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Jauenses em Mariana contam detalhes da tragédia em MG

16.11.2015
 
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Dois estudantes jauenses que vivem em Mariana (MG) testemunharam na última semana momentos de sofrimento, vividos por quem perdeu tudo no Distrito de Bento Rodrigues, e de apreensão, diante de informações de que outra barragem apresenta rachadura. No dia 5 de novembro, duas barragens que continham água e rejeitos de mineração se romperam, o que provocou a morte de pelo menos sete pessoas e o desaparecimento de outras 18. Até a tarde de ontem, dois corpos aguardavam identificação. Os impactos ambientais são inestimáveis.

Foto: Casal caminha entre escombros do Distrito de Bento Rodrigues: em busca de pertences pessoais

Por João Guilherme D'Arcadia - Jornal Comércio do Jahu

Fotos: António Cruz/Agência Brasil, arquivo Pessoa

O Comércio conversou por telefone com a estudante de serviço social Raquel Donato, 27 anos, e com o de jornalismo Caio Macedo Rodrigues Aniceto, 20 anos. Ambos estudam no campus de Mariana da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Raquel é estagiária da prefeitura e trabalha em um dos quatro Centros de Referência em Assistência Social (Cras) do município. A repartição atuou no cadastro dos moradores que perderam tudo no mar de lama. Ela coletou os dados dos tios de Emanuele Vitória Fernandes, de 5 anos, encontrada morta no dia 10 de novembro.

"A maioria das pessoas ainda não conseguiu lidar com isso, parece não ter 'caído a ficha'. Elas querem entender o que aconteceu e o que farão sem tudo aquilo que perderam", relata.

Superficial

 

Apesar das consequências avassaladoras do rompimento - a lama contaminou o Rio Doce, prejudicou o abastecimento de água em várias cidades e chegou ao Espírito Santo - o perímetro urbano de Mariana passou incólume pela tragédia. O temor agora é com a possibilidade de novo rompimento, sobre a qual se tem poucas informações oficiais.

Caio Aniceto critica justamente o conflito de versões e a cobertura superficial que a imprensa adotou para relatar as causas e as consequências da tragédia.

Ele menciona, por exemplo, que a área não dispunha de sirene de aviso, que foi instalada dois dias após o acidente. Também não havia plano de contingência e nem o cumprimento de parte das dezenas de condições de instalação da barragem.

Por fim, a preocupação em torno do fechamento da mineradora Samarco, que emprega a maior parte da população da cidade, provocou vitimização da empresa. "Todos estão chamando o caso de acidente, mas ninguém coloca a empresa em xeque", afirma. Na noite de sexta, Aniceto enviou um e-mail para a reportagem para relatar que depois da descoberta da fissura na terceira barragem a situação em Mariana era de "insegurança estável".

Em nota oficial, a mineradora afirmou que "está mobilizando todos os esforços necessários para priorizar o atendimento dos atingidos pelo acidente e mitigar os danos ambientais".

"O custo social é maior que o lucro"

Para a ambientalista e economista Amyra El Khalili, as empresas de mineração que atuam no Brasil ainda adotam métodos rudimentares, com danos ambientais altos e com baixo investimento em tecnologia para amenizar as consequências dos rejeitos.

A pesquisadora lembra que o minério é um bem público, tutelado pelo Estado. Após as privatizações, empreendidas no fim da década de 90, perdeu-se o controle sobre os mecanismos de mineração e os efeitos do extrativismo para os Estados que dispõem de jazidas.

"O custo social de minerar se tornou muito maior para o povo do que o lucro que a mineração traz para a sociedade", argumenta.

Amyra critica ainda a negligência nos licenciamentos ambientais e as tentativas de afrouxamento da legislação que rege o setor no Brasil. Do ponto de vista das reservas ambientais, a economista é ainda mais enfática. "Minas não merece virar um buraco. Não dá para contemporizar, a conta negativa sempre sobra para a população", menciona. (JGD)

 


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