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Editorial: Isso não é Brasil!

15.05.2006
 
Editorial: Isso não é Brasil!

Como um não brasileiro, reservo o direito de comentar os acontecimentos do Brasil com respeito e cuidado. Como um visitante habitual ao Brasil, e director dum jornal que tem uma página diária para o Brasil, sendo casado com uma cidadã brasileira e tendo casa no Brasil, reservo o direito de exprimir minha opinião não completamente desinteressada.

A imagem que o Brasil está a projectar para o exterior nestes últimos dias é de uma nação tomada por um bando de gangsters, que vive uma situação de extrema violência e caos social e que providencia um destino turístico só para os habitantes de prisões ou hospitais psiquiátricos.

Não é esse o Brasil que eu conheço e que habitualmente defendo, dizendo aos medrosos cá na Europa que não é bem assim, que os brasileiros falam muito da violência, até têm programas especiais na TV que falam de crime mas que de facto nunca vi nada. E não vi. Já lá vão cinco estadias em sete cidades e já dezenas de milhares de quilómetros foram percorridos e nunca senti um mínimo de insegurança.

O Brasil que está a ser construído é um país que finalmente assume a sua promessa hoje, e não amanhã, como dizia Jorge Amado. Se assume como interveniente importante no palco mundial, se assume como membro prezado da comunidade internacional. As pessoas gostam do Brasil, as pessoas gostam dos brasileiros. O país apresenta taxas de crescimento económico recordes, idem as taxas de emprego, idem as taxas de produtividade industrial enquanto as taxas de inflação caem mensalmente. Brasil está numa boa, na crista da onda. É esse o Brasil que deveria estar nos ecrãs da televisão.

Mas qual será a verdade? Filtrando a notícia que um amigo e um cunhado foram assaltados à mão armada em Fortaleza nos últimos quinze dias e que o irmão e sobrinho de uma cunhada foram assassinados a tiro na mesma cidade, que até há pouco tempo registava taxas de criminalidade iguais a uma cidade provinciana na Europa, e filtrando a pouca vergonha que assistimos na televisão, fico cada vez mais teimosamente feliz com a imagem do Brasil que eu conheço e ouso a proferir umas sugestões.

Primeiro, há que encarar esses bandidos por aquilo que são – uns traidores, que denigrem a imagem do país, que destroem o bom trabalho que está sendo feito, simplesmente porque são preguiçosos demais para trabalhar e preferem mexer no seio de boas famílias com drogas, acabando com as vidas das pessoas. O argumento “pobreza” é um insulto aos milhões de pessoas que fazem pesca artesanal para colocar comida na mesa, que trabalham dois ou três turnos para educar os filhos.

De resto, só com muito trabalho e vontade de fazer algo é que se poderá retirar o grande número de armas de circulação, com a questão da droga, a mesma coisa. Há que abordar o problema começando com os produtores e atacando toda a linha de fornecimento, concentrando-se também nos grandes traficantes e não só os pequenos passadores.

É inaceitável que o Brasil esteja a projectar essa imagem para o exterior exatamente agora, no início da época das férias. Cada acção merece uma reacção.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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