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Eu já vi este filme: eleiçoes para presidente no Brasil (2006)

22.10.2006
 
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Eu já vi este filme: eleiçoes para presidente no Brasil (2006)

Maria Helena Moreira Alves, PhD, Ciências Políticas

A autora é escritora e conferencista internacional. Com mestrado e doutorado em Ciência Política, do MIT, seu mais importante livro State and Opposition in Military Brazil (Texas University Press, 1984), publicado no Brasil em 1985 pela Editora Vozes, e re-editado em 2004 pela EDUSC, de São Paulo, com o título de Estado e Oposição no Brasil (1964-1984), é considerado um clássico da história do Brasil neste período. Maria Helena Moreira Alves é também autora de mais de 30 artigos sobre a América Latina publicados em revistas especializadas dos Estados Unidos e Europa.

 
Quem viveu no Chile na época da eleição do Allende, ou conhece bem a história do Chile, deve estar sentindo, como eu, uma sensação de "dejá vu". Pois é. Eu já vi este filme. Durante a campanha para Presidente no Chile, em 1970, praticamente todos os meios de comunicação falavam que Salvador Allende, o candidato da Unidad Popular - coligação de partidos de esquerda - iria dividir o país entre ricos e pobres, iria exilar os mais ricos, expropriar toda a propriedade privada da classe média, inclusive suas casas e apartamentos em Santiago, e levaria o país ao caos comunista. Também disseram, sem cessar, que Allende era alcoólico, e profundamente corrupto.

Os jornais, rádios e a televisão mostravam pilhas de dinheiro que supostamente roubado pelo Allende e seus assessores. Pelas escolas do Chile foram mostrados filmes com crianças sendo levadas à força para a União Soviética. Assustaram a classe média, mas com isso tudo, não adiantou nada. Allende venceu a eleição no dia 4 de Setembro de 1970.

 Mas, como ganhou com muito pouca diferença, de acordo com a legislação chilena na época, o Congresso Nacional deveria votar para decidir qual dos dois candidatos mais votados seria o Presidente. Foi então que aconteceu o impensável. René Schneider, Comandante em Chefe das Forças Armadas, e defensor da Constituição do Chile, foi emboscado por um grupo de homens armados no dia 24 de outubro de 1970. Levou mais de 15 tiros. Morreu dois dias depois no Hospital Militar de Santiago. A imprensa inteira colocou a culpa no Allende e seus aliados. A crise quase levou o Congresso a não referendar sua posse como Presidente da República. Mas, afinal, foi descoberto que tudo tinha sido armado pela CIA dos Estados Unidos que financiou um grupo de extrema direita, da Patria y Libertad, para realizar o atentado. E o Congresso aprovou a posse de Allende.

Muitos anos mais tarde, com a desclassificação de documentos secretos da CIA, ficou amplamente comprovado que também a campanha da imprensa tinha sido orquestrada e financiada pela CIA. Inclusive com notas e artigos diretamente preparados por seus agentes e "implantados" na imprensa, em jornais prestigiosos e, supostamente, "independentes e neutros" como o El Mercurio. E os "fatos", tão explorados na época, como o seqüestro de crianças para serem enviadas à União Soviética, e as pilhas de dinheiro roubadas pelos aliados de Allende, tinham sido montagens elaboradas nos gabinetes da CIA.



Henry Kissinger, então Secretário de Estado dos Estados Unidos, declarou abertamente que os Estados Unidos não poderiam deixar um país como o Chile se transformar em território comunista só porque "o povo irresponsável tinha votado majoritariamente em um Presidente socialista." E, declarou Kissinger, "uma revolução de pele escura" não podia florescer pelo perigo que representava o caminho para o socialismo pelo voto. Não pelo Chile, pequeno e pouco importante país dentro dos esquemas de controle imperial, mas sim, como falou abertamente Kissinger, durante uma conferência em MIT, à qual assisti pessoalmente, "pelo exemplo que seria para outros países, entre os quais a França e a Itália."

Espero que ninguém seja assassinado no Brasil para que joguem a culpa no Lula. E acho que não chegariam ao ponto de mostrar filmes de criancinhas sendo mandadas quem sabe para onde hoje em dia. Aliás, fica difícil para eles, já que a União Soviética deixou de existir. Mas nem por isso os Estados Unidos deixam de se meter nas eleições em outros países. O George Bush declarou que o "Eixo do Mal" na América Latina está entre Cuba, Venezuela, Argentina e o Brasil. Agora adicionaram a Bolívia a este "Eixo do Mal". A reeleição do Lula para Presidente da República tem um significado importante na luta pelo controle regional da América Latina. A destruição do caminho de integração regional latino-americana, em contraposição ao ALCA, ou aos tratados bi-laterais (TLC), nos quais os Estados Unidos têm clara vantagem comercial, é importante item na agenda da política externa norte-americana.

Que não se enganem os que pensam que Bush está por demais ocupado no Iraque para pensar na América Latina. Hugo Chavez o tem desafiado. E, o Lula também. Afinal, o Brasil, durante o governo do Lula, foi chave na formação de um grupo internacional de países aliados contra os interesses dos Estados Unidos na ONU e, principalmente, na Organização Mundial do Comércio. E este grupo, o chamado "Grupo dos 20", chateou a tal ponto que afinal as negociações na OMC foram deixadas de lado, sine die. Poderíamos dizer, sine die não, apenas

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