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A ética, a política, o PT e o PSDB

14.03.2017
 
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A ética é uma questão pessoal definida por uma determinada época histórica. Certos comportamentos que no passado eram considerados éticos, hoje não são mais. No futuro, novos valores vão balizar o comportamento das pessoas. Quem sabe, daqui a poucos anos, não separar o lixo, seja considerado um comportamento tão antiético como é hoje aceitar uma propina para facilitar determinado negócio.

As instituições políticas não são regidas por estes valores pessoais. Um partido político tem por objetivo conquistar o poder e nele permanecer a maior parte do tempo possível. Como ele é composto por pessoas, muitas delas serão éticas, outras não, de acordo com os valores da época. E, elas estarão tanto no partido A, quando no partido B.

O que deve ser avaliado na questão dos partidos, diferentemente da avaliação das pessoas, é a quem estes partidos, o A e o B, estão representando.  Quais interesses eles servem.

Tomamos, por exemplo, o PT e PSDB, a quem eles servem? Alguém disse e talvez tenha razão, que eles são muito parecidos, na medida em que são ramos nascidos da democracia social européia.

Admitindo este tronco comum, seria preciso pensar no que é, ou melhor, do que foi a democracia social na Europa. Simplificando, diríamos que foi uma concessão da burguesia dominante, dentro do capitalismo ao crescente movimento operário na luta por conquistas sociais. Usando o surrado ditado, foi uma maneira de dar os anéis para salvar os dedos.

Marx disse no seu famoso manifesto que o comunismo era um fantasma que assombrava a Europa. Para exorcizar este fantasma, a burguesia aceitou uma série de reivindicações operárias, desde o limite nos horários de trabalho, às férias remuneradas, à erradicação do trabalho infantil, à igualdade de direitos entre homens e mulheres, até a introdução do sufrágio universal, onde cada pessoa seria um voto.

A partir de 1917, com a vitória da Revolução Soviética, as concessões se ampliaram com o temor da burguesia de que o exemplo russo pudesse contaminar as massas trabalhadoras do resto da Europa. De conquista em conquista, os trabalhadores chegaram até o chamado Estado do Bem Estar Social, que a nova crise geral do capitalismo está jogando hoje para a lata do lixo.

O que a ver tudo isso com os herdeiros tropicais da social democracia, o PT e PSDB?  Os dois representam mais um remendo na já desgastadas veste capitalista. Mas, para os milhões de brasileiros que vivem do seu trabalho, estes dois remendos têm significados muito diferentes.

 Nenhum dos dois vai nos livrar do jugo capitalista, mas o projeto do PT, ao contrário do PSDB, vai permitir que milhões de pessoas vivam em condições mais humanas, sejam mais saudáveis, que tenham acesso aos bens de consumo, que se instruam e possam chegar através da educação à percepção de que hoje são instrumentos do jogo político, mas que amanhã poderão vir ser sujeitos desse jogo.

O projeto do PSDB, objetivamente visa retornar a um modelo de dependência política e econômica aos interesses norte-americanos. Embora talvez não possam dizer isso com todas as letras, os formuladores dessa política neoliberal acreditam que abandonando a solidariedade com os países africanos e latino-americanos e nos entregando de braços abertos ao ditado de Washington, seremos mais felizes. Aliás, esta não é uma idéia nova. Juraci Magalhães, um precursor desse tipo de pensamento, já disse há muitos anos atrás: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

Para o Brasil que ele representava e que hoje é encarnado por Aécio Neves, Alckmin e FHC e seus sócios, talvez seja bom mesmo. Para o restante da população não.

O que está por trás da adesão aos interesses norte-americanos não fica para o Brasil apenas na troca de afagos, antes reservados para Bolívia, Equador e Cuba, por um lugar na mesa dos ricos. Esta nova política adesista significa basicamente desistir dos sonhos de desenvolvimento autônomo, de privatizações em áreas fundamentais, como a do petróleo e de arrocho salarial.

É preciso que as forças de oposição ao governo Temer superem suas divergências quanto a melhor estratégia política a seguir e se unam nos pontos que possam ser comuns, antes que seja tarde demais.

.Em 1964, se falava na tibieza do governo Jango e de que seus avanços propostos eram pequenos e enganadores. Naquela ocasião, os que poderiam defender aquele governo, que com todas duas fraquezas, tinha uma proposta reformista, também foram incapazes de se organizar em torno de um programa comum

 Aí veio o golpe dos militares. Todas as conquistas foram perdidas e vinte anos depois foi preciso começar tudo de novo. Nossas maiores lideranças desapareceram e só sobraram os Tancredos, os Sarneys, os Ulysses e os Simons para liderar o recomeço.

E por que não se falou até agora no PMDB, que afinal, nominalmente ao menos, é a cara do Governo Temer ?

Porque até aqui se discutiu ideologias e o PMDB, com todo o respeito por alguns de seus membros, no passado e até mesmo no presente, só pensa em fisiologia.

Marino Boeira  jornalista, formado em História pela UFRGS


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