Pravda.ru

CPLP » Brasil

Economia tem a ver com felicidade

16.11.2009
 
Pages: 12
Economia tem a ver com felicidade

Por Marcus Eduardo de Oliveira (*)

O lado consumista do ser humano recomenda que a felicidade repouse na aquisição de produtos e serviços diversos, e, de preferência, em grandes quantidades. Somente por esse pormenor já bastaria para analisarmos a economia pelos seus dois lados mais influentes: a oferta e a demanda. Até mesmo porque tudo parece ser uma questão de oferta e demanda; não à toa esse é um dos principais conceitos da economia.

Evidentemente, junto à oferta e demanda, deve-se levar em conta à variável “preço”; condição essa essencial para deslocar (para cima ou para baixo) a quantidade procurada (demanda) em razão da quantidade fornecida (oferta); isso tudo, é claro, num lugar específico chamado “mercado”.

Pois bem. Utilizando a variável “preço” queremos, por sua vez, apenas para sintetizar essa discussão e não torná-la enfadonha, fazer um link com a variável “renda”, que aponta, essa sim, para a real possibilidade de compra ou recusa dos diversos bens e serviços dispostos nos mercados.

Portanto, pensando friamente dessa forma, ou seja, (no ato de consumir), quanto mais se consumir, mais a felicidade aumenta; ainda que seja não apenas sobre um consumo necessário.

Esse consumo excessivo, que vai além das necessidades básicas, encontra “repouso” nas ciências econômicas no conceito “conspícuo”, ou seja, aquele consumo supérfluo, típico do consumidor voraz pronto para alimentar sua volúpia consumista, atendendo, assim, os ditames da oferta. Ao economista Thorstein Veblen (1857-1929) devemos esse conceito desde 1899.

Portanto, uma primeira direção aqui nos é sugerida: se a felicidade repousa no ato de consumir, como querem alguns, basta consumir cada vez mais para ser muito feliz. Afinal, consome-se de tudo (até mesmo coisas sem sentido) e, em geral, em quantidades que agradam muito aos ofertantes.

Desse modo, como a sociedade, em geral, é muito consumista, pressupõe-se, de imediato, que há muita gente feliz por aí. Nesse sentido, a felicidade é igual ao consumo e o consumo (a chave de ouro do capitalismo) abre as portas da felicidade. Certo ou errado? Você decide!

A diversificação da oferta – o poder da demanda

Tamanha é a diversificação da oferta – cuja demanda parece sempre disposta a responder aos estímulos -, que os economistas, além de calcularem a sensibilidade (elasticidade) da demanda e da oferta em relação aos preços, chegam até mesmo a definir certo tipo de mercadoria chamando-a de “mercadoria não rival”. Essa é aquela mercadoria cujo consumo feito por uma pessoa não impede que outra também a consuma, como um passeio pelo parque público nas manhãs de domingo, a leitura em público de um poema, assistir ao filme do momento num cinema lotado ou mesmo no DVD junto aos familiares reunidos em casa.

Pela pura lógica do consumo, o poder (o falso poder) parece então residir, de fato, nas mãos dos consumidores. John K. Galbraith (1908-2006), um dos economistas mais influentes das últimas gerações, a esse respeito em The Economics of Innocent Fraud: Truth For Our Time diz que “O poder de última instância é o do consumidor. A escolha do consumidor dá forma à curva de demanda. (...) A curva de demanda confere autoridade ao consumidor”.

Parece ser consenso que a teoria econômica, desde seus primeiros passos enquanto ciência foi esboçada dessa forma, sempre olhando o consumidor como figura-alvo. A prática do consumo, não por acaso, é o determinante do vigor econômico. E vigor econômico é o que todos queremos (pessoas, empresas, governo, sociedade em geral), não é mesmo?

A economista Diane Coyle em Sexo, Drogas e Economia (leitura imperdível para quem gosta de ler economia fora do padrão acadêmico dos manuais) corrobora com essa afirmação apontando que “o vigor econômico tem a ver com consumo, não com produção”. Nós acrescentamos que o consumo tem a ver com trabalho, que tem a ver com renda... e, quanto mais renda, mais consumo, mais vigor econômico. Entendemos, definitivamente, que a variável “consumo” é a responsável por puxar qualquer economia para cima. Aqueles que querem que a felicidade esteja correlacionada ao consumo certamente acrescentariam que, dessa forma, pela lógica consumista, alargar-se-á a oportunidade de alcançar a felicidade.

Todavia, essa parece ser a estrutura econômica balizada pelo consumo. Enganam-se aqueles que pensam que a base do capitalismo é a produção. A base (o fundamento) desse sistema é o consumo. Não por acaso alguém já disse que acabar com os consumidores é matar a galinha dos ovos de ouro do capitalismo.

Ademais, feitas essas incursões, convém retomarmos à idéia de felicidade, pois há algo ainda aqui que precisa ser melhor esclarecido.

Será mesmo que para alcançar a dita cuja da felicidade basta apenas consumir, consumir e consumir? Será que essa tal felicidade pode mesmo ser comprada qual fosse uma mercadoria disposta em alguma prateleira?

Maximização da utilidade esperada

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular