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O Big Bang do Brasil

14.04.2016
 
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Em 2011 a imprensa brasileira festejou efusivamente o lançamento do projeto do grande alquimista político brasileiro identificado pela sigla FHC. Ali se apresentava o PdO ("Papel da Oposição")que condensava uma fórmula química que, na compreensão subjetiva da mídia e do autor, consistia em elemento ativo da direta brasileira quando na oposição política.

por Raul Longo

Se lido através de mínimo senso democrático, o PdO evidencia-se claro esquema de promoção de golpe de estado através de terrorismo sócio-político-cultural.  

Pode causar algum mal estar e aparentar exagero o emprego da palavra "terrorismo", mas o autor elencou com tanta tranquilidade e franqueza todos os elementos e componentes necessários para promoção de comoção social, com objetivos de manipulação de consciência de massas e desestabilização política como meio de ascensão ao poder por condicionamento de eleitores, que se pode dizer que o fez com a frieza de um Ali Químico, aquele que com Sadam Hussein conspirou a queda do então presidente do Iraque, Al -Bakr.

No PdO em momento algum FHC considerou desenvolvimento de projetos e propostas administrativas de interesse público ou medidas republicanas para solução dos problemas do país que presidiu por dois mandatos. Em todos os parágrafos do longo texto detalhou minuciosamente métodos e práticas há muito desqualificadas e execradas pelos sistemas democráticos de todo o mundo.

Métodos resgatados dos momentos de pior memória da história política universal, como o 18 Brumário bonapartista, recomendando cooptação de "jovens da periferia" sem qualquer alusão a donas de casa ou trabalhadores.

Outro foi a clara e direta alusão a propaganda nazista baseada em repetição da mentira, numa analogia com a publicitária repetição do slogan "beba Coca Cola".

A convocação se revestia de tanto e total niilismo que, afora os mais inconsequentes analistas da mídia brasileira, ninguém o levou a sério. No entanto ali se expunha o desenho esquemático de uma bomba político-social que em junho de 2013, três meses após as pesquisas de opinião pública apontarem aprovação recorde para o governo Dilma, foi lançada às ruas do país com o poético nome de Jornadas de Junho. Na verdade, era o explosivo TMD -Tumulto do Movimento Difuso.

Como se sabe, a TNT, abreviação de Trinitrotolueno, trata-se de mistura de elementos como amatol, nitrato de amônia e nitroglicerina. Mas a pólvora ainda se faz necessária para o pavio que conduz o calor do fogo para a reação do explosivo.

À inconsistência das reivindicações e manifesta falta de consciência política dos adolescentes utilizados como massa de manobra, a mídia acorreu na tentativa de emprestar algum sentido à festa, batizando-a de Movimento Difuso. Era a pólvora do pavio da bomba armada conforme instruções do PdO de FHC.

Apesar do minucioso detalhamento da composição com que se esperava explodir os muros dos quartéis para interferência das Forças Armadas, apelativamente convidadas em frases no idioma inglês, dessa vez acabou não ocorrendo de as armas se voltarem contra a democracia. E como o PdO não demonstrou nenhuma intenção de apresentar qualquer proposta de governo, a bomba acabou dando chabu nas eleições de 2014, mas não sem antes chamuscar os próprios construtores e promotores do TMD como quando o temido BB - Black Blocs, os citados "jovens de periferia", acabou explodindo na fachada da sede de um dos mais importantes artífices da bomba: o goebbeliano Sistema Globo. E lamentavelmente um dos rojões dos BB causou a morte de um colega de Ricardo Boechat, que pela BAND se destacou como dos mais exaltados estimuladores do napoleônico lumpemproletariado.

A violência sem controle acabou provocando questionamentos nos próprios manifestantes e pelas redes sociais muitos se reconheceram inocentemente utilizados. 

O pior resultado foram os benéficos das explosões ao que se pretendeu como alvo. No caso das reivindicações referentes ao atendimento público à saúde, por exemplo, o resultado foi a desobstrução do programa MM - Mais Médicos, bloqueado pelo Congresso desde 2010.

A questão da mobilidade urbana, uma responsabilidade dos governos estaduais que, apesar da ineficiência, não admitiam interferência federal, foi cedida às respostas do governo Dilma às reivindicações mais concretas. Cidades como o Rio de Janeiro e tantas outras de médio e grande porte passaram a receber investimentos do PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal - e contam hoje com sistemas de transporte coletivo bem mais eficientes. O mesmo ocorreu na Cidade de São Paulo, sob a administração do prefeito petista Fernando Haddad.

O mais grave dos efeitos reversos foi a retomada de proposta apresentada desde o governo Lula, sobre a qual se sentavam os golpistas. Sacudidos pelas explosões dos tumultos, não tiveram outro jeito senão o de sair de cima do projeto de legislação da corrupção como Crime Hediondo. Enfim, apesar de alvo, foi o governo quem deu ao Movimento Difuso direção e objetividade.

Houve tempos em que o MP - Ministério Público - era um verdadeiro paiol de BCEs - Bombas de Corrupção Engavetadas. Naqueles tempos a PF - Polícia Federal - era neutralizada através dos reagentes PVG - Propinas para Vista Grossa - e ITCs - Impunidade e Tolerância a Contrabandos de armas, drogas, órgãos humanos, crianças, escravas sexuais e similares.

A confiança na eficiência do planejamento do PdO e nos poderes explosivos da TMD projetou em seus promotores e entusiastas a impressão de terem sido ultrajados pela vontade eleitoral da maioria do povo brasileiro expressa nas urnas de 2014, e cinco meses depois voltaram às ruas para invalidá-la. Algo considerado anormal em nações onde o papel político das oposições consiste em criticar à situação apresentando alternativas a serem escolhidas, ou não, pela maioria dos eleitores. Se assim não ocorre no Brasil é porque algo impossibilita à oposição o cumprimento de papel político democrático, limitando-se à produção de bombas golpistas tal como assumido no PdO pelo mago FHC que não se desestimulou pelo chabu da primeira BBB - Big Bang Brasil.

Muito pelo contrário, o grande mestre da história do golpismo político brasileiro teve percepção internacional e através de sua experiência nacional juntou novos elementos químicos de muito maior poder explosivo, criando a TIO, a bomba do Tumulto pela Ignorância e Ódio. Dessa vez, além da aglutinação e manipulação de massas, providenciou bem mais do que naufrágio de plataforma marítima para criar uma Petrobrax. O magno bruxo entendeu que há todo um Brasix a disposição, se o país for rachado por um grande BBB.

Mas sobre o BBB 2 há muitos detalhes que não ficam apenas no resgate de investigadas e treinvestigadas, julgadas e trejulgadas, exploradas e trexploradas mortes de Celso Daniel ou Mensalão. Esses são apenas o tiro de misericórdia se não forem somente espocares para encobrir o assassinato do policial Lucas Arcanjo ou a impunidade de Eduardo Azeredo.

Além disso, a BBB 2 foi traiçoeiramente surrupiada do magnânimo tucano, logrado pelo PMDB de Temer através de Eduardo Cunha, resultando na procriação da BBB 3. Mais um Big Bang Brasil que resulta em povo polarizado, com sérios riscos de ser pulverizado.

Vejamos se o cronista terá o talento e a criatividade de um Garcia Marques para demonstrar o que há de realidade sob tantas plumas de abutres dos poderes brasileiros e briosos paetês da mídia que cose fantásticas fantasias sobre bombas a explodir a consciência popular com muito realismo.

Ferino e contundente realismo que não será esquecido por toda nossa história, mas do qual o cronista garante aos eventuais leitores de possíveis futuras digressões sobre as BBB2, BBB3 e, quiçá, BBB4, que não se debruçara em previsões de explosões a serem festejadas, como creem alguns, ou lamentadas como presumem outros.

Bombas são imprevisíveis e entre mortos e feridos pode não se salvar ninguém.  

 

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

 


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