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Brasil: Antes tarde do que nunca

15.08.2006
 
Brasil: Antes tarde do que nunca

Milton Lourenço (*)

Só agora, ao final do mandato do atual governo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, anunciou que pretende empreender uma aproximação comercial com os EUA. Como se sabe, com um Produto Interno Bruto (PIB) ao redor de US$ 12,4 trilhões, os EUA constituem o maior mercado do planeta, responsável por 16% das exportações mundiais, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Não se sabe por que o ministro demorou tanto a descobrir o óbvio. Nem se o anúncio resultou de alguma aferição que lhe tenha permitido traçar planos para o novo mandato presidencial que começa em janeiro de 2007. Até porque o ministro, antes mais afinado com um partido de oposição ao atual governo, nem sempre tem encontrado apoio entre os seus pares. Pelo contrário. Não foram poucas as ocasiões em que trocou farpas com integrantes de outros ministérios. De qualquer modo, antes tarde do que nunca.

É possível que a mudança de orientação tenha partido de uma conclusão óbvia, depois que a orientação antiamericana do Itamaraty chegou a ponto de levar o presidente brasileiro a cometer a gafe de comemorar em público o fracasso das negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Mas agora, com o malogro nas negociações multilaterais no âmbito da OMC, parece que ao governo não resta outra saída, a não ser batalhar por maior acesso ao bilionário mercado norte-americano.

Afinal, os números não mentem. Sendo hoje o 15º maior exportador para os EUA, o Brasil começa a perder espaço para a China naquele mercado, a exemplo do que já ocorre na América Latina, inclusive na Argentina, nosso maior parceiro no Mercosul. De nada adianta o MDIC procurar levantar uma cortina de fumaça, anunciando que os latino-americanos se tornaram os maiores compradores do País, absorvendo cerca de 25% de nossas exportações, acima de EUA e União Européia. O que dói é ver o Brasil perder espaço num mercado extremamente rico como o norte-americano.

Em 2005, o Brasil exportou para os EUA US$ 24,4 bilhões, o que representa apenas um décimo do total que os chineses venderam. Já os chineses que, em 1985, venderam apenas US$ 7 bilhões para os EUA, exportaram no ano passado US$ 243 bilhões. Ninguém pode defender de maneira irrealista que o Brasil tente competir com o dragão chinês, mas também não pode chegar ao exagero de ver o mercado norte-americano como supérfluo.

O resultado dessa política comercial vesga já se reflete nos números dos últimos anos. Em 2004, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações brasileiras para o mercado norte-americano haviam crescido 20%, mas, no ano passado, essa taxa caiu para 10%. Pior ainda: nos primeiros seis meses de 2006, a taxa despencou para 4,3%. E isso ocorreu exatamente num momento em que as importações feitas pelos EUA cresceram 43,6%. Quer dizer: o País começa a pagar caro pela ausência de uma estratégia clara de conquista do mercado norte-americano.

Não bastasse isso, a China já supera o Brasil como maior fornecedor de produtos manufaturados para os países da América Latina. Em 1990, os chineses eram responsáveis apenas por 0,7% das importações do mercado latino-americano, mas, em 2004, já haviam abocanhado 7,8%. Não há dados disponíveis para 2005, mas não é difícil imaginar que tenham evoluído para mais de 10%. O Brasil também vem aumentando a sua participação nesse mercado, mas o seu crescimento perde ímpeto. De 5,3% em 1990, o País foi responsável por 6,5% das importações das nações latino-americanas em 2004, segundo os últimos dados disponibilizados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Sejamos claros: depois do fracasso da Alca e da Rodada Doha, a competitividade brasileira, sem a proteção de acordos comerciais com grandes blocos ou com nações que, de fato, importam (nos dois sentidos) no contexto mundial, começa a ruir. O único acordo comercial de que dispomos, o Mercosul, não tem sido capaz sequer de impedir o avanço chinês num mercado que, praticamente, era cativo do Brasil, o de calçados na Argentina.

Depois que o muy amigo governo argentino limitou as importações de calçados brasileiros a uma cota anual de 13 milhões de pares nos dois últimos anos, os chineses entraram com tudo, apesar da tarifa de 35% aplicada pelo Mercosul aos países de fora do bloco. Assim, o Brasil viu a sua participação cair de 90% para 50% no mercado argentino de calçados.

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(*) Milton Lourenço é diretor-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP (www.fiorde.com.br). E-mail: fiorde@fiorde.com.br


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