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A febre da imprensa brasileira

15.01.2008
 
Pages: 12
A febre da imprensa brasileira

 
É perfeitamente possível dizer que há no Brasil, atualmente, um surto de febre amarela na imprensa brasileira. Como demonstro no caso de um importante jornal paulista, felizmente (ou infelizmente), este “surto” se restringe à imprensa brasileira e a alguns jornalistas brasileiros. Colocada sob a óptica de um microscópio, a imprensa de grande circulação parece conter em sua genética um arranjo que a destina a provocar o medo e a desinformação em casos de crises de saúde pública e, mais especificamente, no recente caso das notificações de febre amarela no Brasil.


Na capa do jornal Folha de S. Paulo da última segunda-feira ( 14/1/2008 ), ao melhor estilo Folha, um ministro de Estado “nega” - colocado na primeira linha (veja na imagem), em “Ministro vai à TV e nega” - uma “epidemia” de febre amarela – colocado como frase na segunda linha: “epidemia de febre amarela”. Acima, uma imagem de desabrigados da forte chuva que atingiu o litoral paulista, que casa à primeira vista com os dizeres “Ministro vai à TV e nega epidemia de febre amarela”. Não usarei nenhuma habilidade lingüística para demonstrar como esses elementos gráficos foram importantes na construção da capa - basta acompanhar o conteúdo que o jornal vem insistindo em dar preferência nos últimos dias.


O tom da reportagem tenta claramente desmentir o ministro, como se percebe logo no primeiro parágrafo: “No dia em que o número de notificações de casos suspeitos de febre amarela subiu de 15 para 24, o ministro José Gomes Temporão (Saúde) foi à TV fazer um pronunciamento em cadeia nacional para dizer que “não existe risco de epidemia”. O ministério confirmou que, dos 24 casos suspeitos notificados pelas secretarias estaduais de saúde, 5 foram descartados e outros 2, confirmados. ”


As aspas em “não existe risco de epidemia” é contraposta à relação que fazem ao “dia em que o número de notificações de casos suspeitos (...) subiu de 15 para 24”.


Depois, continua com a birra com o governo dando um espaço de destaque a um “renomado infectologista da USP” que disse que “(...) ninguém pode dizer que não existe risco [de febre amarela urbana] quando doentes vêm de áreas silvestres para lugares com Aedes”, enquanto deixa no canto da página uma notinha que confirma exatamente o que sustenta o Ministério da Saúde: “Os casos de febre amarela confirmados até agora não são motivo para alarme na opinião de infectologistas do Incor, da Unicamp e do Fleury. Para eles, a preocupação deve mesmo ser apenas de pessoas que vão viajar para regiões afetadas.” David Uip, que também é infectologista e diretor-executivo do InCor (Instituto do Coração) – e nem por isso mereceu uma entrevista – tocou na ferida: “A gente precisa ter a responsabilidade de baixar a bola agora e não causar pânico”.


Exatamente o que a Folha de S. Paulo, de modo irresponsável, não fez nesta segunda (14/1). E outros dois igualmente renomados médicos tinham a mesma opinião. Se ouvissem mais, teriam mais opiniões semelhantes.


Trocando em miúdos, o jornal Folha de S. Paulo, abrindo mão do jornalismo sério e que serve ao cidadão, de modo que tome a melhor atitude no cotidiano, está de birra com o governo, como lhe é comum. Nesse caso, está dando sua pequena contribuição ao caos na saúde pública.


Outro exemplo foi a entrevista com Drauzio Varella na mesma edição (14/1). Varella é uma excelente fonte, pois além de conhecedor do assunto (é médico cancerologista), foi um dos dois sobreviventes em 2004 quando três pacientes morreram.


O repórter começa a birra: “Dá para falar em surto?”
Varella é claro e diz que não, não dá. “O que acontece é um fenômeno de imprensa. E isso é clássico na história das epidemias. Toda vez que surge uma, os governos negam. E a imprensa vai atrás, no rastro da doença. Estamos vivendo uma situação normal.”
O repórter insiste na birra: “O senhor não vê esses casos como um alerta?”


Varella tenta ser mais objetivo: “Não vejo mesmo”. E dá uma dimensão do real problema que trazem jornais como a Folha de S. Paulo: “O problema dessas fases de pânico é que muita gente que não precisa vai tomar a vacina. O sujeito está em São Paulo e vai ao Guarujá e quer se vacinar. Aí cria-se um problema social, engrossam-se as filas. E o sujeito que precisa não vai tomar. Eu acho até que essa preocupação com a febre amarela silvestre vai aumentar o número de casos porque os médicos vão fazer mais o diagnóstico.”
O repórter, acredite, insiste na birra: “Então há subnotificação...”
Varella tenta ser ainda mais claro: “Fui cuidado por médicos da melhor competência, todos professores da USP, gente com muita experiência. Nenhum deles tinha visto sequer um caso de febre amarela.”


Finalmente o repórter muda de assunto. Ao responder se não daria pra erradicar a febre amarela, ele ironiza: “É impossível. Só se se puser fogo em todas as florestas, matar todos os macacos.” Sobre a vacinação em massa, que a imprensa insiste em colocar em questão, juntamente com o “renomado” infectologista da USP, Varella sentencia: “Está errado. Não é a medida mais inteligente.”

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