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O pão que o diabo amassou

16.04.2014
 
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Desempregados e subempregados, maioria jovens, saem em busca de qualquer teto para ter onde morar


Entre centenas de imagens difundidas na coletânea de um chocante reality show -  a desocupação dos terrenos da OI no Engenho Novo, Zona Norte do Rio de Janeiro -  uma me tocou mais profundamente: um negro de aproximadamente 26 anos com dois filhos no colo. As crianças choravam e ele olhava na direção do nada, como se sem saber o que seria de sua vida e de seus filhos dali por diante. 

 Aquela foto me remetia para o âmago de uma crise social de grande potencial explosivo.  Não me refiro especificamente ao chamado déficit habitacional: por trás dessas invasões de fugitivos de aluguéis impagáveis com salários mínimos há uma realidade muito mais grave, que a cabeça vazia dos governantes não consegue alcançar. A crise estrutural, mãe de todas as tragédias sociais, é a escassez de emprego, curtida pela falta de instrução profissional e agravada pela otimização tecnológica que elimina milhões de postos de trabalho sem alternativas para os que são dispensados.

 Aquele pai jovem deve ser um dos milhares de desempregados de uma região da cidade que já foi o maior celeiro de empregos industriais da cidade. Faz parte de uma comunidade de maridos e companheiros "fantasmas", que vivem às custas das companheiras, enquanto ainda há vagas para domésticas e diaristas.   São uma bizarra maioria de adultos nas favelas das antigas regiões industriais, cujas empresas fecharam ou se mudaram para áreas onde se instalaram com plantel reduzido.

  Favelas que surgiram exatamente para facilitar a vida dos trabalhadores, que iam morar perto do emprego: a maior delas, o Jacarezinho, acolhia a mão de obra do maior parque metalúrgico e fazia parede com fábricas como a General Electric, que chegou a empregar 7 mil trabalhadores na década de 70, com uma porta de acesso direto para a comunidade.  

 Depois de muitas crises, em que foi se desfazendo progressivamente das linhas de montagem, a multinacional fechou suas portas e foi fabricar lâmpadas na China para vender no Brasil com maiores ganhos.  São  os galpões das indústrias desativadas nos bairros de Maria da Graça, Jacaré, Engenho Novo, Cachambi, Benfica e adjacências que passaram a ser visados pelos desempregados e subempregados das novas gerações, que cresceram já sem perspectivas principalmente pela baixa escolaridade e já não tinham mais espaços em suas comunidades, mesmo nas beiras dos rios, como acontece na chamada Favela da Xuxa, ali junto ao Largo do Jacaré.

Nessas áreas em que pelo menos 300 empresas grandes e médias fecharam as portas, dezenas de galpões foram invadidos ao longo dos últimos vinte anos. Em alguns casos, como na CCPL, na confluência da Dom Helder Câmara com Leopoldo Bulhões, houve reintegração de posse. Mas na maioria, não. Essas invasões de galpões e prédios desativados não acontecem só nessa região, muito menos só no Rio de Janeiro.

Refletem a prevalência de interesses econômicos setoriais, como a construção civil, que se valem de velhos expedientes e antigas alegações para induzirem os governos a entenderem a crise como meramente habitacional. Por que, seguindo essa percepção, são gastos bilhões de reais em construções mal acabadas e localizadas nos cafundós do Judas, as quais se destinam apenas a carrear verbas públicas para os empreiteiros, como disse muito bem Sérgio Magalhães, presidente do IAB e ex-secretário de Desenvolvimento Social do RJ,  cargo que também ocupei por duas vezes.

Essa política acaba favorecendo por vias transversas as empresas de ônibus, que vendem hoje 9 milhões de passagens por dia. Isso sem falar no caótico transporte ferroviário.< /DIV>

Pedro Porfírio


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