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Economia brasileira: evolução e consistência

21.04.2008
 
Pages: 12
Economia brasileira: evolução e consistência

Por Humberto Dalsasso (*)

O Brasil – com sua riqueza potencial, seja pela extensão, posição e configuração geográfica, pela diversidade de clima e solo, pela variedade e dimensão dos recursos naturais e pela diversidade etnográfica, desde a passividade portuguesa até a dinâmica empreendedora italiana, alemã, inglesa, polonesa, americana e outras – no passado induziria qualquer analista criterioso ou simples observador a posicioná-lo como uma grande e rica nação no futuro.

Passados cinco séculos, já não é apressado o interesse em avaliar se o desempe-nho ocorrido atingiu, superou ou ficou aquém das possibilidades e expectativas.

Ninguém – ou pequena parcela – discorda de que o Brasil é um bom País para viver. Clima bom, povo amigo, boas potencialidades de negócio, relativa tranqüilidade e muitas outras qualidades. Mas não é exigência exagerada insatisfação com as deficiências e fragilidades que ainda persistem e, até, cresceram. Por exemplo: Corrupção, segurança, burocracia, educação, ineficiência governamental, alta carga tributária, taxa de juros, crescimento irregular, insuficiente e inconsistente e tantas outras deficiências.

Também, pelo excesso, não é xenofobia reconhecer que a histórica e irresponsável exploração dos recursos naturais não renováveis para atender ao interesse externo, desde os colonizadores, há séculos vem delapidando o potencial brasileiro de desenvolvimento(**). Recentemente, no artigo “Patrimônio Líquido Soberano” analisamos o tema. Isto quer dizer que alguns momentos de crescimento são insuficientes para que o País seja efetivamente desenvolvido.

Ao longo da história, em poucos momentos tivemos governantes que utilizaram a geopolítica e a geo-estratégia na gestão dos recursos. Poucas vezes o País teve planos estratégicos efetivamente convertidos e continuados. Age-se, com freqüência, pelo impulso, ao sabor do interesse “político” ou de grupos, cedendo às pressões da conjuntura. Isto é, buscam vantagens particulares ou se acomodam ao que acontece em vez de construir responsavelmente os acontecimentos.

Caminhando pelos últimos períodos governamentais, após passar pela apelidada “Década Perdida”, entramos na década das descontinuidades, onde algumas coisas, por necessidade, aconteceram. Ao final do Século passado, mais precisamente 1999, a situação levou à grande desvalorização cambial da moeda brasileira, chegando próximo de R$4,00/US$1,00. Como o País estava com pesada dívida externa, isto foi oneroso. Por outro lado, facilitou a participação dos produtos brasileiros, inclusive industriais - não apenas minérios e commodities – no mercado externo, contribuindo para positivar a balança comercial e amenizar um pouco as transações correntes, apesar da alta carga financeira. Isto facilitaria os passos futuros.

A expectativa da sociedade na virada do Século quanto às conseqüências do novo Governo, ao assumir o primeiro mandato, era de incerteza e dúvida pelas características e pelo conhecimento que o cargo demanda. Porém, ao ser-lhe exposta a situação econômico-financeira do País, pelas instituições financeiras internacionais, houve o bom senso de confiar a direção do BACEN a detentores de conhecimento da área, o que evitou a turbulência que poderia ter sido causada pelos agentes financeiros internacionais. Acalmada a situação, a aeronave econômica levantando vôo apoiada pela desvalorização da moeda e pelo favorável ambiente da conjuntura econômica mundial, alavancado pela China, aumentou a demanda de matérias-primas e commodities deixando a economia brasileira numa fase favorável.

Com uma situação mais tranqüila, como somos generosos pagando a mais alta taxa real de juros do mundo, seria natural que o sistema financeiro internacional, tomasse vôo para o Brasil. O IDE é desejável, porém, quando especulativo, é de alto risco, diante da concentração e da volatilidade.

Em conseqüência do expressivo volume de recursos interiorizado, a moeda brasileira valorizou-se progressivamente, apesar das compras efetuadas pelo Governo. Diante do acúmulo de reservas e da valorização do Real, o Governo, acertadamente, amortiza a dívida externa, reduzindo a vulnerabilidade. Isto foi acertado e bom, melhorando a liquidez. Melhor seria se essas compras tivessem ocorrido economias pela melhor gestão governamental, não com o significativo e oneroso endividamento interno.

Com a exportação dificultada, e a importação facilitada, pela valorização cambial, a inflação vinha se comportando bem, o que, associado a algum crescimento, embora irregular e ainda insuficiente, alavancado por programas sociais do Governo e pela expansão, até irresponsável, do crédito, constrói-se o panorama do “tudo resolvido” . O que na realidade não é.

Diante disto, a recente decisão do COPOM elevando a taxa SELIC de 11,25% para,11,75%aa.- reflete a preocupação por uma conjuntura pouco consistente, não apenas a crise imobiliária (sub-prime) americana. A simples elevação de 0,5pp na SELIC implica um acréscimo de custo de quase R$3 bilhões anuais às contas públicas, além de estimular o ingresso de capital externo especulativo que poderá pressionar ainda mais a valorização cambial, dificultando a vida da empresa nacional.

A menos que algo exista de muito sério acobertado, parece prematura, onerosa e inadequada a decisão, embora ela receba o generalizado elogio banqueiro.

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