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Exclusivo: Candidato à Presidência Cristovao Buarque

21.08.2006
 
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Exclusivo: Candidato à Presidência Cristovao Buarque

Iniciamos nossa série de entrevistas exclusivas com candidatos à Presidencia do Brasil com Cristovão Buarque, ex-Ministro de Educação do Governo Lula. Descreve a sua visão do Brasil sob 4 anos de governo PT, analisa os pontos fortes e fracos do Presidente Lula, escolha as prioridades para o Brasil e fala das perspectivas do PDT na eleição.

1. Como descreveria os 4 anos do Brasil sob um governo PT?

O presidente Lula ficou amarrado a duas coisas: ao corporativismo e ao imediatismo. Não trouxe para o governos dele o Brasil inteiro e o futuro. Ele não fala para o Brasil, fala para grupos organizados. Aqui para mulheres índias, ali para empresários numa feira de gado, ou para militantes sindicais. E só de reivindicações imediatas, não pensa o País do futuro. Quer dizer que ele atua e fala para esses grupos, não para a nação. Devido a essa origem, o PT montou um governo que se sente familiar a esses grupos e acha normal atendê-los, ao invés de discutir um projeto para todo o Brasil, no longo prazo. São setores, por exemplo, do serviço público, dos sindicatos fortes, das universidades. Assim, o governo empenha-se em criar empregos públicos e não acha prioritário estimular empregos nos outros setores de produção. Gasta energias com a reforma universitária, numa lei que vai destinar 75% dos recursos do Ministério da Educação para as universidades federais, e não implanta o que eu chamei de "revolução das crianças", uma profunda mudança no ensino fundamental.

Hoje você tem no Brasil os donos do capital - a chamada elite -, os trabalhadores organizados e os excluídos. É quase uma continuação dos tempos da escravidão, quando havia também três grupos, os brancos ricos, os brancos trabalhadores e os escravos. O PT vive e sente como parte do grupo do meio, não do de baixo.

E o que isso significa, na prática? Significa a impossibilidade de se repensar o Brasil e melhorá-lo para as próximas gerações. O fato é que a revolução tecnológica e cultural, com todo o seu impacto, exigiria uma reavaliação que o PT não fez. Dou um exemplo: a grande contradição histórica, hoje, é entre quem tem conhecimento e quem não tem. Não é mais entre capital e mão de obra.

2. Quais foram os pontos fortes e fracos do presidente Lula?

Tem um aspecto do quadro nacional que não tem sido observado. É uma crise mais profunda do que aparece no momento. É uma crise estrutural. A sociedade brasileira é uma fábrica de violência. É uma fábrica de deseducação, porque hoje nós temos um triângulo maldito, que é a desigualdade, a corrupção e a violência. Uma economia que não cresce, uma renda que não é distribuída, uma população de excluídos e marginalizados. O país está paralisado do ponto de vista social.

O governo Lula só tem uma culpa: prometeu mudar isso e não mudou. A crise social não começou no governo Lula. Mas ele foi eleito com a promessa de mudar e não fez nenhum gesto nessa direção.

O Bolsa Família é importante, mas não muda. É a diferença entre assistir e emancipar. A diferença entre o Bolsa-Família e o Bolsa-Escola. O erro de pensar só no pontual, no local, no grupo e não no Brasil como um todo. Pensar só no presente e não no futuro. O Bolsa-Escola emancipava, porque era bolsa e era escola. Ele tirou a escola e passou para família. Três equívocos ocorreram, que descaracterizaram o programa educacional e o transformaram em um programa assistencial. Primeiro, tirar o "escola" desvincula da educação. Segundo, tirar do Ministério da Educação a administração do programa e transferir para o Desenvolvimento Social. A terceira é misturar um programa para auxiliar na educação com um programa para ajudar as famílias a cozinhar, que é o caso do vale-gás. Tem que separar isso: Bolsa-Escola e Bolsa-Família, dois programas diferentes. Voltamos no quadro nacional: é preciso mudanças estruturais, que Lula prometeu e não cumpriu. O Brasil perdeu o rumo. Já vinha perdendo o rumo antes de Lula, só que Lula prometia mudanças...

Claro que vou manter o ProUni, mas vou vincular o programa àqueles que estudam nas áreas de interesse público, sobretudo aos alunos de magistério e licenciatura. É possível que eu mantenha muitas coisas, mas fazendo adaptações. O compromisso com a estabilidade econômica, por exemplo, é outra coisa que manterei.

3. Quais são as perspectivas para seu partido nas próximas eleições?

Meu sonho é ajudar o Brasil a debater um projeto alternativo. Tenho certeza de que vou influir no debate. Eu acredito plenamente em passar uma mensagem, convencer os jovens, adquirir adeptos para uma causa e mostrar que a porta da modernidade não é mais a indústria, mas a escola. O que pode fazer o Brasil ser menos desigual e uma nação de vanguarda do futuro é a educação básica, o ensino superior e a ciência e tecnologia. Se conseguir passar isso a gente vai ter uma vitória.

O que precisamos fazer já, que é o centro do nosso projeto, é quebrar a brutal desigualdade da sociedade brasileira. Derrubar a cortina que separa uma parcela da população de outra. Abolir o apartheid social brasileiro, que eu chamo de apartação. Como fez Mandela na África do Sul. Só que lá era racial e aqui é social. Isso exige recursos federais e uma lei de responsabilidade educacional para todos os dirigentes brasileiros. Mas um governo

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