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Rumo ao ex-Brasil

18.12.2008
 
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Rumo ao ex-Brasil

Talvez o leitor imagine que estou angustiado com a iminente desintegração territorial do país. Nada disso. Apenas constato. O que está acontecendo hoje em Roraima é uma exigência da Organização das Nações Unidas. Em 18 de agosto do ano passado, a ONU aceitou apelo feito por grupos indígenas - leia-se CIR e CIMI, entidades a serviço de fundações americanas e de parte da Igreja Católica - e passou a exigir que o Governo brasileiro garantisse a retirada dos ocupantes da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. De acordo com o Comitê de Combate ao Racismo da ONU, ao qual os índios recorreram, o assunto deveria ser classificado como "urgente".


Os eméritos magistrados do Supremo Tribunal Federal apressaram-se em cumprir servilmente as ordens da ONU. Pouco mais de um ano depois, entregaram a 17 mil índios 17 mil quilômetros quadrados de território. Milhares de aposentados estão morrendo sem ver sequer a sombra dos precatórios devidos pela União e pelos Estados e já julgados em última instância há mais de década. Quanto aos indígenas, em um ano e quatro meses após o pleito junto à ONU, já tiveram sua "nação" reconhecida.


Um mês depois, mais precisamente em 13 de setembro de 2007, a ONU proclamou a Declaração de Direitos dos Povos Indígenas, que deve proteger os mais de 370 milhões de pessoas que integram estas comunidades no mundo todo. O texto, ratificado por 143 votos a favor, 4 contra e 11 abstenções, constituiu um marco histórico para os movimentos indígenas. No que depender da ONU, balcanização não vale só para os Bálcãs, mas para todos os países do mundo. Os quatro votos contrários foram dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, todos ex-colônias britânicas. Nesses países, as populações nativas como os inuit (esquimós), maoris e aborígenes têm movimentos organizados de resistência política e cultural.


Segundo o Estado de São Paulo, a declaração, de 46 artigos, estabelece os padrões básicos de respeito aos direitos dos povos indígenas do mundo, que incluem a propriedade de suas terras, acesso aos recursos naturais de seus territórios, preservação de seus conhecimentos tradicionais e autodeterminação. O problema é esta última palavrinha. Autodeterminação significa a constituição de um novo país.


Se os países querem dividir-se, que se dividam. Hoje há fortes movimentos separatistas no Canadá, na Bélgica, na Itália e na Espanha, isso para falar só de Ocidente. O Canadá francófono não quer mais dormir junto com o anglófono, os valões não estão gostando de dividir o mesmo teto com os flamengos, a Padania quer distância de uma Itália pobre (Lega lombarda, Roma bastarda) e bascos e catalães querem independência da Espanha. Mas que a divisão seja iniciativa de cada país, e não imposição de uma entidade inoperante, inútil tribuna de discursos vazios e cabide de empregos milionários. Se estes países resolverem cindir-se, cada pedaço saberá como gerir seus destinos. Outra coisa é conferir territórios imensos a selvagens que não conseguem sequer administrar uma horta. E que passarão a onerar os contribuintes do país ao qual pertenciam.


Se o Brasil quer dividir-se, que se divida. O deplorável é ver que esta divisão, se acontecer, será em função de interesses internacionais e inconfessáveis, e não uma decisão dos brasileiros. É uma luta pelo subsolo, e não defesa de direitos indígenas. Espantoso ver um governo que se pretende de esquerda dobrando-se à vontade de fundações e ONGs americanas e européias. Humilhante ver uma Suprema Corte curvando-se a uma determinação da ONU.


De minha parte, não tenho objeção alguma a que o país se parta em cacos como previu Eça de Queirós. Nasci na fronteira seca com o Uruguai e nunca me senti muito brasileiro. Sou mais platino. Me sinto mais em casa em Montevidéu, Buenos Aires ou mesmo Madri, do que em Porto Alegre ou São Paulo. Desde há muito defendo a divisão do Brasil em três ou quatro partes. Seriam mais administráveis. Um norte, um nordeste, um sul. E mais o Rio de Janeiro, que poderia ser logo entregue a quem de fato detém o poder, os traficantes de drogas. Para o PCC, um bantustão. Eles que o administrem.


Houve época em que me sentia brasileiro. Aliás, mais gaúcho que brasileiro. Comecei então a bater pernas pelo planetinha. Vi países mais lindos e mais organizados, sociedades mais cultas e menos corruptas, povos mais laboriosos e mais honestos. Por que raios ficaria então louvando as virtudes do caos em que nasci? O homem é o homem e suas circunstâncias, escreveu Ortega y Gasset. Hoje, dadas minhas circunstâncias – idade, posses, filha, círculo de amigos – o Brasil é para mim o melhor país para viver. Não me queixo. Mas se minha pátria for reduzida ao bairro onde hoje resido, já está de bom tamanho.


Me tornei cidadão do mundo e hoje viveria bem em praticamente todos os países do Ocidente. (Menos nos Estados Unidos, não gosto da cultura deles. Paraguai também não, é claro). Houve época em que, mesmo já não me sentindo muito brasileiro, eu torcia pelo Brasil, queria ver o país deslanchar. Este meu entusiasmo murchou em 2002, quando o país elegeu para a Presidência um analfabeto. E morreu definitivamente em 2006, quando o país reelegeu o analfabeto. Tornei-me egoísta. Me imbuí daquele "egoísmo natural das pedras", do qual falava Fernando Pessoa. Como Candide, vou cuidar de meu jardim. O futuro do país não me interessa mais. Quiseram? Que levem. Com a devida vênia do Apedeuta, vou repetir seu discurso: que "sifu".

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