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Jorge Antunes: Porque estou ingressando no MES

15.01.2007
 
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Jorge Antunes: Porque estou ingressando no MES

Por Jorge Antunes. JA é professor emérito da UNB e desempenha um papel importantíssimo na cultura nacional, no campo da música erudita moderna. Entre as suas obras mais importantes figura a Ópera "OLGA", homenagem à militante comunista Olga Benário, recentemente apresentada em SP.


Estamos saindo de um processo eleitoral, que se constituiu como importante experiência para o desabrochar do PSOL, com vistas à construção de um futuro partido de massas. Poucos mandatos parlamentares conquistamos. Mas estes poucos mandatos fortalecerão as posiçõs legais de que precisamos para criação de pontos de apoio que se subordinarão à luta das massas e, também, a nortearão.


Essa nossa vitória garantirá espaços na tribuna do parlamento, para denunciar o regime e divulgar as lutas do povo. O exemplo nosso vai, certamente, ficar marcado na memória coletiva: a eleição burguesa é um jogo de cartas marcadas, mas as armas legais do inimigo podem ser usadas como armas de denúncia e conscientização política.


Uma das denúncias necessárias é aquela que aponta para a farsa do regime democrático-buguês. As massas se vêem perplexas frente à contradição da falta de democracia. Essa perplexidade intuitiva deve ser pedagogicamente esclarecida, através de ações diretas de nossa militância e de posicionamentos de nossas lideranças. A ditadura dos grandes empresários, que controlam os meios de comunicação e a máquina do Estado, é avassaladora.


Onde está essa farsa democrática de que falamos acima? No Brasil?


Ora, ela está por toda parte. Não é só aqui que o povo tem a ilusão de que pode mudar sua vida através do voto. A dominação imperialista e capitalista está aqui, acobertada pelo governo neoliberal de Lula, mas está também na Argentina, no México, na Bolívia, no Perú, no Chile, nas Américas, na Europa, na Ásia, no Oriente Médio, enfim, por toda parte de nosso planeta. Em alguns desses lugares, por vezes as eleições garantem importantes espaços para a esquerda e para a luta antiimperialista, mas a reação capitalista está sempre à espreita, ameaçadora, apoiada pelo poderio econômico que não respeita a auto-determinação dos povos.


Mas nesses mesmos lugares que os tentáculos do imperialismo alcançam, existem forças socialistas organizadas que precisam se integrar e se somarem em uma luta internacional conjunta. No Brasil e, afortunadamente no PSOL, existe uma organização preocupada e atuante justamente neste sentido: a construção da resistência popular, com o agrupamento internacional dos socialistas. Este é o MES, Movimento Esquerda Socialista.


Vejo-me totalmente identificado com a ideologia, as estratégias, as avaliações e a luta do MES. Uma das figuras proeminentes desta corrente, a deputada Luciana Genro, com campanha modesta em recursos foi a mais votada de Porto Alegre. Sua trajetória de honradez e coerência política vem se revelando modelo de luta sempre articulada com os movimentos sociais.


Documento elaborado recentemente pelos companheiros do MES da Bahia incluia frase que me tocou profundamente: "Somos parte da construção de um futuro possível, em que a arte não será privilégio de poucos, o trabalho se converterá em uma atividade sem exploração, e a vida se reproduzirá sobre a terra preservada, em vez da miséria, do medo e da destruição."


Como artista e ecologista, meu âmago vibrou ao ler esses belos princípios que reconstroem a utopia que não morreu. Fui candidato a deputado distrital em Brasília e, na luta diária, meu lema era: "Cultura de todos para todos". A arte que "não será privilégio de poucos" é minha permanente pregação de compositor engajado que nunca se encerra em torre de marfim. Esse foi o princípio que me norteou ao escrever a quase totalidade de minhas obras: a ópera Olga, baseada na vida de Olga Benario; a Sinfonia das Buzinas, para a campanha das Diretas; a Canção da Paz; a canção Cabra da Peste; obras para Coro; o Hino nacional alternativo; a Sinfonia em cinco movimentos; as obras de música eletroacústica; etc. O mesmo princípio também norteou minha atividade docente que já se estende por mais de trinta anos.


A cultura e a arte, em geral, são atividades essenciais para o processo da vida cidadã, para a socialização e para a conscientização política. Vivi, quando militante do PT, situações constrangedoras no debate interno. Militantes e dirigentes discriminavam a chamada música erudita, classificando-a como arte das elites. O Ministro da Cultura do governo Lula vem, há quatro anos, implementando a política da monocultura, cujos princípios muito se assemelham àqueles do stalinismo. Comprometido com as multinacionais do disco, o ministro se submete aos ditames da moda e da arte comercial de fácil consumo. Não foi por outra razão que a música erudita brasileira foi discriminada no Ano do Brasil na França, para surpresa e frustração dos próprios franceses.

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