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Latinidade

17.06.2009
 
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Latinidade

Latinidade, por Jorge Lescano (Comentários de Raul Longo)

Interditado às universidades públicas pela ditadura, tive a sorte de nos anos 60 ser apresentado à Rua Sete de Abril, ponto de encontro noturno de artistas e intelectuais marginalizados pelo sistema instaurado desde então e que ainda hoje perdura em nossos meios de produção e divulgação de arte e cultura.

Ali obtive o mesmo ou melhor aprendizado do que poderia me oferecer a academia, já em processo de banimento de seus melhores docentes e esvaziamento do que ainda havia de aproveitável. Dos balcões dos bares da Sete de Abril e Praça Dom José Gaspar, meu curso intensivo se estendia à Vila Buarque, ou então seguíamos para aulas práticas sobre a realidade do povo brasileiro exposta nos becos e botecos do Bexiga, quando o samba ainda era marginal e o bairro não se tornara "da moda", o que só veio a ocorrer duas décadas depois.

De todos e tantos ensinamentos de meus notáveis mestres e mestras, sem dúvida dos mais proveitosos foi o desprezo à fatuidade do academicismo, do intelectualismo vácuo e fútil. Ninguém estava ali para ostentar medalhas e carteirinhas, ninguém estava alí para arrotar saberes inócuos, nem se expor a malabarismos de ridículas empáfias intelectualeiras, hoje tão comuns no real e no virtual.

Loucos, talvez, mas muito sinceros e integros, meus queridos mestres e mestras conseguiram, inclusive, com que eu reafirmasse os valores formados em minha infância proletária, dos quais a escola do ensino secundário insistiu por deformar e deseducar. E assim me forjaram muito melhor do que de mim fariam nas universidades.

Entre tantos bons e saudossos mestres, meu orientador em literatura e filosofia foi Mário Jorge Lescano, um "cabecita negra", como eram chamados em Buenos Aires os descendentes de índios vindos dos interiores. Emigrara de Entre Rios com os pais, em busca de sobrevivência, nos tempos difíceis em que os de traços indígenas tinham de se esconder das forças do ditador Perón, para não serem repatriados às suas províncias de origem. Talvez daí comece a surgir em Lescano a preocupação com a questão do artigo adiante, justificando sua erudição tanto na cultura pre-colombiana das Américas, quanto na européia.

Autodidata, não estou certo se Lescano suplantou o ensino básico. Acredito que não, pois a seriedade, a capacidade de depreensão e avaliação, o apurado senso crítico, o volume de informações e a impressionante capacidade de memorização que possue, certamente não resistiriam aos duvidosos métodos oficiais de ensino imposto nas escolas, daqui ou da Argentina. Métodos piorados ainda mais pelas ditaduras militares, mas já antes bastante limitadores e estou convencido que Lescano não alcançaria os mesmos conhecimentos se, como o fiz até o nível secundário, se deixasse perdendo tempo nos bancos escolares.

Há uns três anos, a caminho da Bahia para matar saudade da Salvador que tanto amei e rever outros amigos perdidos na distância de três décadas, aproveitei para uma parada em São Paulo, onde também não retornara há mais de uma. Ali recebi a difícil notícia do falecimento de Lescano e, quando já de volta ao meu computador, distribui pela internet diversos textos lamentando a perda e condenando os tais meios que, se dizendo de produção cultural, especilizam-se na difusão de nulidades omitindo e marginalizando àqueles que realmente poderiam nos fornecer fundamentos que nos auxiliem na compreensão de nós mesmos, possibilitando-nos oportunidades de evolução de nossa civilização.

Culpei a mim mesmo, na ocasião, por não ter nenhum texto do Lescano com que pudesse exemplificar e, na falta de outros, lancei mão do único que me restara, a apresentação que fizera para meu livro de poesias: A Cabeça de Pinochet, publicado em 1985.

Coincidentemente, já ali é abordada a temática do texto que aqui reproduzo e me foi enviado esta semana pelo próprio Lescano, como anexo a uma msg sem texto.

Levei um bruta susto, pois cético e ateu que sempre foi Lescano (e que Deus assim o preserve!), seria absurdo se dedicar a psicografias internéticas. De fato, morto não está, e é com grande alegria que utilizo o texto abaixo para reparar o mal entendido que ajudei a difundir, expondo aos que antes receberam o falso alarme as razões de meu orgulho pelos conhecimentos que auxiliaram em minha formação.

Acima disso tudo, o faço mais pelo conteúdo das informações sobre as quais Jorge Lescano nos convida a pensar:

LATINIDADE?

© Jorge Lescano

A raça é um conceito zoológico: refere-se ao tipo físico.

Otto Klineberg – As diferenças raciais

Periodicamente entram em circulação termos que, analisados de perto, revelam-se dúbios, quando não desprovidos de significado. Latino, latinidade, estão neste caso.

Segundo a antropologia, nunca houve uma raça latina, apenas língua latina. O espírito de síntese, ou a preguiça mental, acabaram identificando o nome da língua com o tipo racial do povo que a falava. Assim, os romanos passaram a ser latinos.

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