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Leituras e representações do ano de 1968 no Brasil – algumas anotações

23.10.2008
 
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Leituras e representações do ano de 1968 no Brasil – algumas anotações

Alípio Freire (*)

Noivas de Maio – apenas um antecedente histórico. Ou, sua bisavó era a culpada

No Brasil, mães, tias e avós daqueles que em 1968 tinham por volta de 18 anos (ou mais), costumavam casar, como acontecia pelo menos desde o século 19, no mês de maio. Era o que a Europa – e especialmente a França faziam. Assim, copiavam dos figurinos franceses os modelos dos vestidos de noiva e, das revistas vindas de Paris (a Cidade Luz que exportava Cultura, Costura e Cosméticos) e outros centros do Hemisfério Norte, hábitos e costumes que, uma vez incorporados, contribuíam para nos manter atualizados e acomodados na situação de culturalmente colonizados. Para os noivos, a referência era Londres – símbolo da elegância, da masculinidade e sobriedade, em que pesassem os Clubes Privados de Cavalheiros.

Obviamente, essa condição de culturalmente dominados não era um objetivo em si mesmo, mas um meio (como até hoje acontece) de absorver a produção e valores dos países centrais do capitalismo. Assim, os casamentos das faixas mais abastadas dinamizavam – além da indústria inglesa de louças e de outros serviços de casa – a produção das tecelagens e indústrias francesas de confecções e acessórios, consumindo suas sedas e rendas, lingerie, enxoval de cama-banho-e-mesa, e outras manufaturas de tecidos e petrechos como as luvas, bolsas de festas, sapatos, e todo um arsenal de perfumaria – dos extratos aos sais de banho, sabonetes etc., produtos daquela estação, para não falarmos dos vinhos e outras bebidas, ou nas mercadorias importadas pelos grandes atacadistas de Marselha (ou Liverpool) que as redistribuíam para o resto do mundo. Além, é claro, de colaborar para reproduzir de forma ampliada e manter um determinado tipo de estrutura familiar, em nosso caso claramente patriarcal, suposta, hipócrita e teatralmente monogâmica e monândrica.

O problema, porém, é que as noivas francesas casavam em maio, por que este mês, no Hemisfério Norte, consiste no apogeu da primavera, quando o frio acabou, o degelo já se fez, as plantas florescem, insetos, pássaros e demais animais se acasalam, etc., ao mesmo tempo que se anuncia o verão – boa temporada para férias e viagens. Este não era (e por enquanto, apesar das mudanças climáticas, continua não sendo) o caso do Hemisfério Sul, que em maio vive seu outono e as vésperas do inverno – detalhes áridos e absolutamente sem qualquer sentido para as nossas Noivas de Maio e seus partners de altar e tabelião. O importante era casar como e quando se fazia em Paris e, incluindo, sempre que possível, uma lua-de-mel na capital das Luzes, com direito a uma missa e comunhão na catedral de Notre Dame, além de uma noite na Ópera, uma visita ao Louvre e uma foto na Torre Eiffel.

Sem dúvida, como expressamos acima, a possibilidade desses ritos de passagem completos se constituía em um direito (absolutamente não isonômico – e, portanto, privilégio) das elites. Apesar disto, enquanto valor, enquanto referência, era algo que cortava transversalmente e se fazia dominante no conjunto da sociedade.

Os anos se passaram, e o mito “Maio – o mês das noivas”, se não foi de todo abandonado, pelo menos perdeu muito do seu espaço, seja graças à reordenação do capital em termos internacionais e a emergência de novas potências econômicas e políticas, seja por influência de valores e práticas postos coletivamente em ação a partir de 1968. Ou, mais provavelmente, pela interação desses dois fatores e outros mais.

Brasil, Maio de 68 – ou da insubordinação, a um novo parâmetro de subordinação

O fato é que, tempo-vai-tempo-vem, as “Noivas de Maio” acabaram cedendo sua primazia no calendário das subordinações culturais às Luzes, ao “Maio de 68”.

Explicamos: embora em nosso país, os grandes e mais importantes acontecimentos de 1968 tenham ocorrido a partir do final de junho e, sobretudo no último trimestre daquele ano, grandes editoras, a grande mídia comercial, muitas academias e outras instituições responsáveis pela reprodução ampliada da ideologia dominante insistem em comemorar (por intenção e/ou ignorância), no Brasil, o “Maio de 1968”.

É outra vez Paris nas paradas.

Para nos determos apenas em dois episódios: na França, após uma noite de barricadas, no dia 11 de maio de 1968, 800 mil estudantes e operários saem em passeata pelo Boulevard Saint-Michel (Paris) e, no dia 20, uma greve geral de 20 milhões de trabalhadores (a maior do Ocidente, pelo menos no pós 1945), aliada uma greve geral estudantil param o país, obrigando o presidente, general Charles De Gaulle, a se retirar para a Bélgica.

No Brasil, as manifestações nesse mês são absolutamente mais modestas. O episódio mais marcante aconteceria no 1º de maio, quando uns poucos milhares de trabalhadores de S. Paulo (a maioria dos quais ligados a oposições sindicais) apedrejam o governador Abreu Sodré, seus secretários de justiça, Trabalho e Interior, o Chefe da Casa Militar, e demais autoridades que faziam uma comemoração oficial do Dia Internacional do Trabalhador, na Praça da Sé. O governador e sua corte abandonaram em fuga o palanque, tomado de assalto pelos manifestantes que, em seguida, colocam fogo e saem em passeata de protesto contra a ditadura. A passeata segue até a praça da República. No cruzamento das avenidas São João e Ipiranga, militantes, improvisando um aríete com um caibro, investem contra o City Bank, e quebram seus vidros.

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