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O nada gera o oco

17.06.2015
 
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Para gáudio de seus autênticos opositores (*), a tentativa enganosa de refundação do Partido dos Trabalhadores, realizada em seu mais recente Congresso ironicamente sediado na tão querida cidade denominada Salvador, não foi além de uma histriônica prédica visando a arrecadar o dízimo de seus filiados. Os evangélicos devem ter ficado maravilhados com mais este passo de teor bíblico dado por um ex-líder sindical que, abandonando sua costumeira arrogância, lançou-se aos pés da cruz que lhe cumpre carregar.

Iraci del Nero da Costa *

Por seu turno, a maior parcela dos militantes participantes do congresso aceitou sem vaias e sem muita atenção não só as palavras adocicadas da presidente da República concernentes ao ajuste fiscal mas também a continuidade da sempre presente dependência do PT com respeito ao PMDB, um pouco fiel aliado cujas reiteradas cobranças representam seu esforço para receber o prometido pagamento por um serviço prestado apenas parcialmente, em doses muito pequenas e com reprimendas das mais variadas ordens.

Como se observa, o enlanguescimento é generalizado, os afiliados ao partido perdem a memória de um passado digno (**), seus tesoureiros perdem o cargo e a liberdade, a presidente perde quilos, o governo perde sua chefe maior, o PT perde o rumo e Luiz Inácio da Silva poderá perder a chance de voltar à presidência em 2018, tudo na mais perfeita desarmonia recheada pelos ecos de uma proposta irrefletida - prontamente abandonada - de volta da CPMF e de um dito incoerente proferido por um ministro ávido por ocupar o papel de presidente efetivo, entregue que foi a um vice cujo partido fez-se, a um só tempo, aliado e opositor do poder central.

O líder direitista desses aliados-opositores foi lembrado no encontro de Salvador com reclamos de "fora Cunha", "oportunista de ocasião" e "sabotador do governo". Certamente pretendendo voar mais alto em 2018 retrucou ele de maneira enérgica. Destarte, após afirmar a jornalistas de "O Estado de S. Paulo" que "dificilmente o PMDB repetirá a aliança com o PT [em 2018]" reafirmou na rede social Twitter esta sua posição com as seguintes palavras: "O PMDB está cansado de ser agredido pelo PT constantemente e é por isso que essa aliança não se repetirá. Talvez tivesse sido melhor que eles aprovassem no congresso o fim da aliança. Não sei se num congresso do PMDB terão a mesma sorte".

Não obstante, em nome de uma precária governabilidade, os congressistas do PT, como avançado acima, resolveram dar seguimento à sua aliança com o PMDB vergando-se, assim, às mais duras posturas de seus indispensáveis aliados.

Quanto à verdadeira oposição...

PSDB? Oposição? Verdadeira?

Bem, fiquemos por aqui.

NOTAS

*Entenda-se por autênticos os eleitores que se deixaram levar pelas palavras de ordem que nortearam a fundação do PT e que foram abandonadas tão logo a sigla chegou ao poder central da República.

**Dos tempos idos restou no texto final do evento, basicamente, a proposta da implementação de impostos sobre grandes fortunas, heranças e lucros e dividendos.

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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