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A crise econômica e suas consequências para os trabalhadores

21.04.2009
 
Pages: 1234
A crise econômica e suas consequências para os trabalhadores

Paulo Henrique Costa Mattos

O mundo vive uma crise de largas proporções provocada pela ganância do capitalismo financeiro especulativo que estimulou um pensamento único na economia e incentivou a financeirização total da economia capitalista, que é a riqueza produzida na forma de “papéis” (títulos públicos, ações, títulos derivativos etc) descolada da riqueza produzida na economia real, produtiva. Somente em derivativos e aplicações financeiras chegou-se a movimentar US$ 600 trilhões de dólares, enquanto o PIB mundial da economia não especulativa era de US$ 65 trilhões de dólares, ou seja, quase dez vezes inferiores ao valor da esfera especulativa.


As bases dessa crise financeira atual estão nas políticas de desregulamentação e da auto-regulação do mercado, que formou, particularmente nos últimos trinta anos, dogmas constitutivos do modelo de crescimento liberal que pregava a liberdade de funcionamento do mercado, a ausência de controles mais rígidos por parte do Estado e a construção de um longo ciclo de descolamento da esfera financeira em relação à economia que, ao que tudo indica, agora está em cheque.


O Brasil está inserido nesta lógica especulativa e agora pagará um alto preço pela opção de Lula em herdar e manter o mesmo modelo econômico de Fernando Henrique Cardoso, perdendo a chance de uma exitosa transição do falido modelo de dependência externa, de submissão ao sistema financeiro, aos bancos e transnacionais para outro tipo de economia, de maior valorização do trabalho, de elevação dos mecanismos de poupança interna, de fomento da sustentabilidade e da qualidade de vida para todos.


As reservas internacionais brasileiras correspondem hoje ao valor da dívida externa, enquanto a dívida interna é 5 vezes maior que as reservas, com um valor superior a 1 trilhão de reais. Somente o passivo de curto prazo está em torno de 600 bilhões de dólares, ou seja, três vezes as reservas. Mas a crise mundial está apenas no seu começo e a alta do dólar vem consumindo as reservas brasileiras rapidamente. Até meados de novembro de 2008, apesar de o Banco Central Brasileiro ter gastado mais de US$ 50 bilhões em intervenções, não conseguiu deter a depreciação do real. Além disso, o governo também já anunciou que as remessas de dólares ao exterior superaram o ingresso de capital estrangeiro em US$ 877 milhões, apenas nas duas semanas do corrente mês.


A crise econômica mundial tem inúmeros elementos que apontam a desestabilização da cadeia produtiva do país e ameaça de quebra muitas empresas nacionais, que, após anos de real forte e abertura econômica, usa muitos insumos importados. E as perspectivas não são favoráveis ao real nos próximos meses já que o dólar continuará em alta (até agora com alta anual de 34,5%) e a pressão do mercado sobre o câmbio é forte, interessando a muitos capitalistas estrangeiros, que apostam no mercado futuro da bolsa de valores, lucrando milhões se a cotação do dólar se mantiver em alta. Essa é a demonstração cabal de que o jogo virou e as empresas brasileiras exportadoras, que, na busca de ampliação de seus lucros pela via financeira, especulavam no mercado de câmbio futuro, com a eclosão da crise e a forte desvalorização da moeda brasileira frente à moeda norte-americana, começaram a acumular fortíssimas perdas. Um número grande de empresas estão envolvidas e algumas fontes já apontam que o prejuízo delas é superior a R$ 35 bilhões.


Lula, que disse antes das eleições 2008 que não admitia adotar medidas de combate à crise auxiliando empresas que especulavam no mercado, já tomou uma série de medidas não só para salvar empresas exportadoras e bancos, como também para manter o fluxo de capitais especulativos no Brasil. O ex-operário presidente manteve a mesma lógica da subserviência e do capachismo nacional ao capital ao assegurar que mais uma vez os trabalhadores brasileiros pagarão com seu suor, miséria e déficit social o alto custo da crise.


O Banco Central decidiu liberar parte dos depósitos compulsórios, com o pretexto de destravar as operações de crédito, mas a verdadeira razão dessa medida é apenas dar um alívio aos bancos frente à inadimplência das empresas exportadoras com seus contratos de câmbio, algumas delas já levando o problema para a Justiça resolver. Mas os próprios efeitos dessa injeção de liquidez se mostram pouco efetivos. O crédito continua paralisado e empresas com planos de investimento e operações de financiamento em curso estão sendo informadas pelos bancos da paralisação dos negócios em andamento.


O governo do ex-operário presidente editou uma Medida Provisória (nº 442/2008) que ampliou substancialmente a autonomia do Banco Central, inclusive na utilização das reservas de divisas do país, com o objetivo de viabilizar linhas de crédito a bancos brasileiros com filiais no exterior e a empresas exportadoras. Ou seja: frente a uma forte especulação contra o Real, quando agentes econômicos correm para o dólar, o Banco Central passa a poder

alimentar ainda mais esse jogo, e com a utilização das reservas internacionais. É como se Lula quisesse apagar um incêndio com gasolina.

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