir para melhorar a saúde da população de dois povoados. Não iam ficar na sede da pequena cidade. Em Salvador, médicos brasileiros não quiseram ir para Nova Constituinte, no Subúrbio, e um português e um angolano desembarcaram lá com alegria e espírito de servir aquela população jogada ao léu quanto aos cuidados de saúde. O corporativismo ainda sacou da algibeira o pobre argumento da anterioridade da estrutura. Depois dela, devia chegar o médico, o que é um óbvio contrassenso, e agride os próprios médicos. Estes, antes de tudo, é que são essenciais.

 

A crítica ao SUS era para inglês ver. Não queriam seguir para as áreas mais carentes, mas só apontar as deficiências do sistema. Não foram capazes de protestos diante do crime cometido contra a população brasileira quando se extinguiu a CPMF, subtraindo bilhões à saúde. Não há dúvida: a saúde pública está subfinanciada, e é necessário buscar novos recursos para melhorá-la. Mas, nunca sonegando a presença médica onde o povo mais necessita. Nossas escolas de Medicina precisam cuidar mais da formação humanista. Mais médicos.

 

*Emiliano José é jornalista e suplente de deputado federal pelo PT/Ba.

 


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