Pravda.ru

CPLP » Brasil

Os bandeirantes da pena

22.12.2008
 
Pages: 12
Os bandeirantes da pena

José Ribamar Bessa Freire*

Um exército de escribas invadiu, nessa semana, os espaços dos jornais de circulação nacional, pontificando sobre a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, numa campanha orquestrada para influenciar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O que eles querem, afinal? O mesmo que os bandeirantes, ou seja: tomar as terras dos índios e entregá-las a colonos endinheirados. Diferem apenas na metodologia.

Os bandeirantes da época colonial usaram armas de fogo para invadir aldeias, incendiar malocas, roubar terras e escravizar índios. Já os bandeirantes dos tempos modernos utilizam a pena para escrever artigos e editoriais, invadindo mentes e corações, com preconceitos arraigados e surrados chavões. Ambos, no entanto, se igualam porque justificam a usurpação das terras e, para isso, tratam os índios "como se fossem porcos do mato", na expressão do padre Antônio Vieira.

Dois desses 'bandeirantes da pena' merecem ser citados aqui: Pio Penna Filho e Denis Lerrer Rosenfield. E isso porque os dois são doutores, professores universitários, com livros publicados, o que numa sociedade cartorial lhes confere o direito de cagar regras. (O corretor do world cismou com o verbo e, numa atitude pudibunda, propôs mudá-lo para 'defecar', quer dizer, o corretor quer defecar regras pra cima de mim. Não aceito. Mantenho o verbo original, mais apropriado para o caso).

A pena do Pio

Em entrevista à UnB Agência, Pio Penna Filho, ex-professor do Colégio Militar de Brasília, declarou que "o índio que vive no Brasil não é brasileiro, possui língua, cultura e território próprios" e, por isso, "a delimitação contínua de reservas indígenas é um equívoco, que compromete a soberania nacional". Citou a Bolívia, onde "já se falou até em se criar um estado em Santa Cruz de la Sierra, o que iniciaria um movimento capaz de fragmentar o país", omitindo, no entanto, que quem quer dividir a Bolívia são os fazendeiros e não os índios.

No caso da Raposa Serra do Sol, aonde a demarcação "afeta também as áreas produtivas", Pio considera que os ocupantes do território já passaram por processo de integração com a sociedade regional e foram reinventados como índios "por algumas ONGs internacionais com segundas intenções". Não são mais índios. "Toda a história do laudo dessa reserva Raposa Serra do Sol é controversa" – ele declara, mas não indica quais os pontos controvertidos e sequer diz se conhece o laudo antropológico.

Apesar disso, estranhamente a matéria da UnB Agência lhe confere autoridade advertindo em manchetinha: "Penna NÃO recomenda manter enorme reserva de terra contínua em zona de fronteira". Quem é o Pio Penna no jogo do bicho para fazer recomendações desse tipo e dizer quem é e quem não é índio? A quem é dirigida sua recomendação? Por que não foram ouvidas opiniões diferentes de pesquisadores e dos próprios índios, como seria recomendável no bom jornalismo? Qual é autoridade que o Pio tem para piar dessa forma?

Nenhuma. Ele é, atualmente, professor de História das Relações Internacionais da USP, pesquisou sobre repressão e espionagem na época da ditadura militar, cometeu dois livros e vinte artigos em revistas especializadas. Nenhum deles sobre índios. Confessa, en passant, que já esteve na terra dos Cinta-Larga, em Rondônia, "habitada por índios 'hi-tech', que têm uma série de equipamentos eletrônicos, inclusive telefones via satélite?". E daí? Pio Penna não usa, ele também, esses equipamentos que não foram inventados por brasileiros? Por causa disso, ele deixa de ser brasileiro?

Nessa questão indígena, Pio Penna, que não cita o trabalho de um só antropólogo, substitui a pesquisa de campo por chavões e preconceitos, que circulam na sociedade brasileira. Suas reflexões não nos convidam a pensar, mas a reforçar esses preconceitos. E como disse o ministro Carlos Ayres Britto, relator do processo, "é muito mais fácil desintegrar um átomo do que desfazer um preconceito".

Mais um pio

A mesma lenga-lenga e o mesmo blá-blá-blá são repetidos pelo outro bandeirante da pena, Denis Lerrer Rosenfield, em artigo publicado em O Globo dois dias antes da reunião do STF, intitulado 'Aculturação e Integração'. Ele simplifica - ingenuamente? - a questão, jurando que existem apenas duas abordagens: "a da demarcação contínua, defendida por aqueles que querem impedir o contato dos índios com a sociedade brasileira, e a da demarcação descontínua, que advoga o intercâmbio entre as populações indígena, mestiça e branca".

Quanta simplicidade! De onde ele tirou essa idéia de que nós, que defendemos a demarcação contínua, queremos "manter os indígenas separados dos demais brasileiros, como se fosse possível voltar a um estágio pré-cabralino?". Ele não cita as fontes. E não cita, porque elas não existem. Ele inventou isso por achar que dessa forma fica mais fácil combater os direitos constitucionais dos índios. Suas leituras sobre a matéria estacionaram nos anos 1950.

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular