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O Brasil no espelho: Memórias de um professor e escritor, no país da mediocridade

20.02.2016
 
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Neste momento, encontro-me na Biblioteca Municipal da cidade brasileira de Brusque, das mais ricas do estado de Santa Catarina, este, por sua vez, o mais rico do Brasil proporcionalmente, em relação à densidade demográfica.

Como de praxe o local, em tese de estudos e pesquisas, está tenso contrariando as recentes filmagens da Prefeitura local, apresentando seu alegado "êxito" educacional através da Biblioteca lotada: neste exato momento, um professor preparando aulas, à minha frente em uma mesa ao fundo do estabelecimento, levanta a voz e surpreende estudantes adolescentes sentados sobre mesas, no chão, brincando em altas vozes, e chama a atenção: "Por favor, baixem o tom de voz, respeitem quem está estudando! Ou quem não quer estudar, que se retire!". E continua dando lições de respeito neste sentido, sem ser minimamente atendido.

Enquanto estas linhas estão sendo escritas, já veio ao local, mais de cinco minutos depois das advertências inicias do docente, a bibliotecária Kátia, quem dera entrevista às mencionadas filmagens cheia de orgulho pelo vertiginoso aumento do número de visitantes da Biblioteca nos últimos dois anos. As advertências do indignado professor seguem - sem nenhum resultado.

 

Por Edu Montesanti

Recentemente, em conversa particular comigo, dois funcionários desta Biblioteca se gabavam com acentuado toque de arrogância, e até de fúria, do estrondoso aumento do número de frequentadores por mês desta Biblioteca, em tão pouco tempo, "um grande sucesso" em contraposição às minhas críticas ao nível educacional do brasileiro médio, e da decadência do Poder Público, em todas as esferas, nesta e em todos as áreas (saúde, segurança, etc). 

Um detalhe não mencionado pelos dignos representantes desta suposta Revolução Cultural brusquense, é que tal crescimento de visitantes mensais da Biblioteca deu-se após o fornecimento de computadores e uai-fai livre.

(Antes de prosseguir: mais de 10 minutos após as primeiras advertências, o professor levanta, vai mais adiante da mesa em que tenta fazer pesquisa, e chama atenção dos adolescentes).

Neste momento, entre jovens passeando pelo recinto fazem do local algo muito similar a um boteco para menores: além de sentados sobre as mesas e chão, chutam-se, batem-se com as mãos, roubam bonés de colegas e saem correndo, enfim, entre 20 e 30 usuários, tive o cuidado de contar: três deles leem livros, um senhor lê jornal, uns três com lepitópi, e o restante com celulares - uótizapi, principalmente, embora também o som ambiente se dê com músicas e piadas eletrônicas.

(Neste momento, enquanto retorno da sala da bibliotecária com estatísticas sobre frequência do local, o professor que tenta elaborar suas aulas está na recepção, entre reclamações com funcionários e discussão com alunos, os quais mantém a peculiar característica desafiadora do discência e da própria sociedade brasileira.De nada adiante: seguem as palmas, gargalhadas, celulares tocando com chamadas, uótizapi, piadas e músicas, palavras de baixo calão entre os adolescentes, gritos e todas as brincadeiras inconvenientes no local. O professor está inquieto em sua mesa).

Os números estimados passados semanas antes por funcionários, acabam de ser passados com precisão pela bibliotecária: o"grande êxito" em números é comparativamente estrondoso - às primeiras vistas, como quase tudo no Brasil, mas dado o número de habitantes de Brusque, 120 mil, e a própria realidade patética do local, traduzem-se em mais um tradicionalmente idolatrado casuísmo tupiniquim. 

Em 2013, quando não se computava frequentadores, tal estimativa girava em torno de 400 por mês no local, segundo a bibliotecária (cifra que coincide com minha avaliação antes da conversa com a diretora da Biblioteca, seguindo a lógica dos números e dos interesses no usufruto deste estabelecimento).

No ano todo, este número deve ter chegado a 4.400 pessoas (considerando recesso). E isto sim, dado oficial: os empréstimos de livro foram da ordem de pífios 7.522, uma média de 683 mensais.

No ano de 2014, o Poder Público delira até hoje com as 35 mil pessoas que visitaram a Biblioteca, tomando emprestados míseros 14 mil livros (número mais deplorável se se considera, e os demagogos de plantão não consideram isto, que um mesmo cidadão muitas vezes empresta vários livros em um mês).

Em 2015 os visitantes, para vanglória das elites nacionais (as mesmas que apoiaram entusiasticamente o golpe militar que, de imediato, passou a queimar livros de Sociologia, de Filosofia e de História, se estes últimos ousassem questionar o atual sistema medíocre), chegaram a 53 mil pessoas, o que dá uma média de 4.4490 mensalmente, comparadas exaustivamente por aqui às cerca de 400 de três anos antes. Os livros emprestados, por sua vez, somaram no ano passado 17.400, o que apresenta média de 1.453 livros mensais.

O detalhe que faz tanta diferença quanto é omitido em meio a estes números, já reveladores por si só: apenas no início de 2014, foi colocado uai-fai livre e disponibilizados três computadores a qualquer um que apresentar documento de identificação. Neles, vê-se com total prevalência de acessos ao Fez-se Buque além de jogos tais como lutas de combate e pôquer.

Fica, assim, bastante claro que do ponto de vista educacional e cultural, que o hábito de leitura não avançou em praticamente nada mesmo diante destes fantasiosos números. A Biblioteca acabou fornecendo serviço que a degrada: o uai-fai serve diariamente para a utilização de uótizapis e usos variados de celulares com seus inúmeros inconvenientes, além de computadores conectados em salas de bate-papo e redes sociais (quando muito, já que, talvez, haja seus acessos mais baixos à Internet).

E tudo se deteriora ainda mais se, conforme já abordado, se compara os números de empréstimos de livros aos 120 mil habitantes da cidade tanto de elite (econômica) quanto elitista (relativo à mentalidade).

Fica claro nestes números apresentados com rigor de detalhes pela bibliotecária, bastando notar que o número de empréstimos de livros não seguiu proporcionalmente o de visitantes ao local (se não bastasse o cenário pateticamente contemplado com absoluta frequência por aqui) aquilo que coloquei aos arrogantes e furiosos defensores corporativistas da aparente Revolução Cultural do século XXI na cidade de Brusque: o assédio á Biblioteca se dá mais pelo acesso gratuito à Internet com seus infindáveis divertimentos, alienações e pornografias que cada vez mais imbecilizam a sociedade, que aumento significativo de interessados em leitura.

A própria bibliotecária, agora há pouco, reconheceu a mim em sua sala quando fui procurar as mencionadas informações: até 2013, a Biblioteca ficava em outro local, de difícil acesso, no alto de uma escadaria, o que certamente fez com que os que já possuíam o hábito da leitura naqueles tempos, adquirissem mais livros hoje.

Seria injusto culpar unicamente á bibliotecária Kátia pelo caótico ambiente do local. Embora falte um pouco mais de pulso, ela já foi testemunhada solicitando repetidas vezes que um adolescente saísse do computador por seu tempo havia se esgotado, enquanto era gozada e confrontada. Trata-se, seguramente, da menos culpada.

Este autor lecionou em escolas públicas e particulares na cidade em questão, e presenciou a vergonha do ensino e do "incentivo" à cultura: na primeira semana em que passei a dar aulas em determinada escola por aqui, fui convidado pela diretora a assistir a uma apresentação "cultural" dos alunos, apoiados pelos seus respectivos professores. Surpreendi-me quando algumas apresentações eram de dança erótica, outra de músicas do extinto e precariamente folclórico Mamonas Assassinas (conjunto de baixo-nível que primava pela excessiva estupidez) e por aí vai, tudo sob alegres aplausos do corpo docente.

Quando este autor, que ficou com dois meses de seus ganhos de professor atrasados pelo Estado por questões documentais, solicitou junto à diretoria uma palestra para apresentação de seu livro, na qual predominaria comentários de política internacional (tema do livro em questão) junto aos alunos, jamais foi atendido - o que havia ficado claro logo no início da minha ideia, dada a indiferença demonstrada. Vale ressaltar: o "salário" (gorjeta) pago aos professores já é de fome; imagine-se, agora, um docente sem receber por seu sofrido labor por dois meses...

Este autor havia conversado com a diretora da escola sobre as possibilidades de imprimir atividades aos alunos, ao que foi respondido: "A escola disponibiliza impressora com preços reduzidos a professores. Professores cobram dos alunos por impressões nas épocas de provas e quando lhes passam trabalhos. Você pode cobrar dos alunos um valor superior, e ficar com o dinheiro".

Em um país que industrializa como poucos absolutamente tudo - a indústria das multas, a indústria das receitas de remédios -, eis a indústria das provas e dos trabalhos escolares! Largamente utilizada por professores que lucram com atividades em sala de aula, porém recusada por este pobre professor e autor, mesmo nos momentos mais difíceis da vida acreditando que a consciência e o exercício da cidadania, que passa fundamentalmente pela valorização educacional através de exemplos e dedicação integral, não tem preço. Este sim, o futuro de um país que há muitas décadas se intitula como tal, "o País do Futuro" rumo a um porvir que nunca chega, enquanto baseado em ilusões.

O estado de Santa Catarina não fornece nenhum material aos alunos, nem sequer livros didáticos das próprias aulas. É completamente precária a condição de trabalho nas escolas públicas por aqui, quadro tenebrosamente completado por diretores, inspetores e muitos professores ignorantes, de mentalidade rasa e que, eles mesmos, não possuem o hábito da leitura.

E nesta cidade que segue à risca o espírito autoritário e discriminador do Brasil em geral, há apenas três livrarias médias, e uma de supermercado, minúscula.

Já sobre o livrinho deste autor, vale deixar registrado: foi retirado por mim de duas livrarias (Catarinense e Martins Fontes) pelo mesmo motivo: ambas vendiam livros "escondido" do autor, sendo que a primeira contrariava o contrato elaborado por ela mesma, não prestando conta mensal da comercialização do produto, o que lhe cabia, posteriormente, executar o reembolso pelas vendas.

Na Livraria Cultura, disponível atualmente, um recente reembolso acabou "acidentalmente" em antiga conta do Banco Itaú (inexistente, cujo cartão está perdido e o autor se encontra, hoje, bem longe de sua agência, portanto o dinheiro está perdido), ao invés da atual conta do autor no Banco do Brasil. Detalhe: o proprietário da referida livraria é o mesmo do Itaú; portanto, o mísero valor (de R$ 59.90 nas prateleiras, o autor lucra menos de R$ 6,00 por venda) acabou depositado ao próprio dono da livraria. Moral da história: na prática, o autor paga para ter livro publicado.

Tudo isso, pateticamente registrado nos contatos por correio eletrônico deste pobre autor com tais estabelecimentos, no país do imponderável onde, desgraçadamente, seria talvez mais vantajoso ao escritor disponibilizar livros em blog pessoal que nas grandes livrarias, dado o tenebroso quadro da ganância desenfreada.

No Brasil, briga-se com a nua e crua realidade cotidiana, acusando raivosamente os adeptos da autoanálise de "apátridas", "traidores" da Pátria de Chuteiras, os reacionários (mesmo entre declarados progressistas que levam no espírito a reação mais conservadora) do "Brasil, ame-o ou deixe-o", lema criado à época da ditadura, impregnado na mentalidade de uma sociedade que até hoje nega veementemente autocrítica, cuja bravura não acompanha, nem de longe, a mesma intensidade quando o assunto são os tão graves quanto evidentes problemas sociais do país.

Enfim, aí estão mais fatos e números estatísticos, embora no Brasil também se brigue estoicamente com eles - tanto quanto contra os indignados com este quadro, constantemente tachados de pessimistas e de coisas muito piores.

O auto-engano, em qualquer segmento da vida, é o maior adversário do avanço, poucas coisas são tão maléficas quanto ele. E vivemos em um país de inúmeros e extremamente agressivos auto-enganos (em grande parte, impostos também pela mídia e pelas classes dominantes que gozam do sistema mafioso que estabelecem), em que muitos se irritam profundamente quando determinadas verdades são colocadas (toda essa mais acima, por exemplo).

Não poderíamos deixar passar o alegado sucesso do Poder Público da cidade de Brusque, frente a este perfeito ambiente de bagunça em barzinho de esquina cujos livros fazem papel de meros enfeites, ambos os fatos ilustrando perfeitamente a realidade do Brasil demagogo e atrasado. 

O Brasil no espelho reflete uma imagem totalmente deformada de democracia, restando-nos usar o incontestável reflexo do dia a dia para mudarmos nossa realidade.  aguardando o próximo capítulo da farra das classes dominantes, usurpadoras do poder. Nem só de Copa do Mundo e de Carnaval vive o homem, e se o Brasil quiser realmente mudar para melhor, algum dia terá que passar antes, inevitavelmente, por essa dura revisão de sua identidade.

Por tal maneira de se (des)organizar (que levou mais este professor e autor da tentava estudar no local a interrompido, escrever esta nota) e incapacidade de se enxergar minimamente, ano após ano a sociedade brasileira não tira lição nenhuma de suas crises, não permitir que o Brasil se conscientize, que enxergue sua realidade e, a partir disso, que anseie mudá-la - começar a mudar, seria uma outra e longa história - antes, deve querer deixar de ser cômoda, passiva espectadora (alguns poucos, de camarote) dos inúmeros capítulo da farra das classes dominantes e dos usurpadoras do poder, os quais morrem de rir cada vez que aceitamos a ideia de constituirmos uma promissora nação, das mais avançadas dentre os emergentes e para muitos, até do mundo.

As ilusões do Carnaval não se limitam aos cinco ou seis dias do segundo mês do ano por aqui, no país das aparências e do excesso de demagogia. Nem a preguiçosa ressaca, física e intelectual.

"Brasil, ame-o ou deixe-o" dos milicos, até quando?

Edu Montesanti

 


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