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O que se pode fazer pelo Brasil?

23.08.2019
 
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O QUE SE PODE FAZER PELO BRASIL?

A pergunta que mais se ouve entre as pessoas razoavelmente escolarizadas é de como o Brasil chegou a situação atual, a ponto de ter como presidente um idiota e não idiota manso (dizem que o presidente americano Harry Truman era um idiota manso, o que não o impediu de mandar soltar duas bombas atômicas no Japão)  mas um idiota raivoso, tosco e que, a cada dia, a cada pronunciamento seu, se aproxima mais do modelo do fascista clássico.

E tudo isso acontece dentro das regras da democracia clássica e depois de 14 anos de governos teoricamente de esquerda, como foram os governos de Lula e Dilma, quando muitas das reivindicações históricas da população foram em parte atendidas.

Para se tentar entender o que ocorreu será preciso recorrer a duas citações clássicas de Karl Marx

- A história da sociedade humana é a história das lutas de classe

- As massas têm a ideologia da classe dominante.

Para se entender a existência do Bolsonaro será preciso recuar um pouco no tempo, dar alguns passos para trás e chegar a 1964.

Nesse ano, no fatídico dia 31 de março (segundo alguns, a data cerca seria o primeiro de abril), os militares de alta patente se rebelaram e iniciaram um golpe de estado, que eles chamaram de revolução ( diziam que era a Redentora) e que teria dois objetivos: acabar com a corrupção e a subversão

O que eles entendiam por essas duas palavras mágicas eram: a ação, ainda que extremamente tímida, do governo Goulart em favor da reforma agrária e do controle da remessa de lucros para o exterior e o apoio que era dado a essas medidas por sindicatos e entidades estudantis.

Os líderes sindicais, pejorativamente chamados de "pelegos", porque suas entidades de classe eram mantidas por verbas oficiais e não apenas pela contribuição dos trabalhadores - era corrupção - e os estudantes, vistos como profissionais da subversão e não como alunos de escolas e faculdades,.

O golpe de 64 teve padrinhos importantes: o velho e sempre presente imperialismo americano; a religião, na ocasião representada pela Igreja Católica, o latifúndio e a mídia, já bastante atuante e liderada pelos Diários e Emissoras Associados.

E como se repetiria mais de uma vez depois, com o apoio silencioso da classe média e também dos segmentos despolitizados da classe trabalhadora.

Quando chegaram ao poder, os militares trataram de cumprir seu papel: a reforma previdenciária de hoje foi o fim da estabilidade trabalhista na época (até então o trabalhador com mais de 10 anos num emprego não podia ser despedido sem justa classe); o arquivamento dos projetos de reforma agrária e o atrelamento do país aos interesses econômicos americanos.

Aí está, na prática, as verdades de Marx: a luta de classes por atrás de palavras de ordem vazias e a alienação das classes trabalhadoras.

Quando o regime militar caducou e deixou de servir aos interesses para os quais foi criado, reconstruiu-se uma democracia de fachada, que começou com uma eleição indireta ao qual o povo não teve acesso e continuou com a primeira eleição direta, onde novamente as classes dominantes escolheram o presidente, um arrivista da pior espécie, Fernando Collor, um pré-Bolsonaro, que o povo alienado aclamou.

Quando os dois governos de FHC, que se seguiram à experiência frustrada com Collor e depois Itamar, se esgotaram, porque o milagre do Plano Real (definido por Leonel Brizola como uma tentativa de curar um câncer com analgésico) perdeu sua força, surgiu o que muita gente viu como uma revolução pacífica para levar a esquerda ao poder.

O que as pessoas quiseram esquecer é que Lula, o símbolo dessa revolução desarmada, só chegou ao poder, depois de duas derrotas consecutivas para FHC e quando se associou aos representantes do empresariado, representados na eleição de 2002 por José Alencar.

Seu governo e depois o de Dilma, foram tentativas de conciliar o inconciliável, os interesses de classes antagônicas.

Durante algum tempo isso pareceu possível. Uma série de medidas de caráter social trouxe melhorias às classes trabalhadoras como nunca tinha acontecido antes, mas bastou uma crise econômica, típica do capitalismo, atingir o Brasil, para que a classe dominante  retomasse o poder e começasse a impor sua vontade.

Os nostálgicos dos governos do PT querem reescrever o passado, colocando para discussão uma série de verbos no condicional:

- e se os governos do PT tivessem feito a reforma dos meios de comunicação para impedir a lavagem cerebral que a mídia faz diariamente na população?

- e se os governos tivessem colocados nos postos chaves da administração pessoas confiáveis?

- e se os governos do PT tivessem feito realmente a reforma agrária?

- e se os governos do PT tivessem enfrentado a ganância dos bancos e do empresariado?

- e se os governos do PT tivessem feito uma reforma política que acabasse com o domínio dos parlamentos pelas elites e seus representantes?

Para fazer tudo isso, os governos do PT teriam, primeiro que derrotar a classe dominante e segundo esclarecer a classe trabalhadora dos seus direitos.

Aí teria que ser um partido revolucionário, o que o PT nunca pretendeu ser.

Lula teria que ser Lênin, o que não foi e nunca quis ser

E se fosse tudo isso, mesmo assim, talvez não desse certo, como não deu certo no final para a Rússia de Lênin, que chegou ao poder, não por um processo eleitoral, mas por uma revolução.

Como nem Lula, nem Dilma fizeram, nada disso, enquanto o modelo russo durou 80 anos, mais ou menos, o do PT durou apenas 14.

Faltou entender que a história é a história das lutas de classes e que o capitalismo venceu novamente e que por isso mesmo, as massas têm e continuarão tendo durante muito tempo, a ideologia das classes dominantes.

Conclusão: nada indica que o governo Bolsonaro ou seus possíveis sucedâneos, se a classe dominante não precisar mais dele, sejam eventos passageiros.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS


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