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Jacarezinho: Execuções

14.01.2008
 
Pages: 12
Jacarezinho: Execuções

Na última quinta-feira, 10 de janeiro, uma ação policial na favela do Jacarezinho levou à morte de 6 pessoas (7, segundo a polícia), sendo uma delas Wesley Damião da Silva Saturnino Barreto, de 3 anos. No dia seguinte, logo pela manhã, a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência esteve na comunidade ouvindo depoimentos e vendo o local onde aconteceram três das mortes, inclusive a do pequeno Wesley. Segue o relato do que ouvimos e vimos.

Na última quinta-feira, 10 de janeiro, uma ação policial na favela do Jacarezinho levou à morte de 6 pessoas (7, segundo a polícia), sendo uma delas Wesley Damião da Silva Saturnino Barreto, de 3 anos. No dia seguinte, logo pela manhã, a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência esteve na comunidade ouvindo depoimentos e vendo o local onde aconteceram três das mortes, inclusive a do pequeno Wesley. Segue o relato do que ouvimos e vimos.


A ação policial começou por volta das 8h de quinta-feira (10/1/2007), com mais de 60 policiais do Bope, 3 BPM e 22 BPM, e foi dirigida pessoalmente pelo comandante do 3 BPM, Tenente Coronel Marcos Alexandre Santos de Almeida. As razões para a operação, apresentadas pela polícia para a imprensa, variaram muito: no início era "combate ao tráfico", depois "busca de veículos roubados" e "cumprimento de mandados judiciais". Na sexta-feira (11), quando a notícia da morte do pequeno Wesley já estava nos jornais, foi finalmente apresentada a versão de que a operação destinava-se a retirar barreiras montadas pelo tráfico em diversas ruas do Jacarezinho.


A verdade é que os policiais, durante todo o dia, desfizeram barreiras, revistaram pessoas e apreenderam motos (muitas foram depois requisitadas de volta por seus donos legais, moradores da comunidade), mas também arrombaram casas (muitos policiais estavam com grandes alicates e molhos de chaves para abrir portas), ameaçaram e ofenderam as pessoas, feriram muitas (a maioria não quis denunciar por medo), espancaram outras e executaram jovens, segundo moradores com requintes de tortura.


Segundo uma testemunha, um dos executados ainda de dia, chamado Zacarias, foi obrigado pelos policiais a beber duas garrafas de cloro (material de limpeza) antes de ser executado, próximo à Rua Dom Jaime. Ninguém negou que quatro dos jovens mortos fossem envolvidos com o tráfico local, mas todos disseram que em nenhum caso os que morreram estavam trocando tiros. Uma das vítimas, Flávio Augusto de Oliveira Serrano, 16 anos, não era traficante, foi retirado de dentro de sua casa e executado.


Os traficantes atiraram sim contra os policiais, mas principalmente à noite, depois da emboscada que resultou na morte de dois rapazes e do pequeno Wesley. Foi nessa resposta dos traficantes que o soldado Sá do Bope foi ferido (foi o único policial ferido em toda a dita operação, que durou um dia inteiro).


Mãe saiu para comprar fraldas


No final da tarde, todas as barreiras já haviam sido retiradas, os tiros cessaram e muitas pessoas pensaram que os policiais já haviam ido embora. Mesmo assustadas, porque boa parte das ruas estavam às escuras (os policiais haviam atirado em vários transformadores), as pessoas arriscavam-se a sair de onde estavam, para ir para casa ou outro lugar. Entre essas pessoas, estava Débora Damião da Silva, 23 anos, que saiu para comprar fraldas, levando o seu filho de seis meses, Daniel, no colo, e o pequeno Wesley pelas mãos. Era cerca de 18h.


No entanto, nem todos os policiais haviam ido embora. Muitos, a maioria aparentemente do Bope, dividiram-se em grupos para preparar emboscadas, aproveitando-se da escuridão. Um dos grupos, com cerca de 10 policiais, arrombou o portão e abriu a porta de um imóvel de três andares na Rua Esperança, quase em frente à residência da avó de Wesley, Helena Damião da Silva. Esse imóvel, que já fora utilizado outra vez pela polícia, estava vazio pois a senhora que nele reside estava viajando.


Os policiais cortaram o cadeado do portão, abriram a porta com uma chave mestra (não há sinais de arrombamento), abriram os armários do quarto da senhora (aparentemente para pegar lençóis) e foram para a laje superior, de onde se tem uma visão completa de todo o trecho da Rua Esperança. Na sexta-feira, ainda se viam uma caixa de fósforos e uma luva de borracha ensangüentada que os policiais haviam deixado na laje.
Fábio S. Santos (conhecido como Bimbim) e mais um rapaz (provavelmente chamado Denis) sentaram-se num banco de concreto que fica em frente ao n° 48 da Rua Esperança.

 Ao lado do banco, fica a escadaria pela qual Débora com seus filhos vinha subindo, voltando com o pacote de fraldas. Por volta das 18h50 os policiais da laje começaram a atirar na direção de Fábio e do outro rapaz, que foram atingidos, assim como o pequeno Wesley, que levou três tiros (no tórax, no ombro e no braço esquerdo). Todas as marcas de tiro no local mostram claramente que os disparos vieram de cima. Há perfurações no assento do banco onde estavam os dois rapazes, na calçada de concreto onde sai a escadaria, na porta de aço da casa de Helena e no chão da entrada de sua casa.

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