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O perdão das ofensas

20.01.2015
 
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Victoria deu-me, de presente, ontem pela manhã o número novo, que não me decidi a comprar. Contava com ficar decepcionado. Pois é, não estou decepcionado. Nada de transcendente, mas um tour de force dadas as circunstâncias. A capa ficou excelente. No papel couché, o verde fica muito bom. O significado já é outra coisa. Em Causeur - que assino - Elisabeth Lévy reclama contra a questão do perdão.

17/1/2014, Jacques-Alain Miller, Paris, 10h 
(Distribuído pela lista lacan.dot.comlacanadmin@lacan.com [fr.][i])

 

Os judeus têm o rito do "Grande Perdão", mas há quem proteste contra a memória deles, longa, longa, muito longa, longa demais. Mitterrand irritava-se. Acossado pelo famoso "lobby judeu" que exigia desculpas por Vichy, deixou escapar que "pode ser, talvez, daqui a 100 anos." Esse movimento de humor do velho ativista pró-fascistas, ou amigo de ativistas pró-fascistas, normalmente tão senhor das próprias emoções, aparece na tela numa entrevista que se pode ainda rever. (1) Ele explica sem rir que, quando funcionário de Vichy, desconhecia o estatuto dos judeus. 

O perdão não existe, seja como for, na psicanálise.

"O erro de boa fé - escreveu Lacan - é de todos o mais imperdoável". Por quê, já expliquei no meu curso. E está também nos Ecrits : "De nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis. Mesmo que se chame isso, se se quiser, de terrorismo." Ai-ai-ai! Aí está palavra que, nos tempos que correm, leva à confusão. Isso significa : entregas a verdade num lapso, não podes apagá-lo, o que está dito está dito. Pedes desculpas no teu inconsciente? "Não sou eu, é ele"? Precisamente, Freud ensina que teu inconsciente é também tu, mais verdadeiramente tu. Não há desculpas possíveis. Nada jamais te será perdoado. É também o que diz o Eterno Retorno de Nietzsche. 

E parece, atualmente, que o Islã tampouco perdoa, ou, pelo menos, que só muito dificilmente perdoa as ofensas feitas ao profeta. Um Rushdie, por exemplo, não perde por esperar. 

Com as raízes cristãs da França, é diferente. Nunca desesperar do homem, é nosso belo princípio. Sempre se procura o viés pelo qual tocar o coração do Faraó. A história de Moisés mostra, porém, que há circunstâncias nas quais não funcionam as cosquinhas. As pragas vêm em pacote: dez pragas, nem uma a menos. Hiroshima, em resumo. Sempre pensei que foi a profunda cultura bíblica do puritanismo norte-americano que fez a cabeça do presidente Truman no momento decisivo. Se bem me recordo, da biografia dele escrita por David McCullough, na noite seguinte Truman dormiu o sono dos justos. Que dira hoje a Corte Penal Internacional? Proporcional? Disproporcionada?

Ah, já ia esquecendo! Os EUA assinaram o Tratado de Roma que cria a Corte, mas nunca a ratificação. É a Bíblia, a Bíblia, digo-lhes eu! E a Rússia fez o mesmo. Mas China e Índia nem assinaram o tal Tratado. Logo, a culpa não é toda da Bíblia. Mas enfim, se houvesse ONU nos tempos bíblicos, a história santa não daria nem p'rá saída. O que me faz pensar na frase de Renan 'pescada' por Lacan - decididamente, encontra-se tudo nos Ecrits: "Felicitemo-nos por Jesus não ter encontrado nenhuma lei que castigasse a agressão contra uma classe de cidadãos: os fariseus seriam invioláveis." É. Com leis como as nossas, Jesus seria imediatamente posto atrás das grades, como Dieudonné.[1]

Estou de humor maligno, hoje. É o efeito Charlie. Ou talvez esteja na veia sarcástica, mordente, "a-humana", do lacanismo. Mas, afinal, o Deus do povo judeu era bem, ele mesmo, a-humano. Não é o mínimo, para Deus uno? "Quando o faraó resistiu e recusou deixar-nos sair, o Senhor matou todos os primogênitos do Egito, primeiros os filhos de homem, depois os filhos das bestas" [Êxodo 13:15] Por que das bestas? - diria Houellebecq. 

Imaginem Jeová ante a Corte Penal Internacional, nunca ganharia a liberdade, ficaria preso por toda a eternidade. François Regnault, meu querido amigo, saberia escrever sobre isso com certeza, entre o [programa de rádio] Tribunal des flagrants délires  e a Liebeskonzil de Panizza. É verdade que o pobre Oskar, acusado de 93 blasfêmias, pagará suas audácias com um bom ano inteiro numa prisão bavara (1895-1896). Terminou seus dias num asilo, acometido de paranoia com alucinações auditivas.

Lembro-me que Le Concile d'amour estava sendo apresentado em Paris pouco depois de (19)68, com figurino sensacional de Leonor Fini. Foi até premiada. Teatro que, se alguém se atrevesse a montar hoje, geraria batalha nas ruas de Paris. Pode-se lembrar também que Le Fanatisme ou Mahomet le prophète, a ser apresentada em Genebra, em 1991, para o tricentenário de Voltaire, não pode ser apresentada, a Prefeitura recusou-se a subvencionar o espetáculo. Em 1742, também, as representações da peça em Paris não passaram do terceiro dia, porque o Parlamento considereou a peça perigosa para a religião. Porém retomada em 1761, a peça teve "efeito prodigioso", segundo testemunho do conde de Lauraguais, em relato a Ferney. 

Acho realmente maravilhoso que as Luzes conservem intacta para o século 21toda a sua carga subversiva. Quanto tempo falta para exigirmos que sejam postas abaixo as estátuas de Voltaire nofoyer da Comédie-Française e de Diderot do boulevard Saint-Germain, por causa do incômodo que causam aos crentes?

Mas os não crentes também padecem. Ficaram muito incomodados, porque o papa Francisco que arrasta com ele todos os corações, disse nessa 5a-feira, em conferência de imprensa a bordo do voo para as Filipinas, que a liberdade de expressão deve buscar exercer-se sem para isso ridicularizar a fé de outros. Grande decepção entre as rãs que não admitem que o escorpião tenha uma natureza. Querem porque querem, agora, o seguinte : "essencializar". Eram existencialistas! Para fugir de mais metáforas : o melhor dos papas, como a mais bela das mulheres, não pode dar o que tem. Nicolas Sarkozy gosta, dizem, de repetir : "Ninguém muda as riscas da zebra." Não, mesmo. Vejam aí, a Igreja profunda, apesar do Vaticano II, não se reconciliou com o que papa Francisco designava, sem meias palavras, 5a-feira passada, como "a herança das Luzes".

O cardeal Scola, que era meu cavalo, se se pode dizer assim, na última eleição papal, e cavalo também de Bento 16, parece, pensa do mesmo modo e escreveu. O campo progressista sempre se dá mal.

Le Monde meteu o dito papal num canto de página, bem pequeno. E a que assunto La Croixdedicou a edição de ontem de manhã? Ninguém jamais adivinhará : ao vírus Ebola. O editorial, sobre os estragos de Boko Haram.

Na Igreja há atrito, e... quanta charlatanice no tal Voltaire, se se pensa nisso, quanta petulância, sem falar da ingratidão, de acreditar-se "capacitado ", como dizem os socialistas, para esmagar o que chamavam de o infame! Suas alfinetadas, no mínimo, o fizeram murchar. Depois de se ter nutrido, nos seus primórdios, de tradições espirituais, pode-se dizer que a perda de significado induzida pelos sucessos da matematização da natureza prepara de fato "o triunfo da religião" (Lacan). "Miséria do homem sem Deus", volta-se sempre a isso. Pascal não é o único intimidado pelo silêncio dos céus. A "cientofobia" estende-se à medida que "o deserto cresce" (Nietzsche). Errante sobre a terra devastada do rei pecador, a Waste Land, a humanidade morre de sede sem saber que está próxima da fonte. Espera a enchente divina, como Ezequiel prometeu, 34:26, "Enviarei a chuva ao seu tempo, e será uma chuva de bênção."

Ah ! E eis-me a rezar, como Fabrício em Parma. O espírito mau que estava em mim foi-se. Alguma coisa desse tipo aconteceu a Charlie. Sangrado até a última gora, pôs-se a sublimar a pleno vapor. Um Maomé com uma lágrima no olho. Confessa-se responsável, como indica o cartaz pendurado ao pescoço, "Je suis Charlie." Coroando tudo, um "Tudo é perdoado", enunciado sem sujeito, como se viesse de lugar nenhum, à guisa de Mane, Thecel, Phares ["Contado, pesado, dividido" (palavras que, segundo o livro de Daniel, apareceram na parede da sala onde o Rei Baltasar promovia uma festa sacrílega) (NTs)]. 

É muito bonito, mas é sonho de cristão, ou, mais, de católico-de-esquerda [no Brasil, nos anos 60, se diria, «de católico da Ação Popular  (AP) », grupo no qual então, militava José Serra (NTs)] : o Islã arrependido une-se à família das nações sob o jugo do Bom Pastor e beija os sapatos do papa.

Nossos irmãos muçulmanos receberam muito mal aquela capa. Compreende-se facilmente. [Continua]

Nota

(1) Mitterrand et Elkabbach : youtube.com/watch?v=owFF0K9-jcs 

 

[1] Sobre Dieudonné, ver http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/11/uma-nova-revolucao-fermenta-na-franca.html

 


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