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Mário Alves, o guerreiro da grande batalha

18.01.2010
 
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Mário Alves, o guerreiro da grande batalha

Otto Filgueiras*

Foi no verão de 1970 que tudo aconteceu. Os dias eram mais longos e as noites demoravam a chegar. Naquele 16 de janeiro os ponteiros do relógio marcavam oito horas da noite e ainda restava uma frestinha de sol no horizonte. As pessoas movimentavam-se preguiçosas nas ruas do Rio de Janeiro, para lá e para cá, como se fossem a lugar nenhum. No meio do povo, um homem determinado fazia a última caminhada de sua vida. Ao sair de casa, no bairro da Abolição, subúrbio carioca, o jornalista Mário Alves sabia do risco e ainda assim não hesitou. Por precaução, ele deixou com sua mulher, Dilma Borges, a pasta que sempre carregava e todos os documentos pessoais. Nem a falsa carteira de identidade ele levou. Dilma ficou também com o gostinho de um beijo carinhoso e um sorriso. Olhos perdidos na distância, a mulher viu seu homem partir em direção ao bairro de Cascadura. Carregava na bagagem apenas a sua coragem.

Naquele dia, quando a escuridão da noite chegou, um gemido ecoou pelas celas do quartel da Polícia do Exército na rua Barão de Mesquita e o trajeto desse caminhante de 46 anos de idade foi finalmente interrompido. Andarilho incansável, Mário Alves perambulava há mais de 30 anos pelo Brasil e pelo mundo pregando a liberdade dos explorados e oprimidos. Um brasileiro revolucionário que dedicou sua vida à luta pelo socialismo. Era o principal dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e foi um dos líderes da rebelião que desafiou a mais cruel das tiranias da história brasileira, a ditadura militar implantada no país pelo golpe de 1964. Moços e velhos, mulheres e crianças guerrearam nos anos rebeldes e Mário Alves foi um dos guerreiros maiores dessa batalha. Veterano nas pelejas de sua gente, ele nunca alterou o rumo e pelas estradas por onde passou deixou um rastro de esperança e de vida.

Suas andanças começaram ainda menino, em Salvador, quando o Brasil vivia nas trevas do Estado Novo, a ditadura que Getúlio Vargas estabeleceu no país em 1937. Já nessa época, Mário lutava pela democracia e com apenas 15 anos de idade escolheu seu próprio destino e ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB). Estudava no Ginásio da Bahia, na avenida Angélica, bem em frente ao Hospital Pró-Matre. A escola continua lá até hoje e na memória dos colegas e professores ficou a marca daquele rapazinho pálido, franzino, quase raquítico. Andava sempre vestido com um uniforme de calça comprida, camisa de mangas longas, gravata preta e emocionava a todos quando discursava contra o nazi-fascismo.

A família

Desde ali, na espreita, o inimigo começou a fazer sua ficha: Mário Alves de Souza Vieira, comunista. Era o quarto filho de uma família de seis irmãos. Sua mãe, Julieta Alves de Souza, era viúva e já tinha as meninas Ondina e Lícia e o menino Augusto, quando casou pela segunda vez com o inspetor de ensino Romualdo Vieira. Primogênito do segundo casamento, Mário nasceu baiano em 14 de junho de 1923, na vilazinha de Sento Sé, comarca de Salinas, polígono das secas, no baixo médio São Francisco. No passado, o lugarejo foi moradia dos índios Sentossés, que viviam tranqüilos numa aldeia na margem direita do velho Chico. Na década de 1920, a vila tinha uns mil habitantes e ainda era cercada por pau d’arco, aroeira, carnaúba, matas nativas dos catitus, tatus, cutias, capivaras e veados. Até ema passeava por ali. Uma maravilha de vida. Durante o dia cantava firme o juriti. À noite, os olhos iluminados dos bichos e o barulho das águas nas corredeiras do rio São Francisco.

Um dia, porém, o pai Romualdo entendeu que as crianças careciam estudar, na capital. Os irmãos Juvêncio e América já tinham nascido, quando os pais carregaram os filhos, os ranchos e partiram para Salvador. A família foi morar no número 90 da Ladeira Fonte das Pedras, pertinho do local onde seria construído anos mais tarde o estádio de futebol Otávio Mangabeira. Família modesta da classe média típica da época, os Alves Vieira encontraram no serviço público uma saída de sobrevivência e recomeçaram as vidas naquela Salvador antiquada de 300 mil habitantes. A cidade não avançava no tempo e girava em torno do que se chama hoje o seu centro histórico. Começava na Península de Itapagipe e terminava no bairro do Rio Vermelho. Foi nessa capital baiana do passado que Mário Alves cresceu, construiu seus sonhos e começou a lutar pelo socialismo.

Ao lado do amigo Jacob Gorender, Mário virou andarilho revolucionário. Gorender era filho de uma família de judeus pobres, que migrara da Ucrânia para o Brasil no início do século XX. Moravam na rua Jogo do Lourenço, no bairro da Saúde, próximos à casa dos Alves. A rebeldia da juventude encarregou-se de entrelaçar as vidas dos dois rapazes. Na mesma trincheira, durante décadas, lutaram o bom combate. Primeiro no movimento estudantil, depois no jornal “Estado da Bahia” e finalmente na batalha maior pelo socialismo. Na juventude, os dois ocupavam o tempo com os estudos, o jornalismo, a atividade política de resistência democrática à ditadura de Vargas e envolviam-se com a música. Mário Alves encantou-se pela música clássica e gostava da arquitetura sonora de Wolfgang Amadeus Mozart. No início imaginava que o compositor de “Reqüiem” era um representante da aristocracia européia. Mais tarde descobriu que Mozart, além de revolucionar a música, também fora simpatizante dosideais da Revolução Francesa.

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